Opinião

A importância das vacinas no combate às dez maiores ameaças em saúde global

Nenhuma ameaça é insuperável se formos capazes de superar a indiferença com o sofrimento do outro.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou em meados de janeiro uma lista com as principais ameaças de saúde para 2019. Como esperado, a lista fala de doenças perigosas como o ébola, influenza e dengue, mas também de temas estruturais que, embora não estritamente médicos, têm relação directa com a saúde de populações inteiras, como a qualidade dos sistemas de saúde e contextos de extrema vulnerabilidade.

Outro tema que chamou a atenção foi o movimento anti-vacinas, um dos fatores por trás do ressurgimento de doenças como o sarampo em países onde já estava controlado. A relutância em vacinar normalmente ocorre em países onde há acesso a vacinas. A organização Médicos Sem Fronteiras (MSF) atua no outro extremo, em locais onde faltam vacinas e é um desafio diário levá-las às pessoas. Nesses contextos, as nossas equipas observam tanto o efeito devastador de doenças que podem ser prevenidas como a grande esperança e alegria em torno de uma campanha de vacinação.

As vacinas são uma importante ferramenta em crises humanitárias, como a crise migratória no Mediterrâneo, onde milhares de pessoas não têm acesso aos cuidados mais básicos, e que pode ser encarada como o que a OMS chama de “contexto vulnerável”. Esta crise é evidente nas ilhas gregas de Lesbos, Chios e Samos, que se tornaram prisões a céu aberto para um número cada vez maior de refugiados.

Nesta crise, tal como em outros contextos, a pneumonia é a principal causa de morte entre as crianças. Desde 2016, os MSF procuram ampliar a vacinação contra a pneumonia na Grécia, mas um dos obstáculos foi o preço da vacina, de 210 dólares (cerca de 183 euros) por criança. Foi preciso uma campanha internacional para convencer os fabricantes a reduzirem o preço para organizações como os MSF, que atuam em crises humanitárias. No final de 2018 avançou uma negociação para que os MSF adquiram a vacina na Grécia por nove dólares (7,8 euros) por criança, o que vai permitir a vacinação de mais de duas mil crianças nos próximos meses.

Superar a barreira dos preços é um esforço árduo, mas necessário. A cobertura da vacina da pneumonia ainda é inaceitavelmente baixa no mundo e muitos países já afirmaram que o preço é um dos motivos. Caso a vacinação chegasse a todos, haveria uma significativa redução no uso de antibióticos para tratar a pneumonia. Essa seria uma grande contribuição para enfrentar outra ameaça apontada pela OMS: a resistência aos antibióticos, que surge em parte devido ao uso inadequado.

Mas para fazer com que as vacinas cheguem onde são precisas, não basta uma mudança na forma como os preços são definidos, é preciso também mudar o facto de que os investimentos na investigação se concentram em doenças que afetam países ricos.

Em 2014 e 2015, por exemplo, o mundo assistiu em choque a uma devastadora epidemia de ébola na África Ocidental. Os MSF estavam na linha da frente do combate à doença, mas as nossas equipas viram-se de mãos vazias, pois não existiam vacinas e tratamentos para serem usados. Vacinas promissoras estavam em fase de pesquisa, mas a falta de interesse fez com que não fosse possível desenvolvê-las a tempo para enfrentar a epidemia.

Sem contar que é bastante frequente as vacinas serem desenvolvidas sem ter em conta as condições climáticas e infraestruturais dos países em desenvolvimento. A maioria das vacinas, por exemplo, não pode ser exposta ao calor, o que gera dificuldades enormes para organizações como os MSF, as quais realizam vacinação em áreas remotas e sem eletricidade.

As vacinas são importantes para lidar com vários desafios apontados pela OMS, mas elas têm de ser desenvolvidas e distribuídas com enfoque em quem mais precisa. Muitos países apresentam um recuo da cobertura vacinal, incluindo o Brasil, e as ameaças comportamentais – económicas e políticas por trás desses dados – têm de ser igualmente enfrentadas, lembrando sempre que nenhuma ameaça é insuperável se formos capazes de superar a indiferença com o sofrimento do outro.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico