Os pecados de Portugal em África foram todo um tema em Guadalajara

Lídia Jorge, Isabela Figueiredo e Dulce Maria Cardoso levaram à maior feira do livro de um continente com um negro historial de colonização relatos da difícil relação de um país com as suas ex-colónias. Uma das sessões acabou em lágrimas.

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O arriar da bandeira portuguesa na independência de Moçambique, a 25 de junho de 1975, no Estádio da Machava, em Maputo (então Lourenço Marques) EDUARDO CHALBERT/ARQUIVO NACIONAL TORRE DO TOMBO

Três escritoras, três mulheres que viveram em África no tempo em que Portugal não era "um país pequeno" e estendia o seu império colonial pelo mundo, passaram pela Feira Internacional do Livro (FIL) de Guadalajara, no México, para mostrar que esse tópico difícil e ainda em ferida é bem mais do que apenas "um subtema da cultura portuguesa", como notou Pedro Serra, o professor de literatura da Universidade de Salamanca que tentou moderar a conversa cheia de remissões para Moçambique entre Lídia Jorge e Isabela Figueiredo. Antes, já a Angola de Dulce Maria Cardoso, que em 2012 expiou a sua experiência como colona e como retornada em O Retorno, tinha entrado em cena nesta que é a maior feira do livro do espaço latino-americano, e em que Portugal encerra este domingo a sua participação como país-tema.

Apesar de terem escrito, com algumas décadas de diferença, dois livros praticamente contíguos sobre a experiência portuguesa de colonização e de descolonização de Moçambique (A Costa dos Murmúrios, de Lídia Jorge, saiu em 1988; o Caderno de Memórias Coloniais de Isabela Figueiredo foi publicado pela primeira vez em 2009 e reeditado seis anos depois), era a primeira vez que as duas autoras se juntavam para falar das suas obras. O resultado foi um diálogo emotivo que poderia ter acontecido em Lisboa, atendendo a que o violento historial de colonização do México nunca se intrometeu na conversa. Ou talvez não. Estarem a milhares quilómetros de distância de Portugal poderá ter ajudado a que falassem do país de outra maneira.

A sessão acabou com ambas de lágrimas nos olhos. Sem perguntas, quer dos portugueses presentes na plateia, convidados do evento, quer do público mexicano.

Dias antes, também Dulce Maria Cardoso contara aos visitantes da feira que viveu em África, “num típico bairro de colonos portugueses”. Foi assim que lhes apresentou O Retorno, romance “sobre o fim do império português” e o consequente regresso à metrópole de meio milhão de pessoas: “Éramos os restos do império português e ninguém gosta muito de restos."

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Dulce Maria Cardoso levou a experiência do retorno à Feira Internacional do Livro de Guadalajara SUSANA RODRÍGUEZ/FIL

Actos de contrição

“Somos três mulheres com três visões diferentes, de facto”, concorda Lídia Jorge quando mais tarde lhe pedimos para reflectir sobre a proximidade entre estas três obras. “O meu livro, A Costa dos Murmúrios, fala de uma culpa, da minha culpa. O livro da Isabela Figueiredo, através da figura do seu pai, culpa os colonos, culpa os brancos, culpa-nos. E a Dulce Maria Cardoso, em O Retorno, dá conta do seu grande ressentimento contra os portugueses concretos que não souberam acolher os que chegaram, o que vê como uma traição.” 

Unidos por esse "sentimento profundo de culpabilização", os três livros são para Lídia Jorge “actos de contrição” dos pecados dos portugueses, que “se safaram” deixando para trás os muitos mortos da Guerra Colonial que até hoje "não sabemos sequer honrar". De resto, a escritora sente a pressão de "todo um movimento, sobretudo universitário, que quer à viva força que expiemos essa culpa, que quer à viva força dizer que fomos racistas, que fomos esclavagistas": "A minha perspectiva é que temos o direito de sair da história dos nossos pais. De dizer: ‘Eu não fiz isso e estou aqui para reconhecer o que eles fizeram, mas também para inaugurar um novo momento histórico’. Não quero que permanentemente olhem para mim como se fosse uma agente dessa situação. Respeitem-me como pessoa fora disso. Tenho esse direito."

A Costa dos Murmúrios, O Retorno e Caderno de Memórias Coloniais são, diz a escritora ao PÚBLICO, "livros de urgência". A que junta Esse Cabelo, de Djaimilia Pereira de Almeida, editado em 2015. Acha “muitíssimo curioso” que sejam as mulheres a fazer essa revisão e a mostrar como uma herança colectiva ecoa na intimidade de cada ser humano. E também vai ser uma mulher, Margarida Cardoso, a realizadora que já transpôs para o cinema o romance de Lídia Jorge, a fazer a adaptação a filme de Caderno de Memórias Coloniais.

