Novo Hospital de Vila Franca de Xira tem cinco anos mas já precisa de ampliação

O hospital, que serve 250 mil habitantes foi projectado para 280 camas mas o aumento da procura dos serviços e o envelhecimento da população fazem com que o internamento fique muito aquém das necessidades.

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enric vives-rubio

O novo Hospital de Vila Franca de Xira foi inaugurado em Maio de 2013, mas passados pouco mais de cinco anos são já muitos a reconhecer que lhe falta capacidade para responder aos cerca de 250 mil habitantes que serve, sobretudo no que diz respeito ao número de camas para internamento. Ciclicamente, a unidade hospitalar esgota completamente a sua capacidade de internamento e é obrigada a solicitar o encaminhamento de novos doentes para hospitais vizinhos. Foi o que aconteceu na passada segunda-feira. A situação, de acordo com o hospital, não terá afectado mais de 20 utentes, mas a Câmara de Vila Franca de Xira sustenta que é preciso começar já a pensar numa ampliação do hospital.

Construído no âmbito de uma parceria público-privada por um consórcio liderado pela Somague, o novo Hospital de Vila Franca de Xira envolveu um investimento da ordem dos 100 milhões de euros. O concurso para sua gestão clínica foi ganho por uma empresa do Grupo José de Mello Saúde e a unidade tem conseguido diversas certificações nacionais e internacionais e a Entidade Reguladora para a Saúde também reconhece a qualidade de vários serviços. Mas o problema é que o hospital, que serve os 250 mil habitantes dos concelhos de Vila Franca, Alenquer, Arruda, Azambuja e Benavente, foi projectado para 280 camas (mais 60 do que as que existiam no antigo hospital) e a realidade tem demonstrado que o aumento da procura dos serviços e o envelhecimento da população fazem com que o internamento fique muito aquém das necessidades. A administração da unidade tem desenvolvido alguns planos de aproveitamento de espaço que permitem, no limite, atingir uma capacidade de 350 camas, mas, mesmo assim, insuficientes para os períodos mais complicados do ano, sobretudo no Inverno.

Cerca das 14h30 da passada segunda-feira, tal como já acontecera a 9 de Fevereiro do ano passado, o Hospital vila-franquense foi obrigado a solicitar ao CODU (Centro de Orientação de Doentes Urgentes) que suspendesse o encaminhamento de utentes para as suas instalações, por manifesta falta de camas. Durante vinte e uma horas, os doentes originários desta região foram reencaminhados para Lisboa e para Santarém. O PÚBLICO apurou que a sobre-ocupação dos serviços de internamento obrigou mesmo, nessa segunda-feira (dia da semana normalmente com mais procura), a “internar” 45 doentes nos espaços do Serviço de Urgência. Ao princípio da manhã seguinte, a situação melhorou e o hospital voltou a receber doentes com normalidade a partir das 9h00 de terça-feira. “A medida, utilizada previamente em situações semelhantes, foi implementada por não existir mais espaço físico para receber novos utentes e para garantir as condições necessárias para tratar correctamente os utentes que se encontravam no Serviço de Urgência do Hospital”, explica a administração da unidade hospitalar vila-franquense em resposta ao PÚBLICO, vincando que “durante o período em que existiu um desvio pontual de utentes oriundos do CODU, o Serviço de Urgência do Hospital Vila Franca de Xira esteve a funcionar em pleno, atendendo os utentes que se dirigiram ao hospital por meios próprios com tempos de espera bastante razoáveis face à elevada afluência registada”.

Autarcas preocupados

O problema foi também abordado, já esta quarta-feira, em reunião da Câmara de Vila Franca de Xira, com a vereadora Regina Janeiro (CDU) a questionar que informação tem o executivo camarário sobre estas dificuldades da unidade hospitalar que atende os 140 mil habitantes do município vila-franquense. “Ficámos estupefactos com a informação de que a urgência ficou sem capacidade de resposta. Partimos do pressuposto de que um hospital tão recente já tenha sido planeado para ter em conta este aumento da esperança de vida e da procura dos utentes. Surpreende-me que a urgência tenha ficado sem capacidade de resposta. O que é que se passa? O que é que vamos fazer? Será que o novo hospital foi bem planeado?”, questionou Regina Janeiro.

Alberto Mesquita, presidente da Câmara vila-franquense, reconhece que há problemas, sobretudo ao nível da capacidade de internamento. Segundo apurou junto da administração hospitalar, a situação da passada segunda-feira “afectou poucos doentes” e “foi revertida” a partir do início da tarde, sendo o “desvio” temporário de doentes articulado com a Administração Regional de Saúde de Lisboa e Vale do Tejo (ARSLVT).

“Houve um pico de afluência que, depois, em articulação com a ARS, se foi desvanecendo. Neste período da gripe é importante que as pessoas recorram primeiro aos centros de saúde. Temos que encontrar soluções para que este primeiro embate da gripe seja atendido através dos centros de saúde”, observou o edil, admitindo, no entanto, que há um problema de fundo, que é a necessidade de ampliação do novo hospital. “Já falei sobre esta necessidade de ampliação com secretários de Estado e com ministros da Saúde, dizendo-lhes que há a necessidade de ampliar, sobretudo relativamente ao número de camas. Julgo que na nova negociação da concessão (actualmente em avaliação) esta matéria deverá ser colocada”, defende Alberto Mesquita.

O presidente da Câmara de Vila Franca de Xira considera que, neste momento, “tendo em vista a qualidade dos serviços prestados, este hospital é um dos melhores do País. Há muitas pessoas que vêm de fora para serem aqui atendidas, pelos profissionais que lá estão e pelos equipamentos e condições que tem”. Mas Alberto Mesquita admite que, “quando o hospital foi construído, provavelmente não haveria esta ideia de que não iria ter capacidade de oferta para toda esta gente que hoje lá vai. Claramente, na minha opinião, o hospital deve ser ampliado. O Estado tem que encontrar soluções e, com a nossa participação, fazer aquilo que é necessário fazer”, referiu o autarca do PS, frisando que “isso não invalida que seja um hospital que tem oferecido as melhores condições em termos de tratamento em vários domínios”.

Em 2017, o Hospital de Vila Franca de Xira registou 142 608 atendimentos nas urgências, realizou 11 784 cirurgias e contabilizou perto de 160 mil consultas externas. Já em 2018, a afluências nas urgências voltou a aumentar, sobretudo no mês de Fevereiro, em que 18 dos 28 dias foram de “contingência máxima” devido à elevada afluência na urgência.

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