Carreira de professor salva pela autonomia da Madeira

Duas décadas de carreira, 2.º escalão. Nélio Velosa é professor na Madeira (sempre foi), e não fossem os anos de congelamento estava agora a fazer contas ao que iria ganhar no 5.º escalão.

Nélio Velosa é professor de Português
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Nélio Velosa é professor de Português DR

Quase metade da vida de Nélio Velosa foi passada numa sala de aula. Professor de Português há 21 anos, sempre na Madeira, só conheceu quatro escolas. A 2+3 Dr. Alfredo Ferreira Nóbrega Júnior, na Camacha, onde estagiou, quando acabou o curso da Universidade da Madeira, a EB1/ PE do Porto Santo, na ilha onde nasceu e cresceu, a B+S Bispo D. Manuel Ferreira Cabral, em Santana, novamente na Madeira, e a Básica dos 2.º e 3.º ciclos Dr. Eduardo Brazão de Castro, no Funchal, onde está efectivo há 17 anos.

Não fossem os tais nove anos, quatro meses e dois dias em que as carreiras estiveram congeladas, Nélio Velosa estava agora no 4.º escalão à beira de subir para o 5.º. Ficou-se pelo segundo, já lá vai mais de uma década. “Felizmente, graças à autonomia, vou recuperar todo o tempo de serviço”, diz ao PÚBLICO, no dia em que o diploma que estabelece o modelo de recuperação integral do tempo de serviço para os professores na Madeira foi publicado no Diário da República.

A recuperação será feita de forma faseada ao longo dos próximos sete anos. Vai custar, nas contas do governo madeirense, cerca de 28 milhões de euros. Nélio Velosa tem presente o peso que esta medida representa para o orçamento, mas considera uma injustiça o Estado não avançar para a reposição integral do tempo de serviço dos professores. 

“A questão orçamental é importante, mas estamos a falar de justiça”, argumenta, acrescentando que em nome dessa mesma justiça, este descongelamento deveria abranger todos os professores do país e outros sectores da administração pública. Não será assim no continente, pelo menos para já.  

Um país, três sistemas de ensino. Nélio Velosa está satisfeito por estar no da Madeira. “Pelos contactos que tenho tido com colegas continentais, o sistema regional é menos burocrático para os professores”, explica o professor madeirense, dizendo que as experiências que tem tido com o sistema nacional, não têm sido positivas. “Sou supervisor de exames, e nas formações que tivemos no continente, vejo muita burocracia.”

Mesmo assim, as expectativas que trouxe da universidade estão longe de estarem satisfeitas. “Penso que todos nós, professores, esperávamos que a profissão fosse mais vantajosa economicamente. Que tivesse maior estabilidade”, conta, rindo quando questionado sobre se aconselha alguma das duas filhas a seguirem a carreira docente. “Claro que não.” Por tudo o que foi dito, pela disparidade salarial – “os escalões intermédios, deviam ser melhor remunerados” –, e pelas dificuldades e incertezas de começar uma carreira.

A dele é retomada em Janeiro do próximo ano, quando entrar em vigor a portaria do governo madeirense que estabelece a recuperação do tempo de serviço. Nélio Velosa fez as contas por alto. A subida do 2.º para o 3.º escalão vai traduzir-se, todos os meses, em mais 180 euros no recibo de vencimento. Para chegar ao 4.º escalão e olhar de frente para o 5.º (o lugar onde estaria, não fossem os tais anos da troika) vão ser precisos sete anos. “Menos mal.”