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O Mickey faz anos, e Júlio Isidro está de parabéns

Há 90 anos nascia o rato mais famoso do mundo. Em 1928, o império de Walt Disney ganhava um rosto com Mickey. Para assinalar o aniversário do incontornável símbolo da animação, conversámos com um dos pais da Disney em Portugal: Júlio Isidro, que nos levou numa viagem até ao Clube Amigos da Disney.

Com dez anos, Júlio Isidro passava as tardes na Biblioteca Americana, na Avenida Duque de Loulé, em Lisboa. Era lá que estavam os livros da Disney, chegados do outro lado do Oceano Atlântico. Com lápis e papel vegetal, copiava as personagens e animações e levava-as para casa. Lá, já em contraplacado, pintava os desenhos e montava um mostruário. Depois distribuía pela família e amigos nas datas festivas. “Dava um Pateta a um, o Pato Donald a outro.” 

Nessa altura, o pequeno Júlio não imaginava que 30 anos depois estaria a apresentar um programa inédito na Europa e que marcaria uma geração no final da década de 80: o Clube Amigos Disney. Hoje com 73 anos, Júlio Isidro ainda se assume como fã do universo Disney e é a ele que regressa no 90.º aniversário do rato mais famoso do mundo. 

Em conversa com o PÚBLICO, o apresentador televisivo recorda a “aventura maravilhosa” que foi apresentar o Clube Amigos Disney na RTP, entre 1986 e 1989. Três anos intensos, de viagens entre Lisboa, Paris, Orlando e Anaheim. Nelas, Júlio Isidro procurava inspiração, formação, material para o programa e divulgação do formato. Tornou-se “o maior fã da Disney” lá em casa e nem mesmo as duas filhas, Mariana e Francisca, de 19 e 16 anos, conseguem transcender a sua paixão pelo mundo de Walt Disney. Apesar de nutrir um especial carinho pelo Pateta (com quem se identifica), Júlio Isidro tem espaço para todas as personagens: das mais discretas bandas desenhadas, aos protagonistas dos grandes clássicos de animação.

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Júlio Isidro estreou-se na televisão com apenas 15 anos. Hoje com 73 anos, é um dos maiores comunicadores televisivos RTP

Por isso, quando o desafio de criar um programa infantil foi colocado pelo representante da Disney em Portugal, Laszlo Hubay, o apresentador quase não precisava de fazer o trabalho de casa. “Dirigiu-se a mim para eu pensar num formato para um programa apoiado pela editora Morumbi que editava os livros de banda desenhava que havia cá em Portugal.” Como era um “cliente da Disney”, como o próprio se define, o projecto nasceu muito naturalmente. 

Para Júlio Isidro, à data com 40 anos, a “ideia básica” mais eficiente era fazer um programa que decorresse num palco. “Tinha a experiência de grandes sucessos meus, feitos quer na rádio quer na televisão, ao vivo e em palco. Foi o caso da Febre de Sábado de Manhã”, lembra Júlio Isidro. E com base nessa premissa, partiu para um programa de entretenimento que fosse também lúdico. Baseada no original norte-americano Clube do Rato Mickey, a adaptação portuguesa foi um sucesso.

Filmes, bicicletas e uma viagem a Orlando

“Passávamos pequenos filmes da Disney. Não só de animação, mas algumas produções como o Zorro, ainda a preto e branco, e curtas da Disney que costumavam ser exibidas antes dos filmes da mesma produtora no cinema.” Júlio Isidro ia até Londres onde se perdia “naqueles arquivos maravilhosos”, que depois escolhia e trazia para o programa da RTP.

“Havia imensas rubricas que eu criei, algumas delas engraçadas, outras nem tanto, mas que faziam com que os miúdos participassem”.

