Opinião

A literatura mundial em auto-extinção

Na sexta-feira de 4 de Janeiro começaram a chegar às livrarias de todo o mundo os trezentos e vinte mil exemplares da primeira impressão do novo romance do escritor francês Michel Houellebecq, Sérotonine. Desta vez, o escritor não dá entrevistas nem participa na promoção do seu livro. Na verdade, que suplemento poderia ele trazer à campanha que começou antes de o romance ser publicado e continuou, mal o romance saiu, com artigos e recensões nas principais páginas culturais e de crítica dos jornais e revistas europeus (ou do mundo inteiro, não posso garantir)? A ideia de uma “literatura mundial” encontra aqui um exemplo eloquente. Como sabemos, foi Goethe, em 1827, nas suas conversas com Eckermann, que anunciou o aparecimento de uma “literatura mundial”, uma Weltliteratur. Fê-lo com estas palavras: “A literatura nacional já não significa grande coisa, chegou o momento da literatura mundial”. Esta reflexão de Goethe integrava-se numa visão das trocas interculturais e internacionais (e também numa apologia da tradução), que Marx, também ele um teórico da “literatura mundial”, depois desenvolveu, formulando as leis de um “mercado mundial” que integra tanto os produtos materiais como a literatura.

O que Goethe não previu é que a sua “literatura mundial” iria ser submetida às forças de uma economia globalizada que alteraram completamente a ecologia literária, o eco-sistema da literatura. É de facto nos termos de uma ecologia que a questão deve hoje ser colocada, quando se deu uma crescente concentração da indústria editorial e quando se consumou um mundo literário homogéneo, dominado pela língua inglesa (Houellebecq, escrevendo em francês, é uma rara excepção) e pela emergência de uma espécie de “romance-mundo” standardizado, facilmente partilhável porque já é escrito numa língua da tradução. É neste contexto que podemos encontrar quem faça a apologia da intraduzibilidade, como é o caso de Emily Apter, professora na Universidade de Nova Iorque, num livro que suscitou muitas reacções, Against World Literature. On the Politics of Unstranslatability (2013). Apter faz nesse livro uma crítica às “políticas da tradução” e à redução da cultura literária a um cânone homogeneizado.

A questão de uma ecologia literária coloca-se em vários níveis. Desde logo, ao nível das literaturas nacionais e, muito especialmente, naquele da diminuição do número de existências de cada espécie. Sabemos que o desequilíbrio ecológico começa primeiro com a diminuição de exemplares das espécies mais vulneráveis e torna-se um desastre quando há espécies que se extinguem completamente. A literatura como um sistema planetário, que por isso reclama também uma análise ecológica, tem sido estudada por um notável teórico da literatura comparada chamado Franco Moretti (um italiano, irmão do cineasta Nani Moretti, professor na Universidade de Stanford, na Califórnia). Neste mundo normalizado da ficção, em que quase tudo se parece a “ficção de género”, as realizações literárias distantes do sistema da literatura mundial podem ter sucesso quando satisfazem desejos e necessidades de algum exotismo. Esta nova “literatura mundial” já não tem nada a ver com questões do cânone, como acontecia ainda nas reflexões de Goethe, mas com modos de circulação e de leitura. Está assim prestes a realizar-se um vaticínio desse grande romanista alemão que foi Eric Auerbach (1892-1957), num ensaio sobre filologia e literatura mundial: “Num cultura literária única (...) a noção de literatura mundial ter-se-ia ao mesmo tempo realizado e extinguido”. 

Ora, esta precipitação universal e simultânea para o novo romance de Houellebecq é um indício de que estamos a chegar ao momento em que a literatura mundial se está a consumar de tal maneira que já podemos anunciar que chegámos ao momento auerbachiano da sua extinção. E a crítica cosmopolita desta literatura mundial nem se apercebe que habita, afinal, na província literária. O que é espantoso é que, lendo grande parte do que se escreveu sobre o romance de Houellebecq, dificilmente encontramos alguém que considere que se trata de um bom romance. O selo que ele traz incorporado, e que já nem precisa de tomar a forma de cinta, diz “obrigatório”. E isso basta.