Negociações com Resende estão complicadas e podem pôr em causa 200 postos de trabalho

Em pouco mais de um ano quatro autocarros da empresa matosinhense pegaram fogo. O último incidente ocorreu nesta sexta-feira, em Valongo. O presidente desta autarquia apelou à Área Metropolitana do Porto para uma solução imediata. Matosinhos tem até ao final do ano para resolver questão.

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paulo pimenta

No início deste mês o cenário era optimista. A câmara municipal de Matosinhos (CMM) estava perto de chegar a um acordo com a Transportes Resende e com outra grande empresa do sector. Até até ao final do ano ficaria decidido o futuro da empresa matosinhense e da operação coberta pela mesma em todo o concelho, marcada por historial extenso de incidentes.

Na última quinta-feira a discussão a três partes terá tomado outro rumo e, neste momento, o desfecho mais provável é o de uma solução que exclua a Resende da equação, o que, a acontecer, poderá pôr em causa cerca de duas centenas de postos de trabalho.

Pelo que o PÚBLICO conseguiu apurar, a administração da empresa que opera no concelho há cerca de 40 anos, actualmente responsável por 22 linhas, algumas com ligação ao Porto, Maia, Valongo, Gondomar e Vila do Conde, terá dado um passo atrás num percurso que estaria em vias de chegar a bom porto.

Em cima da mesa estaria a possibilidade de ser criada uma nova sociedade composta por esta transportadora e por outra – uma das maiores do país. A Resende inicialmente terá mostrado interesse, mas ontem, ainda que o dossier não esteja já encerrado, terá batido o pé a esta solução. Se este desfecho se vier a verificar a autarquia terá que tomar uma decisão em contra-relógio.

Acossada por uma série de problemas com o serviço prestado, a empresa de Matosinhos enfrenta já a perspectiva de não ver prorrogado, para além do final deste ano, a concessão neste concelho. Já por várias vezes a autarquia deu a conhecer que não a renovaria. Tudo leva a crer que dificilmente consiga voltar a ganhar a concessão, no concurso que vai ser lançado a seguir.

Actualmente, trabalham no operador ainda em funções cerca de 200 pessoas. E em Maio deste ano, a autarquia garantiu que tudo faria para não pôr em causa estes postos de trabalho. Este terá sido um dos motivos pelo qual a câmara não deixou a Resende de fora das negociações. A nova sociedade, nos moldes em que estava previsto, incluiria a transferência de activos desta empresa para a nova, assim como dos funcionários interessados em fazê-lo.

Ficando a Resende de fora da solução, e face à urgência da decisão – até ao final do ano tem que estar fechada -, cerca de 200 funcionários da empresa poderão ter os postos de trabalho em perigo.

Fica por apurar qual o operador ou operadores que assegurariam a operação. Em Maio deste ano, a autarquia não excluiu a hipótese de ser feita uma adjudicação por ajuste directo para escolher novo operador. Em 2019, por lei, terão de ser lançados concursos para a concessão do serviço público de transporte em todo o país.

Mais um autocarro que pegou fogo

O percurso da actividade deste operador tem sido marcado por vários incidentes. Em pouco mais de um ano, pelo menos, quatro veículos da empresa incendiaram em horário de expediente. O último incendiou esta sexta-feira de manhã, em Valongo. Cerca das 7h20, o autocarro da empresa pegou fogo ao quilómetro sete da Estrada Nacional 15, na Rua Ribeiro Cambado, como confirmaram fontes dos Bombeiros Voluntários e da PSP de Valongo.

De acordo com o Comando Distrital de Operações de Socorro (CDOS) do Porto, todos os passageiros saíram ilesos porque o motorista se apercebeu rapidamente do fogo.

Valongo apela à AMP para uma solução

Na sequência deste episódio, o presidente da câmara de Valongo, José Manuel Ribeiro, apelou à Área Metropolitana do Porto (AMP) para que sejam resolvidos rapidamente os problemas relacionados com a Resende.

Em comunicado, o autarca reagiu e afirmou que a operadora não tem condições para continuar a prestar o serviço de transporte colectivo de passageiros no concelho que lidera. “A população de Valongo tem sido muito afectada pelos acidentes frequentes que envolvem esta operadora privada de transportes, que comprovadamente não tem condições para continuar a prestar o serviço. O acidente que se registou hoje felizmente não causou vítimas, mas não podemos tolerar mais esta situação”, considera.

“A AMP tem de resolver rapidamente este assunto, no âmbito das competências que lhe foram delegadas enquanto autoridade de transportes”, sublinha o autarca, recordando que a concessão provisória atribuída à Resende pela AMP termina a 31 de Dezembro.

Contactada pelo PÚBLICO, a presidente da câmara de Matosinhos — onde a empresa opera maioritariamente —, Luísa Salgueiro, não quis comentar este último acidente, nem adiantar pormenores sobre as negociações que estão a decorrer. Tentamos ainda chegar à conversa com o vereador da Mobilidade, José Pedro Rodrigues, mas sem efeito. A administração da empresa recusou fazer qualquer comentário.