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Entrevista

E se as nossas roupas passassem a ter uma identidade digital?

Natasha Franck é fundadora da EON, uma empresa que criou uma etiqueta de RFID em forma de fio. Acredita que no futuro tudo terá um perfil digital e quer que esta tecnologia seja usada para promover a sustentabilidade e economia circular.

Será possível que no futuro todas as nossas roupas estejam ligadas à Internet? É esta a meta ambiciosa de Natasha Franck, fundadora da EON, uma empresa que quer juntar o mundo físico das roupas ao digital, através de uma etiqueta de RFID (identificação por radiofrequência) na forma de fio. A intenção é dar uma identidade digital às peças de roupa.

Uma das possíveis aplicações desta tecnologia é na reciclagem de têxteis. Um sistema em que a roupa tem um bilhete de identidade digital que permitirá que seja identificada em centros de reciclagem, ultrapassando a barreira da falta de informação acerca da composição das peças. Mas há outras áreas para explorar. A informação acerca da peça e os dados sobre o seu ciclo de vida pode ser útil para o mercado de venda em segunda mão e para as próprias marcas, exemplifica Franck.

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A EON quer trabalhar dentro de economia circular — um termo que descreve um sistema com menos desperdício e mais reaproveitamento dos recursos existentes. A aplicação à escala do mercado pode estar longe, mas a tecnologia em si já existe. É um fio como qualquer outro: vai à máquina e faz parte da roupa durante todo o seu ciclo de vida. A diferença é que esconde uma etiqueta RFID, guardando informação sobre a peça, que pode ser lida por sensores.

O desafio será definir padrões e encontrar soluções universalmente aceites e adoptadas pela indústria. Natasha Franck esteve na conferência "Digital Difference in Retail & Branded Goods", organizada pela Microsoft, em Paris, para falar sobre como a Internet das coisas e a sustentabilidade se podem complementar.

Qual é o valor que as empresas identificam na vossa tecnologia?
Depende do modelo de negócio. A ideia de que os produtos podem ser identificados oferece um valor imenso a qualquer marca ou revendedor: como identificam o produto, como o levam do ponto de produção para o ponto de venda, que produtos vendem bem, como o cliente está a interagir. Quanto mais dados conseguirem associar com essa peça, mais robusta se torna esta imagem. A identidade digital está simplesmente a tornar-se o novo normal do negócio. Há uma confluência de factores em jogo, que requerem colaboração na intersecção de indústria e de políticas. São questões para toda a indústria: como damos resposta às necessidades de política e apoiamos a privacidade do consumidor, ao mesmo tempo identificando a gestão do ciclo de vida dos produtos sustentáveis. 

Têm confiança de que as marcas vão partilhar de livre vontade a informação em relação aos seus produtos?
Acho que vai tornar-se uma obrigação.

Em termos de legislação?
Sim, e também dos consumidores. Vemos a maior parte das marcas a revelar a localizações das suas fábricas e a serem transparentes acerca de onde a sua produção e recursos vêm. A transparência é vista como um imperativo de negócio, pois é uma solução para garantir que o produto é viável no futuro.

Como é que funciona a tecnologia proposta?
O RFID é uma tecnologia ubíqua. O nosso é apenas outro formato. Todo o RFID fala a mesma linguagem.

Foi patenteada?
Sim, mas esse não é o nosso objectivo central. Estamos focados na forma como a tecnologia comunica para todos os sistemas. O objectivo é usar RFID para identificar activos. Cada vez mais empresas estão a fazer isso, o que é maravilhoso.

Há outros tipos de RFID em formatos não convencionais?
Sim. Muitos não são à prova de água e esse é um problema. Esperamos que a inovação aconteça mais e mais, para que haja mais etiquetas que posam ir à máquina de lavar e que haja mais economia circular. 

Acredita que as marcas pagarão pelo fio e pelo uso de uma plataforma?
E depois pela pesquisa e desenvolvimento.

Há mais empresas a trabalhar na vossa área?
Sim, há muitas empresas da Internet das coisas. Para nós, é essencial à nossa missão. Vemos a necessidade para estes sistemas falarem e a necessidade de definir conectividade.

As etiquetas da EON têm limitações ou podem ser integradas em qualquer tecido?
Podemos modificá-las. Dependendo do quão durável o fio precisa de ser, podemos desenhar para diferentes níveis de resistência à lavagem.

Esta tecnologia poderia ser reconhecida por diferentes leitores de forma universal?
Neste momento não há sistemas, não há leitores de RFID, ninguém está a incluir etiquetas nos produtos para que estes sejam identificados depois do ponto de venda. Mas é essa a transição que está a acontecer. Estamos a falar da Internet das coisas: tudo terá um perfil digital. Tudo terá uma identidade. A grande questão é se usaremos essa tecnologia para o propósito da sustentabilidade e economia circular.

À medida que cresça, por exemplo, um centro de reciclagem conseguirá fazer a leitura dessas etiquetas?
Terá a possibilidade de ler o etiqueta desse produto e ter acesso a informação sobre o material.

