Crítica

Apocalipse (outrora) agora

O Dia do Gafanhoto apropria-se da babel do cinema para nos dar uma visão dos tempos na Hollywood da Grande Depressão. É a máquina infernal que atrai os que buscam as luzes da ribalta e vão morrer nas suas franjas.

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O romance de West é notável construção romanesca por ser uma denegação do que torna a ficção uma previsibilidade canónica

O Dia do Gafanhoto inicia-se com a descrição de uma cena de batalha. Uniformes de época, termos exactos, a origem precisa dos soldados, criam uma ideia falsa de veracidade. Porque este é apenas o primeiro simulacro que se crava no terreno minado deste romance — mas não será o último. Poderíamos mesmo, antecipando o desfecho do livro, dizer que a cena de caos — o holocausto? — com que se encerra o livro será o derradeiro simulacro. A dúvida por excelência. De algum dos acontecimentos de O Dia do Gafanhoto se poderá dizer, aliás, que ocorreu na realidade da ficcão que o romance estabelece? Ou serão esses factos meras projecções do que poderá residir algures entre os actos e as intenções de um conjunto heteróclito de personagens, os seus fantasmas, os desejos frustrados que as corroem? Os despojos de uma narrativa deliberadamente fragmentária, oblíqua e dubitativa? Eis um conjunto de perguntas para as quais a narrativa não oferecerá resposta. E esse é um dos seus apelos mais fortes. O romance de Nathanael West é uma notável construção romanesca precisamente por ser uma denegação de muito daquilo que torna a ficção narrativa uma previsibilidade canónica. Seria, desde logo, uma tarefa frustrante identificar o protagonista de O Dia do Gafanhoto, ou escalonar a relevância de qualquer uma das personagens. Preponderância oscilante, cíclica, inexistência? Tudo, em parte, mas nenhuma das hipóteses em definitivo — e talvez a repetição de frases interrogativas nos devesse alertar para o carácter imponderável, misterioso, dificilmente definível, deste romance. Porque não interessa, nem muito adianta, perante este livro, procurar soluções, mas ponderar as perguntas que ele suscita, temendo as respostas, ou deixando-as para mais tarde, ou nunca mais. Porque são muito mais as dúvidas e as perplexidades em face deste estranho objecto literário.

No seu admirável prefácio, Manuel João Neto (MJN) integra o romance de Nathanael West numa “galáxia literária quase secreta”. Segundo MJN, O Dia do Gafanhoto faz parte do lote dos “remetidos para a mais silenciosa e exclusiva categoria dos livros mais lidos do que propriamente comentados”, esses tomos “que vivem vidas secretas e exiladas, comentadas em murmúrios de perplexidade”. Este prefácio de MJN (tradutor também de dois colossais romances de William T. Vollmann: Vós, Luminosos e Elevados Anjos, Sete Nós, 2014; Central Europa, Sete Nós, 2017) é, de resto, um daqueles casos raros em que as relações de sentido entre a obra e a sua apresentação são de tal forma intensas que se tornam inseparáveis. O ensaio de MJN (pois disso se trata, não tenhamos dúvidas) alia o indesmentível conhecimento da matéria literária à mestria da expressão e ao máximo acerto de formulações e propostas de análise. Estamos, então, ainda segundo o tradutor, perante um daqueles “livros subtilmente premonitórios”. A América da Depressão “é” a América do nosso tempo. Esse “rumor silencioso dos sobressaltos de massas de que o nazismo era, na época, a manifestação mais poderosa” (MJN) ecoa nas nossas mentes, leitores de finais da segunda década do século XXI, como uma sinistra melodia, perturbantemente familiar. Essa familiaridade não traz, naturalmente, qualquer conforto, mas confronta-nos, interpela a nossa historicidade, revelando-nos a inquietação que há nos ciclos da História. Tod Hackett — um pintor convertido em cenarista, e um dos possíveis protagonistas do romance — está em processo de pintar o quadro “O Incêndio de Los Angeles”, colhendo inspiração em obscuros mestres italianos, “artistas da Decadência e do Mistério” (p.165). A obra captura os alucinados buscadores que rumam à Califórnia “para morrer”, como diz MJM, num iluminante golpe de análise, “enfeitiçados pelas visões quase místicas da abundância e da ficção no deserto mitológico por excelência da cultura moderna de massas, onde, como seria previsível, nada acontece”. Esse quadro será um dos instrumentos de que se serve O Dia do Gafanhoto para arquitectar uma imagem do fim dos tempos — “West parece querer anunciar-nos que a catástrofe do futuro (o incêndio terminal, o grande ‘holocausto de chamas’) será total ou não será mais do que o espectro da catástrofe por vir do último homem da História.” (JMN).

