Opinião

Os polícias não podem perder a cabeça

Será que se pretende institucionalizar uma competição entre polícias e os habitantes de bairros degradados?

As reacções dos dirigentes sindicais da PSP à visita do Presidente da República ao Bairro da Jamaica são demonstrativas de uma grave e arreigada incompreensão do papel das forças policiais numa sociedade democrática.

Para Alexandre Moreira, presidente do Sindicato Vertical das Carreiras da Polícia, a atitude do Presidente da República, “ao visitar o Bairro da Jamaica e, tirando selfies com indivíduos suspeitos da prática de crimes, contra a autoridade do Estado, transmitiu e incutiu, mesmo que involuntariamente, um sentimento de impunidade para todos os, alegados e comprovados, criminosos, em detrimento daqueles que representam a autoridade do Estado”. Pelo seu lado, o presidente da Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, Paulo Rodrigues, sobre a mesma visita afirmou, em entrevista na televisão, que “a figura que é representante máxima do Estado desvaloriza, despreza e ignora completamente aquilo que é a missão da polícia. O sr. Presidente da República quis dizer em mensagem, com esta visita, que está no fundo do lado daquelas pessoas, sobretudo daqueles indivíduos que criaram desacatos, um deles com quem tira até uma selfie é um dos que agrediu um profissional da polícia”.

Será que, no entender deste dirigente sindical, os agentes da PSP estão de um lado e as pessoas que vivem no Bairro da Jamaica do outro? Será que a missão dos agentes da PSP de que fala é a de combaterem as pessoas de um bairro? E isto por existirem nesse bairro pessoas que criam desacatos? Será que, na opinião deste dirigente sindical, o Presidente da República devia optar entre estar do lado dos habitantes do Bairro da Jamaica, sobretudo os que criaram desacatos, ou do lado dos agentes da PSP?

Acrescentou, ainda, este dirigente sindical, num momento particularmente infeliz, que se o Presidente da República queria “ver edificações degradadas, podia ter ido à Calçada da Ajuda em Lisboa ou à Bela Vista do Porto (instalações policiais), que em matéria de instalações vergonhosas ganham à Jamaica”.

Como é evidente – e o Presidente da República viu-se, de alguma forma, obrigado a afirmá-lo publicamente –, é uma vergonha que os dirigentes sindicais da PSP não percebam que as forças de segurança, a quem a sociedade confere autoridade e armas, estão num nível distinto da comunidade que servem e protegem, não podendo colocar-se em oposição ou comparar-se com parcelas dessa mesma comunidade.

A função da PSP é assegurar a ordem, a tranquilidade pública e a segurança bem como proteger as pessoas e bens, garantindo, assim, os direitos e liberdades de todos os cidadãos, bem como o funcionamento das instituições democráticas. Para cumprirem esta missão, os agentes da PSP têm de ser profissionais, obedecer aos protocolos estabelecidos e serem, naturalmente, ponderados na sua actuação. Não podem entrar em discussões de rua nem perder a cabeça. Têm de ter, não só escudos físicos para os proteger das agressões materiais, como também escudos interiores para os distanciarem das provocações e ofensas.

A sua missão é particularmente dignificada em qualquer sociedade e traz responsabilidades e deveres de actuação que não são compatíveis com estas comparações entre as instalações degradadas de algumas esquadras e as notoriamente difíceis condições de vida de parcelas da nossa comunidade. Na verdade, é uma comparação que torna a PSP numa outra qualquer parcela da comunidade e que ignora a sua realidade e dignidade institucional. Ou será que se pretende institucionalizar uma competição entre polícias e os habitantes de bairros degradados?

É exactamente esta absurda e perigosa noção de nós, de um lado, e eles, do outro que, de resto, muita gente procurou alimentar, que o Presidente da República, ao deslocar-se sem aviso prévio ao Bairro da Jamaica, quis evitar que se espalhasse e criasse raízes na nossa sociedade e, em particular, nesse bairro.

Uma visita absolutamente coerente com a sua política, desde o início anunciada, de descrispação e de procura de consensos e entendimentos dentro da sociedade portuguesa. Uma visita que reforça, de forma evidente, a sua função de Presidente de todos os portugueses.

Quando os dirigentes sindicais da PSP perceberem isso, estaremos, seguramente, a viver numa sociedade com mais segurança e tranquilidade.