Que tipo de informação pode ser agregada: tem mais a ver com a ideia de as peças terem uma identidade digital ou com a possibilidade de recolha de dados para as marcas que as vendem?
Primeiro de tudo tem a ver com criar uma identidade digital quando uma peça é produzida. Isso não está a acontecer em escala de massas. Neste momento há basicamente uma curva inversa: a maior parte dos pontos de leitura está na cadeia de distribuição, no retalho — porque é aí que existem leitores de RFID; depois, quando vendem os produtos, os pontos de leitura decrescem. Da mesma forma como temos dados do ponto de produção para ponto de venda, é necessário haver inteligência do ponto de venda para a próxima vida desses recursos.

Seria informação útil para as empresas?
Está a acontecer uma inovação a nível de modelos de negócio, uma mudança de ecossistema. Neste momento, se deitarmos fora um produto com uma etiqueta RFID não existe valor. É preciso haver sistemas à volta disso: um smart closet, um programa de aluguer, um programa de reparação (como o Worn Wear, da Patagonia), em que envio de volta o meu produto e pode ser comercializado. Por isso há oportunidade de novo negócio e sustentabilidade depois do ponto de venda.

Acha que as empresas vão dedicar energia a repensar os seus modelos de distribuição?
Se tiver uma identidade digital num produto de qualidade, poderei fazer mais dinheiro ao longo do seu ciclo de vida. Esse produto pode ser revendido e a empresa poderá participar nessa transição. Acho que esta transição em termos de como pensamos no consumo de recursos — do comprar para o utilizar —, é definitivamente algo que a Internet das coisas vai potenciar. Leva-nos além do produto, passa a ser o produto como um serviço. O produto é inteligente e pode existir dentro de um ecossistema.

A EON já está a trabalhar com marcas?
Sim, vamos lançar algumas no ano novo. Temos questões sobre privacidade do consumidor, o que acontece à identidade digital depois do ponto de venda, quem é que é dono dessa identidade — vai para blockchain? O que é o ecossistema disto? Como podemos utilizar esta tecnologia para sustentabilidade e valor para o consumidor? São questões para as quais precisamos de uma coligação da indústria para dar resposta. 

Blockchain é uma possibilidade?
Não somos propriamente entusiastas . Na indústria da moda está tudo tão atrasado que demorará um bocado antes de as pessoas precisarem de blockchain — ou armazenamento descentralizado de dados.

Quais são as questões de privacidade que mais vos preocupam?
A nossa visão de identidade digital é empoderar a sustentabilidade, economia circular e transparência. Com esta visão, vamos aproveitar o poder das tecnologias para resolver qualquer desafio de privacidade da identidade digital — um exemplo disso é com soluções de blockchain.

A reciclagem de têxteis é um negócio com potencial?
Acho que a indústria tem uma ideia confusa sobre a economia circular. O mais importante é que, desde que um material é feito até à sua nova vida, este possa continuar a circular. Neste momento não temos dados depois do ponto de venda, por isso é difícil perceber o que acontece aos produtos, onde vão parar, de que são feitos, onde estão os impedimentos. Estamos a chegar ainda a um ponto em que conseguimos quimicamente reciclar materiais. Mas se não conseguirmos identificar o material não é possível [reciclar].

Ou seja, este tipo de reciclagem não está muito desenvolvido?
Está, mas a transparência é uma barreira. Não conseguimos reciclar algodão se não soubermos o que temos à frente. Não podemos dizer “vou pegar neste algodão e transformá-lo”, se houver 2% de spandex misturado. E depois, não sabendo quais são os materiais, acabas por deitar fora ou fazer downcycling

Mas este tipo de reciclagem tem potencial lucrativo?
Sim, claro! Estamos a esgotar o algodão. Não temos mais água para fazer estes recursos. Quando a inovação começa na reciclagem, é cara... até deixar de o ser. Brevemente, essa maré irá mudar. 

Nenhuma tecnologia consegue olhar para um produto e ver a sua composição?
Há scanners óptimos que conseguem dizer num nível básico se é algodão, mas em grande parte dos casos, é preciso informação mais complexa [para reciclar] — como o processo de tintura, o conteúdo químico. Há muito mais complexidade nos têxteis.

Que tipo de centro de reciclagem para têxteis existem?
Uma das maiores é I:CO. E muitos têxteis são enviados para países de terceiro mundo ou outras partes do mundo, onde podem ser revendidos. Muitos são queimados ou vão directamente para aterros.

É um desafio implementar novos sistemas, tendo em conta que muitos dos que produzem para fast fashion estão em países mais pobres?
A razão pela qual a Internet das coisas tem demorado a levantar voo é porque está na intersecção entre o mundo físico e o digital. Sim, nós somos uma empresa de tecnologia, mas quando estamos a integrar uma etiqueta num produto estamos a fazer isso numa fábrica, que não é high tech

Como é que a indústria cresceu tanto e só mais recentemente é que se começou a discutir estes temas?
A maior parte das pessoas não sabe o que é a Internet das coisas. E uma parte muito pequena sabe o que é a economia circular. E aqui estamos nós a dizer que vamos juntá-las... Temos este obstáculo de educar a indústria sobre como se complementam a Internet das coisas e a sustentabilidade. 

O PÚBLICO viajou a convite da Microsoft