Seria, talvez, desavisado chamar a O Dia de Gafanhotos um “romance de ideias”. Ou pelo menos fazê-lo no sentido ortodoxo da fórmula. Porque este é um livro possuidor de um discurso resolutamente próprio, que se apropria de sinais inquietantes do seu próprio tempo para erguer uma edifício literário que enfrenta a História, as suas dinâmicas sociais e políticas. Longe de ser uma ficção política, responde com valentia perante as solicitações concretas da sua conjuntura epocal. Há, desde logo, um princípio norteador (desnorteador?) que se insinua nos itinerários e linhas de construção do romance: um movimento de fuga de uma costa a outra dos EUA. Um caminho que se faz do leste para o oeste, do nascer para o pôr do sol, do apogeu ao declínio — as interpretações poderiam suceder-se. Depois de ter estudado em Yale, Tod parte para a Califórnia (como Homer Simpson, sim, Homer Simpson, parte do Iowa para a mesma Califórnia) para pintar cenários nos interstícios da indústria cinematográfica. Todas as personagens de O Dia do Gafanhoto são seres em romagem, que se fixaram na Califórnia, o último estado da América, no mapa e nos desejos — lugar derradeiro antes de chegar ao mar, ao nada? Qualquer um deles representa o avesso do brilho e dos sonhos concretizados. Desde Faye, aspirante a actriz a quem falta tudo para singrar, a Earle, cowboy de papelão, caricatura plena de um ícone — apenas mais um dos simulacros que percorrem todo o romance. (Por exemplo, quando, a dado momento, Tod procura um local para se abrigar do sol escaldante, a única sombra que encontra provém “do casco de um navio feito de telas pintadas” [p.163].) Todos eles são falhas, caminhos falsos, qualquer um deles a negação retumbante do sonho americano, mas ainda, cegamente, em busca dessa mesma ilusão. E tudo são cenários, fingimentos, máscaras que sucessivamente se pretendem arrancar para darem lugar a outras formas de encobrir um real que nunca se apresenta inteiro — sequer possível.

O enredo de O Dia do Gafanhoto é de um minimalismo inquietante, circusncrevendo-se à “narração num tom quase neutro de uma série vagamente desconexa de acontecimentos protagonizados por um grupo de personagens aleatórias, sem, aparentemente, qualquer elo entre si a não ser o de habitarem o mesmo perverso território de uma Los Angeles dominada pela indústria cinematográfica” (MJN). Esse aspecto peripatético e imponderável (como talvez outros) do romance de West parece prenunciar algum Pynchon. O adelgaçamento da trama propaga-se à linguagem, que assume “a simulação de uma impessoalidade por meio de um jogo de sombras”(MJN). Isto é, aquilo que parece descaso, palavra rasa ao facto, é resultado de um intenso trabalho intersticial, oculto, quase secreto. A minúcia da imagem é capaz de levar tudo aos extremos do absurdo, assim retirando a possibilidade de se estatuir a norma e a obediência — “Harry bebeu com a mesma avidez com que bebera os dois copos precedentes e depois limpou a boca com o lenço, imitando um homem com um grande bigode a beber uma caneca de cerveja.”(p.82) A “novidade” desta linguagem, o que a torna tão actuante, é, muitas vezes, a mais inesperada banalidade, a mais desconcertante — “Apesar de a achar extremamente atraente, o que mais o impressionava nela era a sua vitalidade. Era tensa e brilhante como uma colher novinha em folha.” (p.88) Noutros pontos, é a ousadia (relativa) dos símiles que faz o trabalho da disrupção — “Os dedos contorcidos faziam lembrar um emaranhado obsceno de coxas nuas em miniatura.” (p.103)

O Dia do Gafanhoto é um romance de antecipação. Mais de meio século antes das fake news, Nathanael West deu-nos uma panorâmica de um país, de um mundo, submerso em simulacros e que se parece demasiadamente com o nosso. Um mundo que é um cenário. Agitado por abalos profundos nas placas tectónicas da sua constituição social e política, este mundo já dificilmente pode aspirar a uma confrontação franca com a verdade. Os discursos estandardizados, as máscaras instituídas, a girândola do mundo do espectáculo, são poderosos anestesiantes. Acordar desse coma auto-induzido será sempre penoso — ainda que imperativo.