Opinião

Quem são e o que querem os “coletes amarelos”? Primeira aproximação “científica”

Se este movimento não é suficiente para que os governos europeus se reúnam a sério e avancem com medidas concretos com impacto real na vida dos cidadãos, então, provavelmente, os gilets jaunes serão um mero prenúncio de outros símbolos bem mais violentos e perigosos.

A revolta dos “coletes amarelos” será motivo para investigações científicas em várias áreas, nomeadamente a Sociologia. A vantagem em países mais evoluídos nas ditas “ciências sociais e humanas” é que já existem – embora preliminares e com uma amostra pouco representativa – alguns elementos que nos ajudam a lançar alguma racionalidade sobre o que, com viés político e não só, é amiúde apresentado como uma insurreição a lembrar a época do terror que se seguiu a 1789.

Apesar de começarem por salientar que estamos perante um movimento popular espontâneo e heterogéneo, Camille Bedock e outros investigadores avançam o retrato típico do gilet jaune (colete amarelo), com base em 166 questionários aplicados aos manifestantes: homens e mulheres que trabalham ou, estando reformados, já trabalharam, com idade média de 45 anos, pertencentes às classes ditas “populares” ou à “pequena classe média”. O rendimento médio da amostra é de cerca de 1700€, ou seja, 30% menos que o rendimento médio anual per capita gaulês. Cerca de 10% afirmam ter um rendimento mensal inferior a 800€.

Existe uma sobrerrepresentação dos que têm emprego, de entre eles se salientando os trabalhadores manuais, artesãos, comerciantes, e uma sub-representação dos quadros. Um quarto dos inquiridos pertence à categoria dos “inactivos”, de entre os quais a parte mais significativa são os pensionistas. As classes etárias mais representativas são, por ordem decrescente, a dos 35-49 anos, seguida pelos 50-64 e, finalmente, 25-34. Para o habitual em movimentos como estes, as mulheres estão fortemente representadas, com 45% do total, surpreendente visto as mulheres não terem, por tantas razões, um histórico tão elevado em “sublevações”.

Cerca de 20% dos manifestantes são licenciados (a média francesa é de 27%) e 85% respondem ter uma viatura automóvel, em linha com a reivindicação que terá sido a “gota que fez transbordar o copo” e com a inteligência em escolher os coletes reflectores para protestar contra, de entre outros, o aumento dos combustíveis fósseis, no que é um instrumento de segurança automóvel obrigatório, tanto quanto o é a transição energética em que o aumento foi “embrulhado” “para francês ver”. Assinala-o, de modo certeiro, Gérard Noiriel, em entrevista à Franceinfo, estabelecendo o paralelo, p. ex., com a bandeira da Internacional, nas revoltas de 1936. Também cabe a este intelectual sublinhar o cariz de movimento de democracia directa, típica da Comuna de Paris de 1871.

Interessante é ainda a circunstância de a maior parte dos inquiridos serem “primo-manifestantes” e, em cada 10, nove rejeitarem o uso da violência, embora cerca de 59% indique estar disposto a ocupar edifícios públicos. O movimento parece rejeitar a influência dos sindicatos e dos partidos políticos: 64% não desejam os primeiros e 81% os segundos. Em regra, declaram-se “apolíticos” ou “nem de direita, nem de esquerda” e afirmam que o movimento visa reduzir a carga fiscal que têm por “brutal”, aumentar o emprego, diminuir as desigualdades sociais, sendo que 1/5 propugna mesmo pela demissão de Macron, acusando-o de “arrogância” e de “não escutar o povo”. Esta última reivindicação aparece quase a par das medidas económicas. Contrariamente ao que também tem sido veiculado, apenas dois em 166 inquiridos manifestam preocupações com os movimentos migrantes.

É ainda evidente que entre os manifestantes casseurs existem os pillards, mas assiste razão a Laurent Mucchielli em considerar “infantil” esta distinção, salientando a amplitude do sistema, alertando ainda para não tratarmos o movimento como “sobrepolitizado” ou, no outro extremo, “despolitizado”, falando sim no descrédito das “classes dirigentes” (políticos e opinion makers) e na reacção ao que considera ser o “presidencialismo exacerbado” de Emmanuel Macron que, se deu indicações para demonstração de força da polícia em Paris, terá falhado o alvo. Tanto assim foi que a sua comunicação ao país parecia de um garoto choramingão a pedir desculpa aos pais e a prometer que doravante se portaria bem. Alguns tiques “autoritários” não lhe assentam bem, tanto mais que a sua eleição resultou da federação de muitos interesses e do “voto útil” contra Le Pen. 

Donde, os problemas não estão tanto na dicotomia urbano/rural, centro/periferia, mas sim entre pobres/privilegiados. Compreender isto é meio caminho andado para entender o que os franceses – e os belgas, a que se podem associar mais povos – desejam, numa democracia agora em tempo real, pelas redes sociais, e em que os políticos se vão tornando uma excrescência. Condenando toda a violência de quem quer que seja que se reclame dos gilets jaunes, e sendo eu um reformista e não um revolucionário anárquico – salvo circunstâncias de todo extremas que não tenho por reunidas –, se isto não é suficiente para que os governos europeus se reúnam a sério e avancem com medidas concretos com impacto real na vida dos cidadãos, então, provavelmente, os gilets jaunes serão um mero prenúncio de outros símbolos bem mais violentos e perigosos.