Uma exposição de Joana Vasconcelos em Portugal tem mesmo de ser polémica?

Fizemos esta pergunta a dois historiadores de arte, um curador que já dirigiu o Museu de Serralves e um artista. Eles explicam.

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Joana Vasconcelos com A Todo o Vapor, 2016 PAULO PIMENTA
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Néctar, 2006
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Montagem de Solitário, 2018
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Joana Vasconcelos com Solitário, uma das obras novas
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Solitário, 2018
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Joana Vasconcelos com Marilyn, obra de 2009
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www.fatimashop, 2002
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www.fatimashop, 2002
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Montagem de O Mundo a seus Pés, 2001
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I'll Be Your Mirror, a obra que dá título à exposição
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Joana Vasconcelos com Call Center, 2014-2016
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Call Center, 2014-2016, durante a montagem
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Ópio, 2003
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La Llorona, 2008,La Llorona, 2008 ,
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Miss Jasmine, 2010
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Miss Jasmine, 2010
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Miss Jasmine, 2010

Como é que alguém tão popular pode ser tão impopular? Em 2008, quando Joana da Cunha Ferreira estreou o seu documentário sobre Joana Vasconcelos, Coração Independente, fazíamos esta pergunta no PÚBLICO. Passados quatro anos, na altura em que Joana Vasconcelos foi a representante portuguesa na Bienal de Veneza, a formulação da pergunta variava um pouco, mas não muito, com um dos nossos críticos de artes plásticas a questionar-se: quem tem medo da artista colorida e bem-sucedida?

Desta vez, com alguns títulos que precedem a exposição a incluírem a palavra "polémica", chegámos a mais uma interrogação: por que razão há sempre polémica quando se faz uma exposição de Joana Vasconcelos em Portugal?

“Sou absolutamente contra a corrente da cena curatorial”, diz a historiadora de arte Raquel Henriques da Silva, que assina um dos textos do livro Joana Vasconcelos, editado em 2011. “Quase sem excepção — julgo não conhecer nenhuma —, os curadores reconhecidos que eu admiro e alguns artistas que eu também admiro não só não se interessam pelos últimos ciclos de trabalho da Joana Vasconcelos, que consideram muito inferiores aos seus inícios, como tendem a achar que Joana Vasconcelos exerce pressões indevidas para conseguir o que pretende: foi a Veneza porque pressionou o poder político, está em Serralves contra os anteriores directores. Acho que ela faz o que todos os artistas convictos fazem: luta pela sua carreira com os meios e as cumplicidades que consegue montar.”

Raquel Henriques da Silva refere-se ao facto, relatado pelo PÚBLICO, de nenhum dos dois anteriores directores artísticos do Museu de Serralves, Suzanne Cotter e João Ribas, ter assumido a responsabilidade da programação da exposição de Joana Vasconcelos que será inaugurada esta segunda-feira no Porto, no mais relevante museu de arte contemporânea nacional. Ana Pinho, presidente da administração de Serralves, tem dito que a proposta desta antológica da artista partiu do Guggenheim de Bilbau, onde se realizou de Junho a Novembro. No Porto, passou por várias mãos até ser concluída por Marta Almeida, directora interina desde que João Ribas se demitiu em Setembro em conflito com a administração.

Quem faz agora as perguntas é Raquel Henriques da Silva: “Afinal, por que é que a crítica mainstream não gosta da Joana? Afinal, por que é que os visitantes gostam?”, questiona, sublinhando que “é bom” não gostarmos todos da mesma coisa. “Em Portugal, lida-se mal com o sucesso e a capacidade ‘falante’ da arte contemporânea que, no espírito das vanguardas, ainda se considera — eu não — que é uma coisa de especialistas.”

