Opinião

Fascismo - Um Alerta, de Madeleine Albright

O texto está sobrecarregado de zelo político, o que limita substancialmente os domínios cognitivos, a consistência metodológica e o equilíbrio científico da obra, contendo por isso, em grande parte, elementos de um panfleto político.

A ex-secretária de Estado Madeleine Albright publicou recentemente um livro intitulado: Fascismo - Um Alerta. Tendo em conta o título do livro, esperava um texto que fosse uma contribuição séria e científica para um estudo mais aprofundado das causas da origem, desenvolvimento e consequências dos fenómenos sociais patológicos denominados fascismo. No entanto, para minha surpresa e desapontamento, a essência do livro é tudo menos isso. O texto está sobrecarregado de zelo político, o que limita substancialmente os domínios cognitivos, a consistência metodológica e o equilíbrio científico da obra, contendo por isso, em grande parte, elementos de um panfleto político.

Em suma, pode dizer-se que o livro não pretende estudar o fascismo, mencionando Mussolini, Hitler e outras personalidades associadas a várias formas de totalitarismo apenas como dano colateral ao almejar o alvo principal. Quando todos os véus são removidos, o alvo fica absolutamente claro e este é o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Logo no início do livro, a autora levanta a questão de saber (p. 4) “...porque estamos agora, em pleno século XXI, mais uma vez a falar sobre fascismo? Um dos motivos, francamente, é Donald Trump. Se pensarmos no fascismo como uma ferida do passado que quase cicatrizou, colocar Trump na Casa Branca foi como tirar o curativo e arrancar a crosta a essa ferida”.

Para Albright, Trump (quase nunca se lê ‘Presidente’) (p. 5): “deteriora sistematicamente o discurso político nos Estados Unidos, semeando um surpreendente desrespeito pelos factos, difamando os seus antecessores, ameaçando 'prender' os rivais políticos, referindo-se aos jornalistas como 'o inimigo do povo americano', espalhando falsidades sobre a integridade do processo eleitoral dos EUA…”

Referindo-se a Putin, a autora observa que (p. 164): ”… a Comunidade de Inteligência dos EUA afirmou que Moscovo havia usado ferramentas online para influenciar o processo eleitoral americano e ajudar o candidato favorito de Putin, Donald Trump, a ascender à Sala Oval.

Quando fala do “fascismo norte-coreano”, a autora coloca o Presidente nesse contexto (pp. 202-205), afirmando que: “Trump disse que ficaria 'honrado' em falar directamente com Kim Jong-un...” E descrevendo o Presidente (pp. 209-210), Albright afirma que “os seus olhos iluminam-se quando os homens fortes manipulam a oposição, ignoram as restrições legais, ignoram as críticas e fazem o que for preciso para conseguir o que querem”. Neste contexto, a autora escreve ainda que o Presidente Rodrigo Duterte "ganhou notoriedade internacional por ter encarregado a polícia e os vigilantes civis de matar os suspeitos de tráfico de droga", aconselhando os "agentes policiais que estavam a ser julgados por abuso de autoridade a dar-se como culpados de modo a ele poder perdoá-los e promovê-los”. A autora afirma: "... Donald Trump telefonou para Duterte para o parabenizar pelo seu trabalho inacreditável”. Albright ataca então o Presidente egípcio Abdel Fattah el-Sisi, que "tomou o poder através de um golpe militar" (...) "atrasou o relógio da Primavera Árabe" (...) “o governo censura o debate público, através do uso de uma força letal contra os manifestantes, perseguindo os jornalistas, banindo a oposição política e enchendo as cadeias com dezenas de milhar de dissidentes...” Albright: “Na visão de Donald Trump, el-Sisi é 'fantástico'”.

