Adriano Miranda
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Adriano Miranda

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Ciência, ensino superior e interior

Seria do maior interesse replicar os exemplos de outros pontos da Europa, criando residências científicas e pólos de investigação onde o investigador possa permanecer.

Os meios em que nos inserimos são determinantes para a nossa percepção da realidade. Como morador no Alentejo e aluno de doutoramento na Universidade de Évora, a minha visão é influenciada por esses dois elementos. Acredito que o ensino superior, universidades e politécnicos, têm um papel fundamental na valorização do interior. Tanto pelo seu potencial na atracção, fixação e formação da população, como pelo seu papel na dinamização de actividades científicas, culturais e económicas, na extensão e envolvimento da comunidade. Neste sector como noutros, porque na verdade tudo está interligado, seria desejável a aplicação de medidas de discriminação positiva por parte do Governo. Mas a tutela não é tudo, as próprias instituições devem fazer por se diferenciarem.

No Verão foi muito badalada a medida do ministério de cortar vagas em Lisboa e Porto em favor das universidades e politécnicos do interior. Uma medida de curto alcance, que teve afinal algumas repercussões concretas, mas que não combate os problemas estruturais. Para começar, os estudantes vão para o interior, mas dormem onde? A falta de residências para estudantes não é apenas um problema de Lisboa ou do Porto. É crucial investir no alojamento, estudantil e científico. Seria do maior interesse replicar os exemplos de outros pontos da Europa, criando residências científicas e pólos de investigação onde o investigador possa permanecer. Quando se discute a massa estudantil, discutem-se geralmente as licenciaturas. Mas o percurso académico não se fica por aqui. Há que pensar também nas pós-graduações, mestrados e doutoramentos. Se a deslocação de licenciandos pode ser problemáticas, a aposta em mestrandos, doutorandos e outros investigadores poderá ser um precioso factor de dinamismo.

A deslocação para o interior força a tutela a repensar o financiamento do ensino superior, sejam as bolsas de apoio social, sejam os incentivos à investigação e emprego científico. Outra medida badalada recentemente foi a diminuição do valor máximo das propinas, estando entre as principais críticas a aplicação da medida para todos. Novamente aqui pode ser discutido o interesse de medidas de discriminação positiva – tanto sociais, claro, como também geográficas. Reduzir mais as propinas no interior não teria efeitos positivos? Reforçar os apoios sociais não seria uma ajuda fundamental? Mesmo no que diz respeito ao estímulo ao emprego científico, apostar na abertura de vagas nas universidades e politécnicos do interior não contribuiria para a renovação de gerações em espaços especialmente afectados pelo envelhecimento? Não atrairia massa crítica para regiões carentes de dinamismo?

Mas as instituições de ensino superior também devem ser pró-activas. As ofertas formativas, os currículos, em especial a nível das pós-graduações, devem ser concebidos tendo em conta a realidade onde a instituição se insere. Devem seguir uma linha de diferenciação, de criação de uma rede de ensino superior heterogénea. A colaboração com as entidades locais e regionais, autarquias, associações, empresas, entre outros, é também fundamental. Os próprios centros de investigações, ao planearem os seus projectos e eventos, devem ter em conta esta dimensão.

Estes são apenas alguns apontamentos. Principalmente, procuro contribuir para um debate mais alargado, contrariar as lógicas actuais que perpetuam assimetrias exige coragem. Precisamos de ter essa coragem.