PJ investiga grupo Intervenção e Resgate Animal por suspeita de crimes violentos

Uma reportagem emitida pela TVI nesta quinta-feira alega que o grupo que actua encapuzado e se dedica ao resgate de animais maltratados age com violência e estará ligado a grupos de extrema-direita.

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FACEBOOK/IRA

O grupo Intervenção e Resgate Animal (IRA), que protagoniza uma reportagem emitida pela TVI nesta quinta-feira, está a ser investigado por crimes violentos, nomeadamente, agressões e roubo, confirma fonte da Polícia Judiciária (PJ) ao PÚBLICO. 

Na sua página no Facebook, que tem mais de 130 mil seguidores, o IRA diz que se dedica à “detecção, planeamento e resgate de animais vítimas de negligência e/ou maus-tratos”. E que actua no sentido da “sensibilização e divulgação da legislação referente aos direitos dos animais”. 

Actuam encapuzados e, segundo algumas vítimas dessas tentativas de resgate dos animais em situações de risco, ouvidas pela TVI, são violentos. De acordo com a mesma fonte, alguns dos membros do IRA estão alegadamente envolvidos com a Juve Leo, organizações de segurança privada e grupos de extrema-direita.

Em resposta na página do Facebook, o grupo rejeita as acusações: "A TVI e a sua equipa de 'corte e costura' foi ao nosso canal do Youtube, agarrou num vídeo satírico que fizemos de forma a responder ao espaço perguntas e respostas dos nossos seguidores, editou as imagens a seu bem entender e tentou transmitir uma imagem de Fanfarrões, criminosos, de ideologias políticas de extrema-direita".

"Inclusive, refere-se ao 'cabecilha' como sendo sportinguista. Membro da Juve Leo e pertencente ao grupo 1143. Nem de propósito, está a decorrer uma investigação sobre a referida claque futebolística por crimes de terrorismo e violência. Em momento algum da reportagem explicam ou provam porque somos retratados por terroristas".

Já Paula Neto, uma activista pelos direitos dos animais e coordenadora do Grupo de Intervenção e Resgate Animal (GIRA, outro colectivo de defesa dos direitos dos animais que não tem qualquer relação com o IRA), diz à TVI que há no IRA “um incentivo a que sejam cometidos actos de violência e onde se alimenta a ideia de justiça pela própria mão, cometendo com isso todas as injustiças e crimes possíveis e imaginários”.

Deste grupo, alega a estação de televisão, fará parte Cristina Rodrigues, chefe de gabinete e assessora jurídica de André Silva, o único deputado eleito pelo PAN. A integração de Cristina Rodrigues neste grupo também já estará a ser investigada pela PJ. Também segundo a reportagem da TVI, o IRA terá sido recebido pelo PAN na Assembleia da República — algo que o próprio partido confirmou mais tarde.

PAN nega ligação ao IRA, IRA defende o PAN

Entretanto, o PAN reagiu à reportagem da TVI num comunicado publicado no seu site, onde esclarece que "não tem qualquer ligação ou relação com esta entidade que seja diferente de todas as outras".

Quanto à participação de Cristina Rodrigues neste grupo, o PAN admite que a sua chefe de gabinete "prestou esclarecimentos jurídicos a esta associação em nome individual, desconhecendo qualquer prática à margem da lei, tal como aliás o fez com tantas outras pessoas, associações e grupos informais". O partido acrescenta que, "tendo em conta algumas imagens transmitidas e até ao esclarecimento dos alegados factos, Cristina Rodrigues cessa todo o apoio a qualquer associação", mas que o PAN "mantém a confiança política" na assessora.

O PAN admite ainda que "recebeu esta associação [o IRA] na Assembleia da República, há cerca de um ano, como recebe muitas outras associações, pessoas em nome individual ou grupos informais". Durante a reunião, o grupo terá exposto as suas preocupações sobre a lei que criminaliza os maus-tratos a animais e sobre políticas públicas de controlo de população de animais de companhia. 

Neste comunicado, o PAN também não poupa críticas ao trabalho da TVI: "a falta de idoneidade da entrevista, com uma tentativa evidente de forçar, de forma sensacionalista e tendenciosa, uma ligação do PAN a estas práticas, é indicadora de uma escolha com contornos políticos sombrios e que não dignifica a confiança nesta instituição".

Por seu turno, e em resposta às alegações da TVI, o IRA, além de contrariar alguns dos aspectos da reportagem, escreve na sua página do Facebook que o conteúdo é um “claro ataque ao PAN [Pessoas-Animais-Natureza]”. A sua imagem, dizem ainda, é denegrida face aos “recentes feitos contra a tauromaquia”. Ainda assim, não refutam os testemunhos que relatam episódios de recurso à violência.

O PÚBLICO tentou contactar o IRA, mas não obteve resposta.

PCP e Os Verdes exigem explicações

Com o cuidado de não fazer estalar o verniz parlamentar, o PCP e o Partido Ecologista Os Verdes defenderam nesta sexta-feira que é preciso que o PAN esclareça qual o seu nível de envolvimento no caso.

Questionada pelos jornalistas sobre o assunto, Heloísa Apolónia salientou que a investigação da PJ ainda está em curso e desejou que “todos os crimes e responsabilidades possam ser apurados”. “Na perspectiva d'Os Verdes, a defesa dos direitos dos animais é totalmente incompatível com qualquer prática de violência ou terror”, disse a deputada, referindo que a defesa dos animais deve ser feita no “respeito harmonioso de animais e plantas”.

Mas Heloísa Apolónia não se coibiu de considerar que se trata de “gravíssimas acusações de ligação do PAN” ao caso. Por isso, “a bola está agora do lado do PAN, que deve uma explicação cabal sobre isso ao país”. “Há um esclarecimento público que deve ser prestado e não devem esquivar-se a isso”, insistiu.

Por seu lado, o PCP, com quem o PEV concorre às legislativas na coligação CDU, afirmou em comunicado que as notícias que “envolvem dirigentes do PAN em actividades criminosas realizadas a pretexto da defesa dos animais assume particular gravidade” e exigem “o cabal esclarecimento desta situação e o correspondente apuramento de responsabilidades”.

“Sem precipitar juízos sobre esta situação concreta, o que deve ser assinalado é uma prática subjacente ao projecto político do PAN que, sob o manto de preocupações sobre a natureza e os animais, e assente num discurso de intolerância, promove uma orientação de incriminação, de estímulo à delação e de criminalização de hábitos socioculturais, em si mesmo caldo de cultura para justificação de práticas criminosas”, acrescentam os comunistas.