A autora utiliza então (p. 212) a declaração da Embaixadora Nikki Haley, de que Trump bate nas pessoas certas (e) abraça as pessoas certas, para concluir que "ela diz a verdade, mas inversamente". E continua: “A visão que Trump tem dos Estados Unidos é sombria. Entre os seus mantras favoritos estão os de que os tribunais americanos são tendenciosos, o FBI é corrupto, a imprensa mente quase sempre e de que as eleições são manipuladas. O impacto nacional destas censuras é desmoralizar e dividir“ (…) ”a vida dos repórteres de investigação, dos juristas independentes e daqueles que buscam a verdade está, na melhor das hipóteses, em risco. O perigo intensifica-se quando o ocupante da Casa Branca ridiculariza a credibilidade destas profissões”. A autora afirma então que (p. 213): "Trump é (...) uma dádiva para os ditadores, o que, vindo de um Chefe de Estado, é motivo de vergonha".

A ex-secretária de Estado afirma que (pp. 216-220): “Os arquitectos da política externa do governo Trump usam dois rótulos para descrever a estrutura que construíram: 'Realismo de Princípios' e ‘América em Primeiro Lugar’”, enquadrando tudo isto num contexto nazi-fascista! “A visão de Trump da vida como uma selva de brigas darwinistas não corresponde ao mundo intrinsecamente interdependente em que devemos frequentemente unir forças se quisermos fazer o melhor do nosso lote”. Prossegue então, com mais do que uma alusão ofensiva em relação ao actual Presidente citando Kissinger, que afirmou que Nixon era “um pouco louco", estabelecendo um paralelo: “Trump pode parecer desequilibrado” (...) ”Há aqueles que consideram Trump um homem pouco inteligente. Eu não faço tal acusação. No entanto, confesso que me preocupo com a sua firmeza e com a fragilidade transparente do seu ego”. É interessante que a autora não mencione sequer que durante o tempo de Nixon-Kissinger “uma mudança sem precedentes” (Henry Kissinger, Diplomacia) foi adoptada na política externa dos EUA: “no futuro, a política externa será baseada numa análise do interesse nacional e os Estados Unidos envolver-se-ão na interpretação de princípios políticos, não jurídicos” (Nixon Papers, 1970, p. 116 em diante). Não será este o slogan o mesmo que dizer ‘América Primeiro’? E na época do poder Clinton-Albright, isso não era apenas usado, mas abusado!

Madeleine Albright ofende não só o Presidente Trump, como também os eleitores norte-americanos e a Constituição dos EUA (p. 221): “Continuo a acreditar que os EUA conquistaram suficiente boa vontade internacional no intervalo entre George Washington e Barack Obama para poderem recuperar do presente embaraço - mas não tenho a certeza de quão extenso ou duradouro será o dano, daí as minhas preocupações. O potencial dano pode ser de vários tipos. A eleição de Trump por si só lançou a dúvida nos círculos internacionais sobre o discernimento do povo americano e sobre a confiabilidade do sistema democrático para produzir resultados defensáveis”. Não será isto, em essência, um convite a um golpe de Estado?

A autora supostamente teme (p. 223) “um retorno ao clima internacional que prevaleceu nas décadas de 1920 e 30, quando os Estados Unidos se retiraram do cenário global e países por todo o mundo perseguiram o que eles consideravam ser os seus próprios interesses sem considerar metas maiores e mais duradouras”. Em seguida, cita o sobrevivente do Holocausto Primo Levi, afirmando que cada época tem o seu próprio fascismo e que esse ponto crítico pode ser alcançado "não apenas pelo terror da intimidação policial, mas negando e distorcendo informações, minando os sistemas de justiça, paralisando o sistema educacional e espalhando de uma miríade de maneiras subtis a nostalgia de um mundo onde reinava a ordem”. Madeleine Albright prossegue afirmando que (p. 223-224): “Se ele estiver certo (e eu acho que sim) temos de nos preocupar” (...) "o desrespeito do Presidente americano pela verdade e a ampla aceitação de insultos desumanizantes, islamofobia e anti-semitismo como estando dentro dos limites do debate público normal”. Deixando de lado o problema lógico de ser ao mesmo tempo islamofóbica e anti-semita, a autora sugere novamente que o Presidente americano é um fascista ou, pelo menos, se encontra num sólido caminho para se tornar um fascista. Parece-me que Albright é obcecada por Trump, mas, em todo caso, a rudeza das suas palavras está em harmonia com a pequenez dos seus sentimentos.

