Na Coreia do Norte com as mãos nos bolsos

Estreia neste domingo A Viagem de Michael Palin na Coreia do Norte no National Geographic.

Michael Palin
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Michael Palin DR

Uma das histórias que Michael Palin contou quando estava a promover o seu Viagem à Coreia do Norte foi o momento em que os seus acompanhantes do governo obrigaram a sua equipa a repetir uma filmagem às gigantescas estátuas sorridentes de Kim Il-Sung e Kim Jong-Il em Pyongyang por um motivo banal. “Há muitas regras para captar imagens das estátuas”, contou o ex-Monty Python. “Tínhamos de filmar de longe porque as tínhamos de mostrar no seu todo. E no final vieram ter comigo a dizer, ‘ Não, não, não! Tem de fazer tudo outra vez porque estava com as mãos nos bolsos e isso é falta de respeito’.” E Palin filmou tudo outra vez.

Vamos poder ver neste domingo (23h20), no canal National Geographic, a primeira de duas partes do documentário Viagem à Coreia do Norte com Michael Palin – a segunda parte passa a 9 de Dezembro, no mesmo horário. E este episódio das mãos nos bolsos que Palin contou à imprensa britânica mostra bem o que é a tarefa de filmar um documentário num dos países mais fechados do mundo. Não era por Palin ser uma celebridade mundial (poucos na Coreia do Norte saberão que foram os Monty Python) que teve mais acesso ou mais liberdade de movimentos. Mas Palin é um viajante paciente, generoso e com mente aberta, um espírito crítico e com genuína capacidade de deslumbramento, mesmo sabendo que aquela realidade está a ser fabricada para os seus olhos ocidentais.

A Pyongyang que Michael Palin mostra não é muito diferente da que tem sido mostrada por várias equipas de documentários nos últimos tempos. Palin anda por ruas e estações de metro seleccionadas, vai aos monumentos que quase parecem estar abertos só para ele e mais meia dúzia de visitantes, e até passa por um “spa” controlado pelo governo, que tem piscinas – e vemos um breve número de natação sincronizada – e barbeiro – e vemos um cartaz com os cortes de cabelo recomendados. Palin opta por uma massagem ao couro cabeludo.

Também come um churrasco de carne num restaurante para não fugir à narrativa da abundância que Pyongyang quer passar para o mundo exterior. E passa por uma escola seleccionada em que os alunos falam das suas ambições para o futuro, uma sala de aula cheia de futuros cientistas, professores e militares, prontos a servir o líder, e pelo centro de arte onde pintam os cartazes de propaganda. “Não há cartazes de publicidade na rua”, diz Palin a certa altura. “Só de ideias.”

Há um momento que remete de imediato para um dos sketches mais famosos dos Python, aquele em que Palin pedia a John Cleese um subsídio governamental para o ajudar a desenvolver o seu silly walk. Há qualquer coisa de silly naquela coreografia das mulheres que fazem de polícia-sinaleiro nas pouco movimentadas ruas de Pyongyang. E também há um momento em que Palin se junta à festa do 1 de Maio, um piquenique dançante com centenas de coreanos a comer, a beber, a cantar e a dançar. Talvez seja um dos momentos mais genuínos e menos encenados, mas também ficamos com a sensação de que faz parte da narrativa oficial.