Enfartes deixam sequelas na memória e na comunicação em 85% dos doentes

Fluência verbal e perda de memória são as áreas mais afectadas por este tipo de problema cardíaco. Investigação defende generalização de programa de reabilitação neurológica para reduzir risco de demência no futuro.

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Paulo Pimenta

As doenças cardiovasculares são uma das principais causas de morte e de morbilidade (limitações) em Portugal, assim como na Europa. Investigadores portugueses acompanharam um grupo de doentes que tiveram um enfarte. E concluíram que 85% ficaram com algum tipo de perda cognitiva. Destes, 49% apresentavam défices considerados graves. As áreas mais afectadas eram a fluência verbal e a memória.

Os investigadores recomendam, por isso, a criação de programas de reabilitação neuropsicológica para estes doentes, a começar o mais rapidamente possível após o enfarte, para limitar problemas futuros e promover a reintegração na vida activa.

Os valores apurados nos 53 doentes avaliados pela equipa portuguesa são superiores aos encontrados noutros estudos internacionais. Bruno Peixoto, investigador do Centro de Investigação em Tecnologias e Serviços de Saúde (CINTESIS), explica que, no trabalho que coordenou, os doentes, seguidos no Centro Hospital de São João, no Porto, tinham sofrido de síndrome coronária aguda (por exemplo, um enfarte) nos três meses anteriores e estavam iniciar um programa de reabilitação cardíaca. Um grupo mais restrito de pacientes e um sistema de avaliação mais específico, diz, podem explicar as diferenças apuradas em relação a outros estudos.

Este trabalho — cujos resultados foram publicados no Journal of Cardiovascular and Thoracic Research — alerta para o funcionamento neurocognitivo após um enfarte do miocárdio. “Quanto a mim este é o aspecto mais importante. Alerta para uma franja importante da população que passa por esta situação, sendo que nem sempre é dada grande atenção a este domínio”, afirma o também professor da Cooperativa de Ensino Superior Politécnico e Universitário (CESPU). “Sabemos que a síndrome coronária aguda faz aumentar em cinco vezes a probabilidade de a pessoa vir a desenvolver um quadro demencial anos mais tarde. Temo que estes valores altos de défices severos possam, de certa forma, alargar a probabilidade de muitas destas pessoas evoluírem para um quadro de demência.”

Memória é uma das mais afectadas

A média de idades dos doentes avaliados no estudo é de 51 anos. Entre as principais áreas cognitivas afectadas pelo enfarte estão a fluência verbal — que está relacionada com a capacidade de irmos buscar informação guardada no nosso cérebro e com a capacidade de mudar de tarefa rapidamente — e a memória. Segundo a investigação, 85% dos doentes apresentavam problemas de fluência verbal (em 50% dos casos, falhas graves) e 60% revelavam défices de memória. Quanto a problemas de linguagem, foram detectados em 26% dos doentes.

Existem factores que podem influenciar negativa ou positivamente as áreas afectadas: a idade (quanto mais velho for o doente, maior a probabilidade de sofrer de algum tipo de défice); o tabagismo (o número de cigarros fumados por dia antes do enfarte está relacionado com a gravidade com que a memória é afectada); e a escolaridade (quanto maior a escolaridade menos é afectada a fluência verbal após um evento cardíaco).

A investigação conclui que é fundamental a existência de programas de reabilitação neuropsicológica, que comecem o mais rapidamente possível após o problema cardíaco. “Estes programas visam fortalecer os aspectos cognitivos mais deteriorados, no sentido de aumentar a resistência a todos os processos que possam provocar alguma erosão do funcionamento neurocognitivo”, explica o investigador, dando o exemplo de uma árvore: “Quanto mais ramos e folhas tiver, quando vier uma ventania menos se nota a perda desses ramos."

“O que se chama a atenção é que estes indivíduos, à entrada de um programa de reabilitação, devem ser avaliados, identificadas as dificuldades para que precocemente seja aplicada a reabilitação neuropsicológica. Não é uma prática tão comum como devia ser no nosso país nestes doentes”, remata o investigador.