A autora então (pp. 226-228) escreve sobre o surgimento e desenvolvimento do populismo nos Estados Unidos, ligando-o ao fascismo, para imediatamente referir que “Donald Trump é repetidamente descrito como sendo um populista apesar do seu estilo de vida de country-club, um gabinete cheio de bilionários...”, acrescentando que “as ditaduras militares estariam entre os Estados mais populistas do planeta”. Continuando (pp. 232-234), a autora relata que colocou uma questão aos seus alunos de pós-graduação: "Pode um movimento fascista constituir uma posição significativa nos Estados Unidos?" Ao que os seus alunos responderam que seria possível, tendo alguns deles mencionado Trump e os republicanos, acrescentando que "aprendemos com a história que os fascistas podem alcançar altos cargos através de eleições".

No final do livro (pp. 246-254), não resta qualquer dúvida de quem é o verdadeiro alvo do ataque (Mussolini, Hitler, Kim Il-sung, Putin, Erdogan, Chavey, Orban, Mugabe, Hun Sen, Musaveni, Ortega, Kagame e por diante - os nomes que a autora menciona no livro, são apenas danos colaterais) e que define o título: “A sombra que paira sobre estas páginas é, naturalmente, a de Donald Trump”! Albright explica que Trump é presidente, porque: "convenceu suficientes eleitores nos Estados certos de que ele era um contador de verdades contundentes, um magistral negociador e um defensor eficaz dos interesses americanos". Após o que a autora ‘explica’ que: “Trump é o primeiro presidente antidemocrático da história moderna dos EUA”; "Ele poderia fazer uma audição para ditador, porque é onde os seus instintos o levam". Albright vê a América através da lente ‘estados vermelhos e azuis’, onde os estados vermelhos são obviamente menos valiosos que os estados de esquerda! Comentários como “presidente antidemocrático” e “poderia fazer uma audição para ditador” não são apoiados em evidências suficientes para poderem ser expressos. A autora ridiculariza tanto o Chefe de Estado como o povo americano que votou e elegeu o Presidente Trump.

Entende-se que num Estado democrático não é, nem não pode ser, proibido criticar até mesmo os símbolos do Estado (como a bandeira, o brasão de armas, o hino e o Chefe de Estado), mas pressupõe-se que essa crítica seja apoiada em factos comprovados. Como ex-funcionária do Estado e professora universitária, seria de esperar mais do livro de Albright. No entanto, em vez de utilizar a sua própria experiência como funcionária do Estado para dar aos leitores uma visão e combiná-la com o rigor académico, Albright demonstra neste livro um elevado grau de escárnio, superficialidade e total desrespeito pela vontade eleitoral do povo americano.

Na verdade, ler o seu livro fez-me recordar o famoso pensamento de Noah Webster: “É sempre melhor ser vulgarmente certo do que educadamente errado”. Embora, neste caso, Madeleine Albright tente focar-se na "franqueza" do Presidente para fazer uma conexão com o fascismo, é ela quem se apresenta como rancorosa para uma grande parte da sociedade americana que apoia o Presidente democraticamente eleito.

Seria muito melhor se a sua carreira como escritora tivesse terminado no seu quinto livro.
Pensando melhor, este sexto livro é útil como mais uma prova do quanto a hostilidade política, ideológica e pessoal é prejudicial para uma abordagem científica objectiva, em geral, e especialmente no caso de se pretender estudar um complexo fenómeno histórico, político, legal, económico, sociológico ou outro qualquer fenómeno ou processo social, tal como é o fascismo.

Só se alteraria o título do livro para "Albright a Warning"