Polícia suspeito do roubo das pistolas Glock é delegado sindical

Foi preciso ano e meio de investigações para a PSP deter os primeiros suspeitos, incluindo dois agentes da corporação.

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Martin Henrik

Um dos dois agentes da PSP detidos ontem por suspeitas de terem roubado as pistolas Glock do armeiro localizado na sede nacional da PSP é delegado sindical de um dos mais recentes sindicatos do sector.

Trata-se da Organização Sindical dos Polícias, com cerca de 750 sócios, entre os quais se contam três centenas de dirigentes sindicais. Contactado pelo PÚBLICO, o presidente do sindicato, Jorge Rufino, explicou que Luís Gaiba vai ser suspenso de funções até a situação estar devidamente esclarecida, uma vez que “nem polícias nem sindicalistas estão acima da lei”.

Embora ressalvando a presumível inocência do delegado sindical, Jorge Rufino admite que se trata de uma situação que desagrada muito à organização que dirige, criada em Fevereiro passado. Luís Gaiba e o seu colega, de apelido Chora, foram detidos esta quarta-feira numa mega-operação desencadeada pela própria PSP e baptizada como Ferrocianeto — designação alusiva a um componente químico corrosivo também conhecido por Azul da Prússia. O facto de o comportamento dos dois agentes ser considerado corrosivo para a PSP, cujo fardamento é desta cor, esteve na origem da escolha do nome. Os detidos, que são ao todo nove, deverão ser interrogados esta quinta-feira por um juiz de instrução criminal, que lhes ditará as medidas de coacção. 

Os furtos só foram descobertos em Janeiro de 2017, quando uma das Glock foi apreendida no Porto a um estudante de 21 anos, suspeito de tráfico de droga. Tinha a inscrição “Força de Segurança” e o dístico da PSP; foi então feito um inventário e percebeu-se que faltava um lote inteiro de 57 armas.

Luís Gaiba e o colega, que trabalhavam no depósito de armas da PSP, foram desde o início suspeitos do roubo, mas não havia provas concretas contra eles, razão pela qual nunca foram constituídos arguidos. O inquérito aberto pelo Ministério Público para deslindar o assunto nunca teve, de resto, arguidos até ontem, apesar de ter sido aberto há mais de ano e meio. De resto, as Glock não foram levadas todas ao mesmo tempo: foram sendo tiradas do armeiro consoante as necessidades dos traficantes. Encontravam-se nos respectivos estojos e nunca tinham sido usadas, o que aumentava o seu valor de mercado. Além da arma, cada estojo inclui dois carregadores, um manual e um estojo de limpeza. No mercado ilícito, o valor de cada um destes conjuntos poderia ultrapassar os 500 euros. 

Suspensão disciplinar

Para afastar estes suspeitos do armeiro, a PSP começou por lhes aplicar uma suspensão disciplinar de funções pelo período máximo de tempo possível, por grave negligência na guarda das Glock. Quando esse período de seis meses chegou ao fim, os dois homens foram colocados em funções administrativas, estando no activo de há um ano a esta parte, até ontem, embora desarmados. 

Este caso tem pelo menos um suspeito comum ao do desparecimento do material militar de Tancos: António Laranjinha, detido já na segunda-feira pela Polícia Judiciária por envolvimento no furto dos paióis e que terá também recebido e revendido várias das pistolas Glock que iam sendo levadas da sede da PSP. Um dos detidos da Operação Ferrocianeto foi um indivíduo suspeito de ter comprado a João Paulino, preso preventivamente por ser o cérebro do roubo das armas de Tancos, uma Glock que lhe teria sido vendida por Laranjinha. 

Dada a ligação entro caso de Tancos e o das Glock, os dois inquéritos estão nas mãos do mesmo procurador, tendo a PSP e a Judiciária vindo a partilhar alguma informação. Porém, o PÚBLICO sabe que o facto de a PJ ter tido autorização do Ministério Público para avançar sozinha para o terreno na segunda-feira, naquela que foi a segunda fase da Operação Hubris, em que se investiga o desaparecimento do material militar do paiol, sem se coordenar com a PSP terá causado mal-estar neste último órgão de polícia criminal, que se viu obrigado a lançar esta quarta-feira a Operação Ferrocianeto — apesar de ter os mandados de detenção dos suspeitos prontos há vários dias.