O programa, co-apresentado por Manuela Sousa Raina, alternava entre passatempos, filmes de animação e convidados musicais. Animados por personagens da Disney em palco, que despertavam o imaginário dos mais pequenos, os programas ajudavam a promover sessões de filmes da Disney ao longo do país. A onda de entusiasmo foi tal que o clube deixou de ser apenas um nome de um programa e formou-se fora da RTP, com direito a cartão de sócio. O cartão era sinónimo de orgulho e era carregado nas carteiras de crianças um pouco por todo o país.

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Os cartões de sócio que vinham nas revistas de banda desenhada

Na conversa com o PÚBLICO, o apresentador conta que o sucesso do programa vivia da interacção com a plateia e com os telespectadores, bem como dos patrocinadores que o representador da Disney conseguia. “Dávamos bicicletas, livros, bandas desenhadas e puzzles. Eu só tinha de inventar uns jogos engraçados para no final haver um bom pretexto para os miúdos irem com livros e bicicletas para casa.” Ainda hoje, na rua, Júlio Isidro continua a ser abordado por pessoas que, agora já acompanhadas pelos filhos, recordam ter visto o programa quando eram crianças. “No outro dia, alguém veio ter comigo e me disse que eu já lhe tinha dado uma bicicleta”, comenta, fazendo nota da dimensão do programa.

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O parque Walt Disney World Resort, em Orlando, na Florida Joe Skipper/Reuters

O maior prémio chegaria em Fevereiro de 1987, quando 200 crianças escolhidas aleatoriamente viajaram até à Walt Disney World, em Orlando. Para o conseguirem, as crianças enviavam um postal com o seu nome. Os postais eram depositados numa piscina e, todas as semanas, as crianças da plateia mergulhavam para seleccionar dois ou três cartões. Os nomes eram lidos em voz alta e assim ficavam escolhidos os felizardos que viajariam até ao reino do Mickey. “O número de postais que chegaram durante uma temporada atingiu um milhão. Fez-se isso de uma maneira primária que hoje não sei se seria possível. Ainda diziam que havia batota e era preciso o vídeo-árbitro”, brinca o apresentador.

Da RTP para a Europa

O programa foi de tal forma bem-sucedido que Júlio Isidro foi convidado pelo CEO da Disney, Michael Eisner, a ir a Paris apresentar o conceito do programa. “Na altura ele era o homem mais poderoso da Disney, ‘o mais tudo’ que os americanos gostam.”

“Levei uma cassete com excertos do Clube Amigos Disney que tinha uma duração de 12 minutos. Quando cheguei ao hotel, onde estavam os americanos todos, perguntaram-me quanto tempo tinha a cassete que tinha trazido para mostrar.” O aviso foi logo feito: Michael Eisner não via nada com mais de sete minutos e por isso o vídeo que tinha levado iria ser cortado.

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Michael Eisner, quando era CEO da Disney, ao lado de Mickey e do Pato Donald REUTERS/Jim Ruymen JR

O apresentador não se deixou intimidar. O vídeo não estava legendado e por isso Júlio Isidro foi descrevendo as imagens que eram exibidas atrás de si. “Entretanto foram passando os 12 minutos e acabei por conseguir mostrar tudo. Ficaram um bocado embasbacados com esse feito. Quando aquilo acabou ele [Michael Eisner] disse: ‘Já temos um Júlio Isidro em Portugal. Agora precisamos de um Júlio Isidro em Espanha, França, Inglaterra’. Foi uma frase simpática”, recorda.

Pouco tempo depois, o apresentador recebia um convite para ser consultor criativo da Disney para toda a Europa. Fê-lo durante mais de um ano.

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“Fui algumas vezes à Disneyland Paris para entrevistar os actores que faziam as vozes, os realizadores, os criadores das bandas sonoras de filmes como o Aladino e a Pequena Sereia”, conta. Para além de Paris, Júlio Isidro viajava frequentemente para Orlando, onde passava temporadas de três meses durante os intervalos de Verão do programa. Lá estudou produção de televisão e realização de filmes. “Aos domingos ia para Anaheim, para a primeira Disneyland”, conta.