Mas na sessão em Guadalajara também se abordou a discussão sobre o futuro Museu das Descobertas (ou da Descoberta) que decorre em Portugal. “Há quem diga que a criação desse museu é um sinal de que continuamos a ter uma memória colonial, viva e activa, que é a última forma de fazer colonialismo. Então para que servem os nossos livros? Para que serve A Costa dos Murmúrios? Serve para revisitar o momento de onde, sem nacionalidade, eu falei das vítimas e dos carrascos, dos que queriam continuar um monopólio injusto numa terra que não lhes pertencia. Serve para os africanos saberem que temos um sentimento de culpa e que ele não envergonha, pelo contrário. Esse livro, como todos os outros, diz que precisamos de falar do que aconteceu, dos sentimentos que estão vivos, para podermos passar a uma outra página”, argumentou Lídia Jorge.

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Lídia Jorge e Isabela Figueiredo nunca se tinham juntado para falar da sua experiência partilhada da colonização portuguesa de Moçambique NABIL QUINTERO MILIÁN/FIL

Sentada ao seu lado, Isabela Figueiredo, que nasceu em Moçambique, em 1963, também defendeu que “um museu do passado não ofende ninguém”. Para a autora – que, comparou Pedro Serra, fez algo parecido com o que Lídia Jorge fizera 20 anos antes, mas inaugurando “uma nova etapa”, em que “quem fala da memória são os retornados”, com uma “linguagem completamente diferente” –, Portugal é como "um idoso que já viveu muitos anos" e “carrega muitas culpas”, mas também “muitas vitórias e muitas maravilhas”. “É natural que países com uma longa história tenham este passado tão carregado. E eu gosto muito de ser uma peça de museu de carne. É aquilo que me sinto todos os dias, uma peça do museu colonial. Nasci em Lourenço Marques e até aos 13 anos o meu pai sempre me disse: ‘Tu não és portuguesa, tu és moçambicana’. Havia uma forma de viver aquela ideia de se ser moçambicano branco de que as pessoas como o meu pai se orgulhavam.”

Quando foi obrigada a sair de Moçambique, devido à independência do país e à violência que esta acarretou, sentiu-se perdida. Não sabia de onde era. Nem o que era. Nem o que andava a fazer no mundo. “Tenho andado a minha vida inteira a tentar encontrar-me. Mas eu tenho de ter um lugar, tenho de ter pátria. Tenho de aceitar Portugal com as suas contradições, tal como ele é. Tal como tive de aceitar o meu pai, tal como ele era, um homem racista com o qual eu não concordava. Tinha um lado sombrio e um lado luminoso, como Portugal, onde o passado colonial não está resolvido.”

Em Portugal, contou ainda a escritora, é constantemente interpelada por pessoas que não nasceram em África mas que herdaram toda uma linguagem e uma cultura africanas porque os seus pais vieram de lá. “Têm os mesmos problemas identitários que eu tenho, embora nunca tenham pisado África, o que é interessante.”

Ouvir a fala de Isabela Figueiredo despertou em Lídia Jorge uma memória, ela que teve “uma experiência de guerra particular”, porque foi para Portugal acompanhando o marido, oficial da Força Aérea Portuguesa. “Eu sabia dos crimes que se praticavam contra os nativos, e também vi muitos portugueses jovens mortos, estive no meio do problema. Quando regressei a Portugal achei que nunca escreveria sobre uma coisa que me fez sofrer tanto.” Mas à medida que o tempo passava foi percebendo que o país queria esquecer. “Não queria falar. Da Guerra Colonial, dos estropiados, dos homens que tinham pesadelos de noite, que batiam nas mulheres, nos filhos, gente enferma mentalmente, que não era capaz de falar da sua experiência, que odiava África e a gente de África. Tudo isso existia, escondido, dentro de casa.” 

