Andreia Patriarca
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Andreia Patriarca

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O deus do dinheiro

É-nos vedada a possibilidade de sonhar porque temos compromissos inadiáveis em gerar dinheiro para quem já o tem e organizar a nossa vida em torno desse grande desígnio sagrado.

Manuel Freire perpetuava as palavras de António Gedeão cantando: “Eles não sabem, nem sonham, que o sonho comanda a vida.”

Estas palavras cristalizam a mais secular aspiração do ser humano enquanto tal — mover a vida pelo sonho e, através dele, conquistar o direito a ser feliz. Falo em conquista porque nunca, em toda a história, foi possível alcançar algum avanço civilizacional sem lutar bravamente por ele.

Os jovens entram no mundo do trabalho com o objectivo de conseguir o mínimo indispensável para uma vida minimamente confortável, educados desde pequenos que nunca o deixarão de ser. Desde que acordamos até que nos deitarmos, temos sempre em mente a árdua tarefa para que estamos designados: pôr o pão na mesa e fazer dinheiro quanto baste para sustentar uma vida que não escandalize as mais nobres tradições franciscanas do pé descalço. Não nos é permitido aspirar a mais, a querer mais e a ser mais. Não nos é permitido ter mais do que aquilo que precisamos para uma vida remediada, dentro de quatro paredes onde a alegria da pobreza está nessa grande riqueza de dar e ficar contente, já dizia o outro.

É-nos vedada a possibilidade de sonhar porque temos compromissos inadiáveis em gerar dinheiro para quem já o tem e organizar a nossa vida em torno desse grande desígnio sagrado. Adorar o deus do dinheiro — entenda-se como tal não o dinheiro em si, mas aqueles que o detêm.

Saímos das escolas profissionais, das faculdades ou do ensino obrigatório com o fado de ser pouco e de ter ainda menos; de apenas contarmos com aquilo que os outros estão dispostos a dar, mesmo que seja perto do nada. Não é de estranhar, dirão. O mundo é assim mesmo, são os tempos em que vivemos, estão difíceis, mas é assim.

Quando é que os tempos foram fáceis? Quando é que, em Portugal, os jovens tiveram uma oportunidade real de serem felizes? Tudo gira em torno do dinheiro e este, por mais voltas que dê, acaba sempre por encontrar o seu poiso nos bolsos de quem já o tem aos magotes.

Somos recrutados para as mais prestigiadas empresas e, contrariamente ao expectável, não advém daí nenhum benefício que não o da precariedade e de uma vida aos tombos. De estágio em estágio e de emprego em emprego, geramos lucros que não colhemos e mais-valias a que não temos direito. Sobram as migalhas que guardamos.

É difícil ir trabalhar sabendo que a cada fim do dia vamos estar mais pobres do que no dia anterior. Os senhores do dinheiro observam lá do alto as formigas que todos os dias vão e vêm vezes sem conta, de casa para o emprego, de um emprego para o outro, tudo numa frenética corrida ao dinheiro que no fim, como disse, vai ter sempre ao mesmo bolso.

Dá impressão que estes deuses se esquecem que isto não é o fim da história e que os jovens tomarão nas suas mãos aquilo que desde sempre lhes pertenceu. O direito ao sonho e à vida.

A juventude anda ocupada e pressionada em bem suceder neste mundo de leões, mas com certeza que não abdicará de ajustar as contas e reequilibrar a balança. Eles não sabem que o sonho comanda a vida, mas o povo encarregar-se-á de lhes lembrar.