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Para onde caminhas tu, jornalismo?

A quarta edição da revista Electra, da Fundação EDP, está nas bancas e livrarias com um propósito exigente: pensar o jornalismo e os meios de comunicação no tempo presente. Será que o “contrapoder” se esqueceu de si próprio?

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O mundo mudou e o jornalismo mudou com ele. Mais do que isso, os media informaram – e influenciaram – essa transformação: os acontecimentos e o que sobre eles se diz chegam-nos pelas notícias, pelos comentários e agora também pelas redes sociais. Já há 40 anos, Paddy Chayefsky alertava no filme “Network” (1976), pela voz do protagonista Howard Beale, que “há toda uma geração inteira que nunca soube nada que não tivesse saído deste tubo [televisão]”.

Uma coisa é certa: o jornalismo já não é o que foi e ainda não é o que será. O “contrapoder” tenta adaptar-se às exigências das tecnologias, do mercado, da aceleração do tempo, de uma sociedade em transformação e de um mundo globalizado, mas “falou muito do que estava a acontecer e pouco do que lhe estava a acontecer a ele próprio”, alertam José Manuel dos Santos e António Soares no editorial da Electra n.º 4. É este o ponto de partida da revista trimestral da Fundação EDP que assim desafia os media a olharem para si e o público a olhar para eles com os olhos abertos.

Ainda faz sentido falar em Quarto Poder?

Se antes o jornalismo erguia a sua bandeira de “quarto poder”, ou o seu latido de “cão de guarda”, actualmente este já não é um dado adquirido. Com o título “Rezar pelo Jornalismo”, António Guerreiro aborda o seu enfraquecimento, indissociável das questões políticas. O autor é peremptório e lança a discussão a que a Electra se propõe: “[Isto] é um sinal de que se tornou urgente fazer aquilo que os media mais resistem a fazer, a autocrítica, e declarar que a profissão correu mal”.

Um dos filósofos espanhóis mais importantes dos dias de hoje, José Luis Pardo, segue a mesma linha e questiona se a imprensa continua a “responder à sua mais antiga função social”. Numa altura em que tudo é tão imediato e há novos elementos em jogo, nomeadamente as redes sociais, o jornalismo tem assumido novas formas e nem sempre mantém a distância racional exigida, sucumbindo muitas vezes ao sentimentalismo sensacionalista. Além disso, a velocidade potencializada pela tecnologia, a par de outros factores, torna a sobrevivência do papel cada vez mais difícil. Qual o desfecho desta luta desigual? Jacinto Godinho, autor de grandes reportagens, tem uma palavra a dizer sobre isto em “Repórteres e cineastas: o medo da ficção”.

Dois temas da maior importância são tratados pelo filósofo francês Yves Citton que reflecte sobre o conceito de populismo, e por Barbie Zelizer, directora do Center for Media at Risk na Annenberg School for Communication, que analisa a relação entre crise e jornalismo.

David vs. Golias: o desafio digital

Os autores desta Electra situam um dos centros deste debate: o virtual veio alterar o paradigma e há que perceber a dimensão da mudança – e o que se poderá ter perdido pelo caminho. Em entrevista, Joshua Benton, do observatório de jornalismo Nieman, em Harvard, trata os desafios apresentados pelo digital e pelos acontecimentos políticos, nomeadamente a eleição de Donald Trump como presidente dos Estados Unidos da América. E o perigo que representa a proliferação desenfreada de informação nas redes, o que vai ao encontro do texto da professora Carla Baptista, “Das boas notícias às notícias falsas”. Mais uma vez, a relação entre o jornalismo e a política é pensada sob diferentes perspectivas.

Parte da ameaça está no facto de a audiência se dispersar por novas fontes, nem sempre credíveis. “Os públicos, outrora agrupados em centros de autoridade, alguns dos quais seriam a televisão, a rádio ou o jornal, estão fragmentados”, frisa Carla Baptista. Também Benton explora o problema global com que se deparam os media, o que representa um certo retrocesso ao período prévio aos meios de comunicação de massas: “O fosso que separa a pessoa muito bem informada da pessoa menos informada, aumentou; e é nesse sentido que há um regresso a uma época pré-massificação”. Será possível inverter esta tendência?

Muitos outros temas

Além do tema principal, a quarta edição da Electra aborda outras questões contemporâneas de grande relevância. Um dos principais destaques vai para “Israel: como se faz um Estado-nação?”, com artigos de Donatella Di Cesare e de Éric Marty. Os dois autores, que apresentam um “currículo” já longo nesta temática, problematizam, de pontos de vista diferentes, a lei que define Israel como Estado-nação e o hebreu como única língua oficial. Não perca ainda artigos sobre Berlim, “Os anos de formação do jovem Albert Einstein”, Ludwig Wittgenstein, Emmanuel Todd, Paula Rego, Jorge Molder, Rui Chafes, o Festival de Bayreuth, e uma entrevista fundamental com Alexander Kluge, figura mítica da cultura alemã. Com um belíssimo portfólio de William Kentridge, são cerca de 240 páginas de análise e reflexão sobre jornalismo, cultura, arte e sociedade na sua Revista Electra.​

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