Mãos robóticas também aprendem a escrever

Próteses inteligentes impressas em 3D fizeram Mincheng Ni voltar à arte da caligrafia chinesa, 27 anos depois de ter perdido parte dos braços.

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Mincheng Ni (fotografado em 2018) usa próteses inteligentes para substituir as mãos que perdeu num acidente Rick Wilking/REuters

Entre centenas de robôs e máquinas em exposição na CES, Mincheng Ni ocupa um pequeno espaço na secção de robótica da feira, onde está a pincelar caracteres chineses numa tela branca. Diz que foi com o avô que aprendeu a arte da caligrafia chinesa, ainda em criança. Mas esteve 27 anos sem treinar. 

A tradicional caligrafia chinesa pareceria deslocada numa das maiores feiras de tecnologia do mundo se não fossem os dois braços robóticos por debaixo da camisa de Mincheng. Foram desenvolvidos pela Brain Robotics e pela Brain Co, empresas irmãs fundadas por antigos alunos da Universidade de Harvard e do MIT, nos EUA. A missão é criar tecnologia de interface cerebral com um preço ao alcance de mais pessoas.

“Este tipo de tecnologia tem de ser acessível”, diz ao PÚBLICO Molei Wu, engenheiro na Brain Robotics, que nos últimos anos tem trabalhado nos novos braços de Mincheng Ni, que já é um repetente na CES. “Graças a algoritmos inteligentes, a nossa mão aprende a perceber os gestos que um amputado quer realizar e melhora ao longo do tempo. Isto cria uma mão prostética que é mais natural para o utilizador.” Também é mais barata: este ano, o projecto foi destacado pela CES por ser a mão robótica inteligente mais acessível do mercado.

O objectivo da Brain Co de criar tecnologia de interface cerebral a preços mais reduzidos nasceu em 2015. No começo, a ideia era desenvolver eletroencefalogramas portáteis para ajudar as pessoas a melhorar os seus níveis de foco e atenção. Os eletroencefalogramas são aparelhos que permitem registar a actividade eléctrica no cérebro, através de eléctrodos que são colocados por cima do couro cabeludo. A versão low cost da BrainCo – que é feita com impressoras 3D – assemelha-se a uma bandolete e é utilizada para ajudar estudantes a melhorarem o seu desempenho escolar, atletas a concentrarem-se nos treinos ou antes de grandes competições, e adultos a aprenderem exercícios de meditação. 

A ideia de criar mãos e membros robóticos para amputados veio mais tarde, durante uma edição anterior da CES, quando um visitante sem uma mão foi ter com a equipa para perguntar se não se podia utilizar a informação das ondas cerebrais para criar próteses melhores e mais personalizadas. As próteses deste género actualmente no mercado rondam os 60 mil dólares – muitos amputados acabam por aprender a viver sem os membros.

Mincheng Ni – que agora agarra um pincel com uma mão robótica – também pertencia a esse grupo. Quando tinha dez anos, um acidente fez com que perdesse ambas as mãos e parte dos antebraços. Com o preço para braços prostéticos a ultrapassar as dezenas de milhares de euros, aprendeu a viver sem eles. Até que, 27 anos mais tarde, em 2017, foi contactado pela Brain Co e pela Brain Robotics, que queriam desenvolver um produto a um vigésimo do preço habitual.

Tal como as bandas para analisar a informação eléctrica do cérebro, o custo destas próteses é reduzido, porque os aparelhos aparelhos são feitos com tecnologia de impressão 3D. Além disto, cada peça de um braço é criada individualmente – isto quer dizer que, quando uma componente se estraga, ou tem de ser substituída, não é preciso fazer um braço novo. Apesar de os modelos não serem tão personalizados como outros modelos mais caros, os braços da BrainRobotics aprendem com os seus utilizadores. 

“Usamos inteligência artificial para analisar a informação eléctrica que os nossos sensores captam das células musculares”, explica Molei Wu. “É a mão robótica que aprende o que o utilizador quer.”

Mincheng Ni nunca pensou voltar à caligrafia tão rapidamente. Diz ao PÚBLICO que o o resultado deve ser da memória muscular das horas que passou a treinar com o avô em criança. “O que mais me surpreendeu foi a facilidade com que voltei a conseguir levantar o braço e a controlar pequenos gestos assim que experimentei a primeira versão dos meus novos braços”, recorda. Diz que, além de poder pintar, usa frequentemente os braços robóticos no ginásio para fazer exercícios de força. “O mais difícil? É o tempo que passa entre eu pensar numa acção e o meu braço fazê-la, mas o importante é que consigo mexer o braço. Quero que a tecnologia continue a melhorar, até que eu consiga utilizar este braço para todas as actividades.”

Os dados recolhidos pela Brain Co são anonimizados e analisados com técnicas de inteligência artificial para perceber qual o melhor método de ensino e treino para obter melhores resultados. Há já várias escolas em todo o mundo – incluindo na China, EUA, Espanha e Brasil – a usar esta tecnologia para perceber como as crianças podem aprender melhor.

Nos últimos tempos, com os receios sobre questões de privacidade a aumentarem nos EUA, a equipa tem encontrado várias pessoas preocupadas com a recolha de dados.

 “O potencial é enorme. Mas a privacidade é uma questão cada vez mais importante. Quero frisar que as pessoas não devem ter medo destes aparelhos. Em termos físicos, não é mais invasivo do que o telemóvel”, garante ao PÚBLICO um dos fundadores da BrainCo, Max Newlon. É responsável pela secção de segurança. “O que as pessoas têm de perceber é que a nossa missão não é descobrir os segredos dos cérebros das pessoas, mas aprender como ensinar as pessoas a terem o controlo do seu cérebro.”

O PÚBLICO viajou a convite da CES