Fórmula Disney ou fórmula Isidro?

Hugo Silva, criador do blogue Ainda Sou do Tempo, recorda “uma das melhores formas de acabar o domingo”. Tinha cerca de oito anos quando o programa surgiu. “Ansiávamos por esse dia, mesmo sabendo que no dia seguinte tínhamos escola”, recorda ao PÚBLICO.

Hoje com 39 anos, Hugo Silva elogia o talento e profissionalismo do apresentador português e destaca a capacidade de ter conduzido um programa infantil sem o ter “infantilizado”. Apesar de se dirigir a um público mais novo, o programa era visto por jovens e adultos. E isso era possível, explica, porque “não nos tratavam como crianças e o Júlio Isidro era essencial nesse aspecto”. Uma observação na qual o apresentador se revê.

Apesar de se ter estreado na apresentação de televisão com apenas 15 anos, ao lado de Lídia Franco no Programa Juvenil, Júlio Isidro não deixou que a idade lhe contagiasse o discurso. “Percebi logo desde o início que a linguagem do Portugal dos Pequenitos não me dava jeito nenhum. E ainda hoje o faço. Não no sentido de falar como se fossem adultos, mas como pessoas. Quando não perceberem perguntam. Prefiro usar um vocábulo e a minha filha me perguntar o que é que quer dizer, do que estar a inventar uma linguagem só porque são pequenitos”, justifica.

“O que estimulava os miúdos era a sua capacidade de invenção. A sua criatividade e sonho. As crianças quando estão a sonhar sabem que estão a sonhar. É um jogo que estão a fazer com elas próprias. Não se estão a enganar. Têm é uma enorme vantagem sobre nós. E eu tenho essa capacidade: gosto de alinhar no próprio sonho. Só se comunica se soubermos como somos e a quem nos dirigimos. Hoje em dia o meu trabalho ainda é assim.”

Esta televisão generalista não é para novos

Numa altura em que os conteúdos se multiplicam em quantidade e se dividem entre as plataformas, ainda faz sentido produzir programas como o Clube Amigos da Disney? Hugo Silva não tem dúvidas que sim.

“Ainda há muita criança por este país fora que não tem o cabo e devia ter acesso a mais desenhos animados como nós tínhamos. Nós tínhamos os desenhos animados de manhã, tínhamos à tarde e se fosse preciso tínhamos alguma referência no telejornal. Faz falta um programa do género, com uma parte lúdica e com crianças”, aponta o autor do blogue Ainda Sou do Tempo.

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Hugo Silva, autor do blogue Ainda Sou do Tempo continua a comprar semanalmente as bandas desenhadas da Disney. Procura as edições mais antigas em alfarrabistas e na Feira da Ladra, em Lisboa DR

Já o comunicador de televisão aponta as mudanças que “este electrodoméstico” viveu nas últimas décadas. “A televisão modificou-se quando foi inventado o gravador de VHS. Agora nem é preciso usá-lo. Durante oito dias temos tudo lá gravado”, aponta Júlio Isidro. “Aquele quadro familiar de todos à volta da televisão está completamente em vias de extinção. Já não é a televisão que é um evento. É um evento que é a televisão.”

Reconhecido com um dos mais bem-sucedidos profissionais da televisão, Júlio Isidro traça um perfil da actualidade televisiva e da evolução dos formatos oferecidos pela grelha de programas. “Nasci com a [televisão] generalista e penso que vou morrer depois de ela ter morrido. A televisão generalista já não é familiar”, critica Júlio Isidro, não excluindo que exista espaço para um formato que reúna de novo as famílias. “Arranjem conteúdos. Criem conteúdos que sejam aliciantes para as pessoas. Transmitam sonhos às pessoas. Sejam aliciantes para um miúdo de oito anos e para a avó de 80.”

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