Escreveu A Costa dos Múrmúrios quando compreendeu que “as palavras começaram a ser esquecidas”, e que só a última parte da memória ia ficar, como um murmúrio. Para testemunhar que os portugueses que comiam gambas nos hotéis e aqueles a quem eles chamavam “selvagens”, porque comiam gafanhotos assados ao ar livre e dançavam ao redor de uma fogueira, eram “duas culturas que estavam diante uma da outra e não se compreendiam”: “Éramos irmãos e não o sabíamos. Éramos vítimas do poder político de Portugal”, explicou a autora, que em Moçambique se sentia como uma espia, ela que era feminista, que se tinha formado na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, que tinha estudado e compreendido os poetas. Nesse teatro de guerra, percebeu que afinal a mulher não seria o futuro do homem, pelo contrário, pois havia mulheres que queriam que os seus maridos viessem do campo com muitos mortos, para serem condecorados. “Isso foi para mim uma experiência tremenda, porque compreendi que éramos todos o mesmo género humano.” 

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Portugueses no Hotel Polana, em Maputo (então Lourenço Marques), nos anos 50 DR

O dever de falar

Nessa época de menina, Isabela Figueiredo fazia perguntas sobre a guerra e respondiam-lhe que era uma coisa lá longe que não lhes dizia respeito. Os militares chegavam a Lourenço Marques e desapareciam rapidamente, distribuídos pelos quartéis. “É muito curioso ouvi-la falar disto, Lídia, porque eu estava lá e não sabia o que acontecia. Choca-me ouvir a sua narrativa assim na primeira pessoa”, disse a escritora em Guadalajara, explicitando o lugar a partir do qual viveu a opressão colonial: “Eu não tinha andado na faculdade de letras, nem tinha lido, nem tinha educação política; a minha questão era humana, era católica. A minha educação dizia que éramos todos iguais e devíamos ajudar os que precisam. Ao perceber que tudo o que se passava à minha volta era de uma enorme desigualdade, pobreza e injustiça, de falta de respeito pelo outro, pelo colonizado, pelas mulheres e pelos homens negros, isso criou em mim uma revolta.”

Isabela Figueiredo olhava para a forma como as mulheres portuguesas eram tratadas em África e não queria ter a vida da sua mãe. Mas olhava para a forma como as mulheres negras eram tratadas em África e também não queria ter a vida delas. “Na verdade não queria ter a vida de nenhuma mulher”, admitiu a escritora, que mais do que uma vez se mostrou perturbada com a narrativa da sua colega. “Mas porquê, se há mil pessoas que falam como eu?”, questionou Lídia Jorge. “O meu pai e o meu avô estiveram em Moçambique durante dez anos, também eu era uma menina. Os dois conviviam com os nativos, lembro-me bem das cartas que enviavam, eram boas pessoas mas eram colonos do seu tempo." Numa dessas cartas, recordou, o seu avô dizia que sentia muita pena das africanas porque quando tinham filhos os peitos lhes caíam pela barriga abaixo e tinham de os carregar às costas. E lembrou a experiência de Margarida Cardoso, que também foi uma menina em Moçambique e sabia da guerra porque percebia que os camaradas do seu pai morriam: em sua casa, conta, as portas de casa estavam sempre encerradas para que não se visse a realidade.

Nesta primeira conversa entre ambas, Lídia Jorge quis dizer a Isabela Figueiredo que a história que ela contou sobre o pai em Caderno de Memórias Coloniais "é muito semelhante à história que é contada pela [escritora moçambicana] Paulina Chiziane ao contrário”: “Ela lembra sempre que o seu pai tinha um ódio enorme aos portugueses e aos brancos. Somos todos diferentes. E tu viveste tanta coisa depois, como te choca?”. 

“Não sei dizer porque me choca", respondeu-lhe Isabela. "Mas quando vejo na televisão ou no cinema imagens de África há um sentimento muito forte que acorda em mim. E fico perturbada. A Lídia, por aquilo que falou aqui, acordou também alguma coisa em mim. Mas falaremos sobre isto no futuro.”

Quanto à necessidade de esquecer, Isabela Figueiredo explicou que quando chegou a Portugal, em 1975, realmente não queria falar de África. “Precisei de esconder que era retornada para não sofrer, só para viver, viver”, disse a escritora, que sabe porém que só se podem sarar as feridas se as expusermos ao ar. “É necessário falar, criar museus do passado, assumir o passado, tal como os alemães o fizeram: os museus estão lá, a história está lá para ser contada. Foi horrível? Foi. Mas está aqui, assumimos isto, vamos falar sobre isto.”

Continuar a escrever sobre esta experiência é, para Lídia Jorge, também absolutamente fundamental. “Ao escrevermos as nossas memórias portuguesas, estamos a ajudar a Europa a compreender os tempos presentes. É por isso um dever falarmos dos nossos pecados.” 

O PÚBLICO viajou a convite do comissariado para a participação portuguesa na FIL Guadalajara 2018