Nos anos 90, quando foi revelada, Joana Vasconcelos "tinha o beneplácito da boa crítica", como aponta Raquel Henriques da Silva, professora na Universidade Nova de Lisboa. A Noiva (2001), o lustre feito de tampões OB que foi exposto na Bienal de Veneza em 2005 e lhe trouxe notoriedade, estabeleceu uma fronteira na passagem de artista promissora a figura polémica — Adrian Searle, o famoso crítico de artes plásticas do jornal The Guardian, não foi grande entusiasta da obra no seu texto sobre a primeira bienal comissariada por uma mulher. 

“Uma exposição de Joana Vasconcelos não tem nada de polémico. Os museus existem para apresentar as obras dos artistas e a Joana é uma artista que tem obviamente obra para ser apresentada", diz João Fernandes, o actual subdirector do Rainha Sofia, o museu de referência para a arte contemporânea em Espanha.

João Fernandes foi o primeiro a convidá-la, em 1996, para apresentar o seu trabalho num contexto museológico, quando ainda era curador independente. Numa exposição colectiva intitulada Mais Tempo, Menos História, feita para a Fundação de Serralves, a artista mostrou Trianons, dois pavilhões instalados no parque, inspirados na Versalhes da rainha francesa Maria Antonieta. Quatro anos depois, já na direcção do Museu de Serralves, Fernandes voltou a convidá-la para expor no Porto, tendo a artista apresentado Ponto de Encontro (2000), uma instalação interactiva onde os visitantes eram convidados a andar de carrossel numa sala de exposição. 

Para João Fernandes, a polémica pode estar no facto de os dois anteriores directores artísticos de Serralves se terem distanciado da programação da exposição: “Li na imprensa, como toda a gente, que não assumem a responsabilidade. Isso parece-me motivo de preocupação em relação ao funcionamento de uma instituição artística.” O que não lhe perguntem é se gostava de fazer uma exposição de Joana Vasconcelos no Museu Rainha Sofia: “Não apresento aquilo que farei ou não farei na instituição em que trabalho sem que isso esteja discutido e programado antes.” Também não quer elaborar, em poucas linhas, como olha 20 anos depois para o projecto artístico de Joana Vasconcelos, avançando apenas: “A arte tem muitos mundos, nalguns deles a obra da Joana tem tido uma aceitação e uma projecção assinaláveis.”

PÚBLICO -
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Paulo Pimenta

Quem não considera que a artista faz agora um trabalho muito diferente daquele que fazia nos anos 90 é Bernardo Pinto de Almeida, autor da obra Arte Portuguesa no Século XX, uma história crítica (2016). “Eu vejo sempre a mesma. É sempre o mesmo projecto, é sempre a mesma ideia e é sempre o mesmo processo desconstrutivo. Corresponde a um modo tipicamente contemporâneo de se apropriar de fragmentos do real para, através de sucessivas assemblages, construir objectos que se constituem como imagens relativamente surpreendentes”, afirma ao PÚBLICO. No seu livro, este historiador e crítico de arte da Faculdade de Belas-Artes do Porto sublinha o contraste entre alguma recepção internacional, materializada em “exposições realizadas por todo o mundo”, e “a antipatia por parte de alguns sectores da arte em Portugal”. “Vibrante, apelativa, colorida, ruidosa, disparatada, popular, fragmentária, surpreendente, violenta, incómoda, excessiva”, continua o autor, “a obra de Joana Vasconcelos consagra um universo crítico pós-feminista”, sendo A Noiva uma obra exemplar desse mundo em que há "uma transfiguração do banal".

Raquel Henriques da Silva também é da opinião que alguns temas importantes para a artista se mantêm desde sempre: uma permanente atitude pop, a mistura de alta e baixa cultura, as questões identitárias, o lugar da mulher e dos seus ofícios, a super-escala, o carácter festivo que deliberadamente roça o kitsch.

