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Plovdiv: a cidade antiga com atitude moderna

Ergue-se sobre as suas sete colinas sem hipotecar um passado tão ligado a diferentes civilizações, caminhando sem medo e cheia de dinâmica rumo a um tempo que se funde na sua história ancestral. A cidade búlgara partilha com Matera o título de Capital Europeia da Cultura.

Plovdiv está de cara lavada.

Dela tenho uma memória. Mas já lá vão 25 anos.

Pouco tempo quando comparado com a sua história, tão remota. Há registos que a apontam como a sexta cidade mais antiga do mundo permanentemente habitada. Há quem jure que os trácios já pisavam este solo 4000 anos a. C., uma existência que, a ser verdade, torna Plovdiv como a cidade mais antiga do continente europeu.

Este sábado, 12 de Janeiro de 2019, Plovdiv está nas bocas do mundo por outras razões - por ser o dia em que inaugura, oficialmente, um vasto programa de actividades até ao final do ano como uma das capitais europeias da cultura, a par de Matera, com quem parece ter tanto em comum, mais que não seja esse passado distante.

Estruturado em quatro plataformas temáticas, o programa, rico em cores e em eventos, inspira-se na história búlgara, no temperamento dos Balcãs e na elegância da Europa, com iniciativas que prometem satisfazer todos os gostos e atrair, ao longo do ano, mais de dois milhões de turistas. Há lugar para o folclore, para as tradições locais, para os amantes da arqueologia e da história, para a gastronomia (Mood for Food) e para os vinhos que já nesse passado longínquo eram produzidos pelos trácios. Hedonista e boémia como é, a cidade não ignora todos os tipos de público e tem agendado, para os últimos três dias de Junho, o Hills of Rock, com a presença de bandas como os Whitesnake, os Garbage e, entre outros, os Disturbed, enquanto o popular Plovdiv Jazz Fest, com uma história de quase 20 anos, terá lugar em Novembro (pelo meio, em Setembro, há ainda o interessante e invulgar Love Swing Dance Festival).

Após quatro anos de preparação, Plovdiv está preparada para proporcionar, até aos últimos dias de Dezembro, mais de 300 projectos e cerca de 500 iniciativas, não apenas na cidade mas um pouco por toda a região do Sul da Bulgária e estendendo-se mesmo a Sófia, Veliko Tarnovo e Varna, as finalistas da segunda ronda da competição para definir a capital europeia da cultura - “Juntos” será o lema de Plovdiv, procurando construir pontes para o futuro e, ao mesmo tempo, maximizar a autenticidade dos eventos culturais.

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Bairro de Kapana DR

À minha frente tenho, mal a manhã desperta, o anfiteatro romano, uma obra magnificente com capacidade para entre 5000 e 7000 espectadores que alguns atribuem ao imperador Domiciano, outros a Marco Aurélio, outros ainda a Trajano – mas escavações recentes reforçam a tese de que foi mandado erguer no século I, por Tito. É neste espaço, apenas descoberto na década de 1970 e devido a um deslizamento de terras, que terá lugar um dos espectáculos mais aguardados em 2019, o Opera Open (já iniciada há dois anos e sucessor de um festival com mais de 30 anos de tradição), com um total de 10 espectáculos entre 14 de Junho e 31 de Julho, contemplando, entre outros, um tempo dedicado a Verdi e performances de ballet com estrelas do teatro Bolshoi de Moscovo.

Museus e galerias

Plovdiv é uma cidade com tanto do passado e com outro tanto do futuro, com museus que expressam essa herança e com galerias de arte que nos remetem para um outro tempo, menos distante, mais indefinido. Plovdiv é um paradoxo. Entre os primeiros, o melhor mesmo é começar pelo museu etnográfico, com mais de 40 mil artefactos, entre trajes típicos, instrumentos musicais, joalharia e artesanato tradicional, um admirável mundo velho que inclui peças em áreas tão distintas como a tecelagem, o metal, a vinicultura e a apicultura – mas também não se surpreenda se encontrar, entre material utilizado para a produção de vinho, outros aparatos, talvez menos familiares, destinados à destilação de essência de rosas.

