Neste museu moram 2000 anos de história da produção de azeite

Em Oliveira do Hospital, freguesia de Bobadela, acaba de abrir uma unidade museológica dedicada ao óleo extraído da azeitona. Lá dentro, cabem vários tipos de lagares, desde os que seriam usados pelos romanos até à época contemporânea, inúmeras antiguidades e uma vista privilegiada para a serra.

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O produtor António Dias Adriano Miranda

Evite cair na tentação de considerar que está prestes a descobrir mais um museu do azeite. É verdade que em Portugal já existem uns quantos, mas, aqui, as diferenças estão à vista logo no exterior: o edifício que alberga a unidade museológica tem a forma de um ramo de oliveira, com folhas e azeitonas. “Tinha de ser um museu moderno, um espaço que não fosse um mero lagar”, destaca António Dias, o produtor de azeite que, depois de passar anos a coleccionar peças relacionadas com o óleo extraído da azeitona, decidiu criar um espaço que perpetuasse a sua história. Abriu no passado mês de Dezembro, em Bobadela, no concelho de Oliveira do Hospital, ao lado de um dos lagares de António Dias e com vista directa para a serra da Estrela.

Do seu discurso expositivo fazem parte várias réplicas de lagares, cada um deles com mecanismos e técnicas diferentes. Desde o lagar romano, passando pelo lagar de varas e pelo lagar hidráulico, até ao lagar eléctrico. São cerca de 2000 anos de história, repartidos em vários espaços do museu, mas com um denominador comum: a arte de esmagar a azeitona para dela extrair esse óleo precioso. “Já no tempo dos romanos ele era muito valioso”, repara David Lopes, o guia que nos acompanha ao longo da visita, lembrando os vários usos que já então eram dados ao azeite, nomeadamente “no corpo, para proteger do sol e as feridas”. “Sem esquecer que também usavam as coroas de oliveira para distinguir algumas pessoas”, acrescenta.

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Terão sido os romanos a dar início ao cultivo da oliveira e à produção de azeite em Oliveira do Hospital – Bobadela preserva algumas ruínas romanas – por volta do século I d.C., nota um dos textos expostos à entrada. Para extrair o óleo da azeitona recorriam a moinhos e prensas de vara, mecanismos que estão reproduzidos, com todo o pormenor, logo na primeira sala do museu. Segue-se a representação de um lagar com duas varas, “uma evolução do lagar romano e que foi utilizada em Portugal até ao século XX”, realça David Lopes.

O aperfeiçoamento da técnica, e o avançar dos anos, acabou por conduzir à mecanização do processo produtivo - a força animal e humana que até então accionavam os mecanismos foram substituídas, em grande medida, pelas máquinas. A adopção do sistema de prensagem hidráulica resultou numa grande transformação dos lagares. Em Portugal, atingiu “grande divulgação na primeira metade do século XX, tornando-se, depois da Segunda Guerra Mundial, na tecnologia de lagar mais frequente”, é explicado no painel instalado na sala do lagar hidráulico.

Ainda assim, e por mais que o processo produtivo estivesse facilitado e mecanizado, “era preciso que os lagareiros estivessem sempre presentes no lagar durante a produção de azeite, uma vez que ela era feita de forma ininterrupta”, frisa o guia. “Durante três meses, de Novembro a Janeiro, os lagareiros tinham, assim, de ficar a dormir nos lagares”, acrescenta, justificando a existência de uma recriação dos antigos aposentos (quarto e cozinha) para o lagareiro e restantes trabalhadores. É também nesta zona que se encontra exposta uma das principais peças do museu: um antigo relógio de azeite, cuja origem ainda não foi possível determinar. “Foi oferecido ao senhor António Dias pela filha e, apesar de várias tentativas, ainda não se conseguiu precisar a data”, conta David Lopes.

A história dos olivais e das marcas portuguesas

À história da produção do azeite a unidade museológica de Bobadela junta, depois, outras informações e curiosidades em torno do óleo de azeitona. Sem esquecer, claro está, a história dos olivais portugueses, que remontará ao “início do primeiro milénio a.C (séc. IX-VIII a.C)” por iniciativa “dos colonizadores fenícios”, e que é contada numa das galerias do museu. Uma verdadeira “aula” sobre a origem da oliveira em território português, na qual ficamos a saber, por exemplo, que a oliveira mais antiga de Portugal está situada na freguesia de Mouriscas, concelho de Abrantes, e tem cerca de 3500 anos.

O nosso guia acrescenta mais alguns dados importantes à lição – também há a opção de recorrer a um grande ecrã para obter mais informações sobre os olivais nacionais. “A oliveira mais comum em Portugal é Olea europaea” e, no total, “existem 32 tipos de azeitonas, sendo que, no nosso país, a mais comum é a galega”. E para que não restem quaisquer dúvidas: “Não há azeitonas verdes, o que acontece é que elas são apanhadas antes do amadurecimento.”

Porque o saber não ocupa lugar, o visitante é ainda desafiado a viajar ao longo da história das marcas nacionais de azeite - começando pela primeira de todas, o Azeite Herculano, criado pelo militante liberal e escritor Alexandre Herculano – e dos antigos usos dados ao óleo extraído da azeitona – iluminação (o museu dispõe de uma colecção de candeeiros a azeite), cosmética, marinharia e saboaria. Para os mais novos, há um jogo que gira em torno da apanha da azeitona, e a pensar também nos graúdos existe a possibilidade de terminar a visita com uma selfie, tendo o olival como pano de fundo – basta sorrir para a câmara fotográfica e aguardar (segundos, apenas) que a imagem lhe chegue ao e-mail.

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Aproveite ainda para visitar a cafetaria ou o restaurante do museu, que contam com vistas privilegiadas para a serra da Estrela e que servem várias iguarias que têm o azeite como ingrediente obrigatório. Se puder visite, também, a loja da unidade museológica onde encontrará, como é óbvio, o azeite da casa e produtos regionais (compotas, enchidos, etc.). Irá deparar-se com uma garrafeira bastante original – que não está à venda - feita pelo próprio olivicultor proprietário do museu. António Dias pegou numa oliveira e transformou-a em peça de arte – numa das galerias do museu, está exposta uma peça idêntica. Apenas mais um exemplo da paixão que o empresário, de 64 anos, nutre pela produção de azeite e pelos olivais. Ligado ao sector há mais de 30 anos, foi coleccionando peças e artigos, para evitar que a história se apagasse. Apenas por gosto pessoal mas, no dia em que decidiu criar um museu, sentiu que “tinha de ser algo diferente, distinto do que já existia”.