Pedro Portugal foi dos que acharam A Noiva, no virar do século, uma obra promissora, mas actualmente considera que a artista entrou num processo de semi-industrialização. Defende que há uma centena de artistas em todo o mundo que fazem este tipo de arte, de Jeff Koons a Damien Hirst: “É kitsch com cultura popular. No caso de Joana Vasconcelos, tem portugalidade à mistura.” A sua arte apropriacionista, “em estilo Duchamp”, “o mais difícil de todos”, mostra “coisas feitas de outras coisas" e "coisas grandes feitas de coisas pequenas”, como escreveu no ano em que Joana Vasconcelos foi a artista portuguesa em Veneza, num texto intitulado “Porque é que os artistas dizem mal uns dos outros + L’Affaire Vasconcelos”.

Nesse texto de 2012 a fazer lembrar o humor homeostético, o movimento de que fez parte nos anos 80, Pedro Portugal defende que o sucesso de Joana Vasconcelos também se explica por esta se ter transformado numa artista do regime, de Cavaco Silva a António Costa, passando por Pedro Passos Coelho: “Para a artista é óptimo poder trabalhar para o príncipe que é o Estado português e beneficiar de um pleno de encantamento e unidade entre política e arte. É seu o mérito de ter realizado uma operação de pedagogia sem precedentes nas últimas décadas: ter feito compreender a todo o aparelho de Estado, decisores artísticos e culturatis nacionais, o que é essa quimera chamada ‘arte contemporânea’.”

Pedro Portugal acrescenta que os políticos, a começar pelos autarcas, se apropriam da obra de Joana Vasconcelos para poderem dizer que é possível gostar e perceber de arte contemporânea. “Ela faz coisas que são compreensíveis, que não são chatas.” Mas o entusiasmo por Joana Vasconcelos foi também interpretado como uma rejeição de algumas linguagens artísticas. “A partir de agora, não mais coisas pretas informes, não mais texto sobre texto, não mais introspecções incompreensíveis, abaixo o corpo, fim do sexo teorizado, fim dos pensamentos indiferenciados e outras coisas más e sujas”, continuava o mesmo texto.

Regressando à nossa pergunta inicial, Bernardo Pinto de Almeida avança três razões para as polémicas em redor da figura de Joana Vasconcelos. “Primeiro, a Joana começou por se afirmar no território nacional, mas muito rapidamente passou para o plano internacional. Não precisou de uma legitimação interna sancionada pelas instituições e pelo modus operandi da lógica artística nacional. Segundo, não teve só o reconhecimento internacional institucional, com exposições em Versalhes, no Guggenheim ou na Royal Academy, mas afirmou-se também no plano do mercado [internacional] e isso perturba profundamente o pensar português, que é pequeno-burguês e não está habituado ao sucesso.” Por último, para Pinto de Almeida o projecto artístico da Joana Vasconcelos não tem um enquadramento lógico no sistema de reconhecimento visual, estético e cultural que é dominante em Portugal. “A maior parte da arte portuguesa dos últimos anos, aquela que tem maior reconhecimento crítico, institucional, de mercado, está normalizada dentro de um determinado gosto. Diria que é um gosto a preto-e-branco, para o descrever de uma forma muito rápida.”

A exposição em Serralves é, na visão de Pedro Portugal, “a glória para Joana Vasconcelos, porque assim se sente finalmente reconhecida em Portugal, uma vez que se trata do mais importante museu de arte contemporânea nacional".

Se ela lutou e conseguiu chegar aqui, como já tinha chegado a Veneza, diz Raquel Henriques da Silva, é porque constrói apoios. "A exposição é uma itinerância que põe Serralves em rotas de circulação internacional onde não é fácil entrar. Todos os artistas lutam pelas suas carreiras, uns reunindo consensos, outros não.”

Esta segunda-feira, o triunfo de Joana Vasconcelos consumar-se-á perante um museu com uma direcção interina, pois Serralves ainda não anunciou o substituto de João Ribas, que se demitiu no auge de uma sequência de acontecimentos que provavelmente nunca será esclarecida e que já abalou o prestígio da instituição.

Notícia alterada a 18/2/2019: acrescenta a instituição universitária onde dá aulas Bernardo Pinto de Almeida