Vale a pena dar um salto até aos aposentos, originalmente do século XIX, situados no primeiro andar; para admirar os tectos em madeira esculpida daquele que é o monumento mais renomado de Plovdiv e cuja construção se iniciou em 1847, tendo como proprietário Agir Koyoumdjioglou, antes de o edifício se transformar num internato feminino e, mais tarde ainda, num armazém de tabaco e de farinha.

Aprecio os museus de Plovdiv.

Na Ulitza Lavrenov, a curta distância, descubro um outro, este dedicado à História, erguido em 1848 por Dimitar Georgiadi (e, por isso, também vulgarmente conhecido como Georgiadi Kashta) tão concentrado na revolta de Abril de 1876 e no massacre dos búlgaros em Batak, por sua vez tão intimamente ligado à declaração de guerra dos russos à Turquia no ano seguinte.

Plovdiv, cidade das sete colinas, das tepes – designação turca para colina - surpreende.

Há outros ainda, como o museu de arqueologia, com colecções dos trácios e dos romanos, exemplos de cerâmica ou de joalharia, artefactos eclesiásticos ou ícones e toda uma parafernália em exposição, ao lado de mais de 60 mil itens arqueológicos que atrasam uma visita a outro museu de História, situado no mesmo espaço, mas focado na unificação da Bulgária, em 1885, através de uma amostra de documentos, de fotografias e de pertences dos protagonistas.

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O sol rompe por entre as nuvens e dá uma trégua ao cinzentismo matinal. Deixo-me inebriar, por momentos, pelos cheiros das ruas do coração histórico. Há galerias de arte que quero invadir, com mais ou menos tempo, errar pelo agradável bairro de Kapana, com os seus bares e restaurantes, com os seus artistas. Não tarda, deixo-me seduzir pelo Centro Cultural Thrakart, que avisto muito antes, do exterior, sem desconfiar da presença de mosaicos romanos e de outros artefactos (até mais antigos) e muito menos ainda de concertos num pequeno palco no interior. E, durante a tarde, como num desfile, algumas dessas galerias de arte vão poisando à frente dos meus olhos, como convites tentadores, aliciando-me a entrar, a contemplar, com tempo, sem pressas, nessa errância feliz que deve marcar a vivência do turista perante a arte (talvez perante a vida).

É assim, num passo tranquilo, quase medido, que me identifico com a obra de Dimitar Kirov, percorrendo com o olhar uma exibição permanente que, abrigada numa antiga mansão do coração histórico de Plovdiv, perpetua a vida e o trabalho daquele que, cruzando-se com a morte aos 73 anos, pode ser considerado o mais original de todos os artistas nativos, com trabalhos em que se projectava a cor, fosse em mosaicos ou em materiais abstractos.

Das tepes e das casas

Cidade universitária, segunda maior do país logo após Sófia, a capital, Plovdiv tem ainda a vantagem de estar próxima de tantas outras atracções culturais e espirituais no Sul (resultado da presença de trácios, romanos, macedónios, eslavos, bizantinos e turcos), como o mosteiro de Rila (o maior e o mais renomado em toda a Bulgária), de lugares tão mágicos, tão fiéis à natureza, como os seus lagos emoldurados pelas pedras que se recortam contra o céu, a suave cordilheira de Rodopi e as montanhas Pirin (com picos a aproximarem-se perigosamente dos 3000 metros), sem ignorar (imperdível) os vinhos de Melnik e essa paisagem, tão envolta em serenidade, que nos transporta para pirâmides de arenito – assim é Plovdiv, esse inestimável testemunho do passado que teima em trilhar os caminhos do futuro, na esperança de não hipotecar nem um nem outro.

Há mais galerias de arte (uma permanência ou um regresso dos artistas parecem ser sintomas em comum entre Plovdiv e Matera) na cidade búlgara, mais dinâmica, mais viva, mais desperta, mais cultural, mais afectiva do que Sófia – Plovdiv deveria ser, para um viandante ou para um turista, a cidade de eleição na Bulgária (e provavelmente só não se tornou capital porque o Congresso de Berlim, no final da guerra entre turcos e russos, em 1887, deixou a cidade e o sul da Bulgária nas mãos dos primeiros).

