Enfermeiros pagam mais de 33 mil euros a plataforma que viabilizou "greve cirúrgica"

A recolha de fundos para a "greve cirúrgica" é a campanha mais valiosa alguma vez lançada pela plataforma de crowdfunding PPL. Atrás desta, em 2014, fica a lançada por Nuno Markl para financiar um filme, mas que só obteve 40 mil euros dos 100 mil de que precisava.

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rui Gaudencio

O movimento de enfermeiros que está na base da “greve cirúrgica” pagou já mais de 33 mil euros à empresa que gere a PPL, a plataforma de crowdfunding portuguesa através da qual conseguiu angariar 360 mil euros de fundo solidário para financiar o protesto que está em curso nos blocos operatórios de cinco grandes hospitais públicos desde 22 de Novembro. E pagará mais uma comissão ainda maior, se entretanto a recolha de fundos para uma segunda "greve cirúrgica" atingir o valor definido, 400 mil euros, até 14 de Janeiro.

Os 33 mil euros correspondem a 7,5% da comissão que a PPL cobra, mais 23% de IVA que o movimento tem que pagar sobre este valor, explica João Pedro Pio, um dos três especialistas que trabalham a tempo inteiro na plataforma através da qual as pessoas podem dar dinheiro, habitualmente pequenas quantias, para financiar projectos que queiram ver concretizados.

A plataforma é da Orange Bird, uma empresa criada em 2011 e cuja equipa, como se lê sua na página da Internet, é composta por vários elementos “que leccionam/leccionaram na Universidade Católica Portuguesa” e têm “muitos anos de experiência em apresentações, formações e workshops”. O presidente do conselho consultivo é um advogado.

"Não é barato"

“Não é um serviço barato, mas qualquer serviço tem que ser pago”, assume Catarina Barbosa, um dos rostos do movimento que engendrou este protesto inédito em Portugal. Enfermeira no Centro Hospitalar do Porto (o CHP, que integra o hospital de Santo António e o Centro Materno-Infantil), Catarina lembra que a empresa que gere a plataforma tem “ajudado muito” os enfermeiros do movimento que surgiu no WhatsApp: “Incitam-nos a partilhar emails, explicam-nos como contactar pessoas que fizeram contribuições para que façam uma segunda vez; e são eles que pedem o NIB a toda a gente e agilizam a plataforma."

O dinheiro recolhido desta forma pouco convencional serve para pagar aos enfermeiros que faltam ao trabalho nos blocos operatórios dos cinco centros hospitalares afectados pela greve, num valor de 42 euros por dia. E é isso que permite que esta paralisação se prolongue por muitos dias. Assim, e não sendo muitos os enfermeiros envolvidos na greve (menos de 700), esta já está a provocar grande mossa: até segunda-feira, segundo o Ministério da Saúde, foram canceladas mais de seis mil cirurgias. 

O sucesso da campanha apanhou de surpresa os enfermeiros. O objectivo inicial era chegar aos 300 mil euros, mas, no final, os donativos ascenderam a 360 mil euros, permitindo alargar a greve a mais dois hospitais, além dos três inicialmente previstos - além do CHP, os centros hospitalares de S. João (Porto) e o de Coimbra, o de Lisboa Norte (que integra o hospital de Santa Maria) e o de Setúbal.

Por enquanto, as contribuições para o financiamento da segunda "greve cirúrgica" estão a entrar a um ritmo lento - 12% do total de 400 mil euros até esta quarta-feira -, mas Catarina Barbosa acredita que possa acontecer o que sucedeu com a anterior, quando, no final do mês de Novembro e em poucos dias, entraram, de rompante, cerca de 150 mil euros. "É no final do mês que há maior disponibilidade financeira."

Na plataforma é possível aceder aos nomes de quem está a contribuir (não aos montantes), mas a percentagem de doadores anónimos é elevada, o que tem sido posto em causa, por uma questão de transparência (há quem diga que os hospitais privados estarão por detrás da iniciativa). "É uma teoria da conspiração que não faz qualquer sentido", garante a enfermeira.

Sindicato "low cost"

Esta campanha é a mais valiosa alguma vez lançada pela PPL. Atrás desta, em valor, surge a que foi lançada em 2014 por Nuno Markl - que pretendia reunir 100 mil euros para fazer o filme Por Ela, mas que apenas conseguiu cerca de 40 mil euros, recorda João Pedro Pio. Quando o montante total não é obtido no prazo previsto, o dinheiro é devolvido aos doadores e a empresa não ganha nada. “É um risco”, enfatiza o biólogo de formação que começou a trabalhar na PPL depois de ele próprio ter conseguido lançar um livro graças a uma campanha de crowdfunding. Ainda assim, um pouco menos de metade (45%) das campanhas lançadas na PPL são bem sucedidas, diz.

Em curso está já a recolha de fundos para que o movimento possa avançar para a segunda greve cirúrgica, caso entretanto a tutela não esteja disposta a recomeçar as negociações – a ministra da Saúde vai receber todos os sindicatos de enfermeiros na sexta-feira, incluindo os dois que convocaram a greve, o Sindepor  (Sindicato Democrático dos Enfermeiros de Portugal) e a ASPE (Associação Sindical Portuguesa dos Enfermeiros).

Os dois sindicatos surgiram no ano passado no rescaldo de um outro protesto invulgar e que teve grande impacto, paralisando alguns blocos de partos de hospitais públicos. Os enfermeiros obstetras recusaram-se a desempenhar as suas funções específicas e a situação agravou-se de tal forma que nalgumas maternidades os médicos tiveram que assegurar os partos normais. No final, a tutela aceitou pagar um suplemento de 150 euros aos enfermeiros especialistas, mas nem todos o estão a receber nem o valor é considerado suficiente pelos sindicatos. 

Liderado por Carlos Ramalho, o Sindepor nasceu em Évora e filiou-se na UGT. A ASPE é presidida por Lúcia Leite, de Ovar, e não está ligada a qualquer central sindical. "É um sindicato low cost", cobra uma "quota mensal de cinco euros contra a percentagem de 1% do vencimento" que os enfermeiros pagam aos sindicatos convencionais, acentua Lúcia Leite. Quantos associados tem a ASPE? “Isso não lhe vou dizer”, responde.

Lúcia Leite foi vice-presidente da Ordem dos Enfermeiros no mandato anterior e candidatou-se a bastonária nas últimas eleições. O vice-presidente do Sindepor, Ulisses Brito, também se candidatou a bastonário. Perderam ambos no acto eleitoral que foi ganho pela actual bastonária, Ana Rita Cavaco. "Enveredei por este caminho [sindical] porque entendi que as necessidades básicas dos enfermeiros estão por assegurar", justifica Lúcia Leite.