Opinião

Podemos ficar loucos por causa do clima?

É quase impossível aceitar toda a verdade sobre o que temos feito sofrer à Terra. É tão radical, tão chocante, que é difícil viver com isso todos os dias

Esta foi uma semana dominada pelas manifestações dos "coletes amarelos" em França, desafiando a já claudicante autoridade do Presidente Macron e o seu importante papel dinamizador da Europa, e, no plano nacional, pela queda da estrada na pedreira entre Borba e Vila Viçosa, pondo novamente em causa a imprevidência e o eterno passa-culpas dos nossos serviços públicos e do Estado. Mas esse não pode ser um álibi para a total indiferença com que foram acolhidos entre nós dois relatórios internacionais sobre as alterações climáticas, considerados já de uma importância histórica pela vastidão e profundidade das respectivas análises e dos alertas vermelhos que projectam sobre as terríveis catástrofes anunciadas num planeta onde os chamados cépticos do clima continuam, de facto, a predominar.

O primeiro relatório foi publicado, na passada segunda-feira, pelo Nature Climate Change, tendo merecido grande destaque na primeira página do Le Monde do dia seguinte sob o título «Como o caos climático vai afectar as nossas vidas». Nesse relatório, realizado maioritariamente por cientistas da Universidade do Havai e que sintetiza 3.300 estudos sobre a mudança do clima desde 1980, salienta-se que «metade da humanidade estará ameaçada daqui até 2100 por catástrofes massivas e simultâneas: secas, fomes, inundações». Nessa projecção, «a saúde, a alimentação, a água ou a economia são afectadas sob 467 formas diferentes».

Essas conclusões são essencialmente comuns ao segundo relatório, elaborado sob mandato do Congresso dos Estados Unidos e divulgado por 13 agências federais, além da própria Casa Branca, na passada sexta-feira, e logo amplamente difundido pelo New York Times e o Washington Post (que chamam a atenção para a contradição radical entre o diagnóstico do estudo e as reiteradas posições de cepticismo climático do Presidente Trump). A difusão do relatório coincide praticamente com a ocorrência dos piores incêndios de que há memória na Califórnia, deixando um rasto de devastação ambiental e humana sem precedentes.

Trump continua a defender que o impacto dos gases com efeito de estufa na atmosfera – considerado pelos cientistas como o principal factor das catástrofes climáticas em curso e daquelas, ainda mais graves e incontroláveis, que se avizinham, culminando no horizonte absolutamente apocalíptico de 2100 – é um mito adverso à prosperidade económica. Ora, segundo o estudo, a economia será frontalmente atingida pelas consequências da desregulação climática, com uma queda de 10 por cento até 2100 se nenhuma medida para combater essa desregulação for entretanto adoptada.

Acontece, porém, que o militante cepticismo climático de Trump é secundado por outro cepticismo passivo que envolve, na prática, o conjunto dos habitantes do nosso planeta. Numa entrevista ao Le Monde, o professor australiano Clive Hamilton, autor de Requiem pela Espécie Humana – Fazer Face à Realidade das Alterações Climáticas, chama a atenção para um facto altamente perturbador: "Na realidade, somos todos cépticos do clima. É quase impossível aceitar toda a verdade sobre o que temos feito sofrer à Terra. É tão radical, tão chocante, que é difícil viver com isso todos os dias, porque nos exige demasiado em termos emocionais. Vi pessoas a viver com esta ideia no quotidiano, elas desenvolveram uma forma de loucura". Porquê? Precisamente porque aceitar a mensagem dos cientistas sobre a desregulação climática pressupõe pôr em causa a ideia que temos interiorizado acerca da modernidade e do progresso. Ou seja: precisamos de encarar frontalmente o desafio de viver de outra maneira, em alternativa aos padrões estabelecidos das sociedades de consumo. Disso depende a nossa saúde mental e também a nossa sobrevivência como espécie para além do fim deste século.