Mesmo depois de deitar olhares, mais ou menos fugazes, a espaços culturais, mais ou menos públicos ou privados, à procura de arte moderna (Encho Pirokov), de obras de Goshka Datsov, Konstantin Velichkov e Nikolai Rainov, mesmo de Georgi Mashev e de Vladimir Dimitrov (no State Gallery of Fine Arts), de me sentir alguém com muito tempo no Philippolis Art Galery, a primeira galeria de arte privada de Plovdiv, prestando homenagem, num velho edifício de 1865 (a casa de Hadzhi Aleko), a artistas dos séculos XIX e XX, mestres búlgaros como o (já citado) Vladimir Dimitrov, Anton Mitov e Dimitar Gyudzhenov – mesmo nessa altura, quando a arte me pesa, percebo que Plovdiv tem muito mais para me mostrar, do passado ou do futuro, entre memórias e promessas.

Chego, a meio de uma tarde de sol, ainda que tímido (o sol e eu), à parte velha de Plovdiv, não tardando a sentir-me esmagado pelo peso dessa história de séculos, à sombra dessas velhas casas cujas paredes poderiam falar de um passado que por vezes ocultam.

Não recupero, quando caminho, memórias dessa Plovdiv de há 25 anos que, ainda assim, permanece tão íntima, tão acolhedora.

A casa Nedkovich, com um passado que remonta a 1863, com um pátio que apazigua o espírito, com tectos em madeira que fomentam a imaginação, com os seus muros cheios de flores, tão inspiradores, é um dos muitos espaços que se podem visitar na velha Plovdiv, um entre muitos, do qual pode tornar-se difícil a recordação à medida que o visitante se vai embrenhando neste pequeno mundo tão feito do passado – com tanto para ver. Sem grandes correrias, alcanço a casa de Zlatyu Boyadzhiev, na Ulitza Sâborna, em pleno coração histórico da cidade, com pinturas do nativo homónimo; mais para diante, na Ulitza Dr Chomakov, dou o tempo por bem gasto (se é que o tempo se pode gastar) numa outra casa, não menos mediática, no local onde Atanas Krastev viveu até os seus dias se expirarem, em 2003. Atanas Krastev era um pintor, um conservadorista, fiel aos seus trabalhos abstractos do século XX, expostos num edifício que se destaca pelas suas mobílias, pelas recordações pessoais do artista, mas também pelas panorâmicas que se abarcam desde as varandas ou mesmo pelas exibições que decoram, aqui e acolá, o jardim que tenta dar um amplexo à mansão. 

Parece que nunca me canso de Plovdiv, desse passado, dessas memórias, tão presentes, de igual forma, na sua vocação religiosa.

A igreja de Sveta Bogoroditsa, também na Ulitza Sâborna, atrai o meu olhar, pela sua grandiosidade, dominando, no cimo de uma escadaria de pedra, a cidade, com o sino, rosado e azul, clamando todas as atenções, como se nada mais existisse no interior da igreja (levantada em 1844 no lugar onde antes, no século IX, se erguia uma capela) – mas existe, há ícones e murais, um deles retratando um soldado turco, brandindo a sua espada enquanto atormenta camponeses búlgaros.

Mesmo ao lado, ainda na Ulitza Sâborna, percorro na mais completa solidão, a igreja de Sveti Konstantin & Elena, a mais antiga de Plovdiv, construída sobre um antigo templo romano e dedicada a Constantino (e à sua mãe, Sveta Elena), o grande, o imperador que viveu no século IV e definiu como religião principal o Cristianismo Ortodoxo.

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Ainda há tempo para apreciar a arquitectura mais recente da igreja, datando de 1832, mais os ícones pintados por Zahari Zograf entre 1836 e 1840.

E dali não me vou embora sem plantar os olhos nos frescos do pórtico.

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Levanto os olhos e vejo o que resta dos muros da fortaleza de Philpopolis (assim a baptizou Philip II da Macedónia, pai de Alexandre, o Grande, quando a conquistou).

Também eu regresso ao passado.

O autocarro arrastava-se pelas ruas, a rapariga, com uns chinelos calçados, acabara de cobrar a todos os passageiros e, nessa altura, sentindo o dever cumprido, sentou-se em cima do motor, partilhando pevides com o motorista. Foi há 25 anos, é muito tempo, mesmo em Plovdiv. Não tenho culpa de guardar apenas esta memória. Agora sei que preservo outras. Só não sei é por quanto tempo.