Opinião

A ambivalência emocional do idoso vítima de violência

A investigação que se debruça sobre o fenómeno da violência em relações interpessoais, tem vindo a reconhecer a importância das emoções e do modo como as vítimas integram a experiência no seu contexto de vida.

Em Portugal, de acordo com algumas estimativas, o problema da violência contra as pessoas idosas é pelo menos tão significativo como em outros países ocidentais – cerca de uma em cada dez pessoas idosas já terão experienciado alguma forma de violência por parte de alguém conhecido.

À “descoberta” do problema nas décadas de 70 e 80 do século passado, seguiram-se vários estudos que procuraram saber quantas pessoas estariam a ser (ou em risco de virem a ser) vítimas de violência num dado momento, quais as suas características, e quais os aspetos que poderiam de alguma forma potenciar a vulnerabilidade.

Contudo, considerando que a violência resulta da complexa interação de fatores individuais, relacionais, sociais, culturais e ambientais, é necessário considerar também a perspetiva das próprias pessoas idosas.

Violência nas relações interpessoais

Apesar do número mais diminuto de estudos em contexto institucional, existe alguma evidência de que a violência contra as pessoas idosas ocorre maioritariamente na comunidade e nas relações entre membros da família nuclear (cônjuges/pais-filhos). São relações familiares que se constroem ao longo do ciclo de vida dos seus diferentes elementos, nas quais partilham memórias, experiências e sentimentos que incluem, mas não estão limitados, às situações de violência.

A pessoa idosa, por sua vez, constrói e integra a violência de que foi alvo numa relação já existente, sendo lícito que diferentes emoções e sentimentos possam ser evocados. Do ponto de vista da pessoa idosa (mas não só) a representação do problema poderá não ser passível da visão dicotómica: certo e errado. E, mesmo que para os outros (exterior) possa parecer evidente, a perspetiva da vítima não deve ser suprimida à forma de criarmos categorias universais de gestão do problema (bons/maus). A valorização da perspetiva da pessoa idosa, das suas emoções e sentimentos em nada retira responsabilidade do agressor e é um aspeto essencial na compreensão, e consequentemente na intervenção, da violência contra as pessoas idosas.

Importância das emoções

A investigação que se debruça sobre o fenómeno da violência em relações interpessoais, tem vindo a reconhecer a importância das emoções e do modo como as vítimas integram a experiência no seu contexto de vida. As emoções parecem estar relacionadas com o modo como as pessoas que são vítimas de violência lidam e as estratégias que utilizam para gerirem as relações violentas. Conquanto não exista uma apresentação padrão de reações emocionais a situações violentas, as emoções estão associadas ao processo de tomada de decisão — ao facto de algumas pessoas permanecerem nas situações violentas e de outras pedirem ajuda ou apoio. 

Alguns estudos observam que as pessoas idosas que são vítimas de violência reportam muitas vezes medo, vergonha, raiva ou desilusão. Apesar de muitas destas emoções também serem reportadas noutras situações de violência de âmbito familiar, no caso das pessoas idosas, as emoções parecem estar também relacionadas com o tipo de relação que mantêm com o agressor.

Com efeito, no caso das relações entre pais e filhos, o vínculo afetivo pode ser particularmente importante, incluindo muitas vezes sentimentos ambivalentes de compromisso, amor e raiva, juntamente com o afeto e mágoa. Alguns estudos têm mostrado que pais idosos não relatam muitas vezes a situação de violência por quererem proteger o filho agressor, por não reconhecerem a situação como violência ou até por temerem perder a relação existente já que as dinâmicas relacionais podem compreender, por exemplo, um filho agressor que é também cuidador.

Se as emoções e sentimentos da pessoa idosa são parte essencial no processo de tomada de decisão, a sua perspetiva e as eventuais ambivalências emocionais são informativas e devem ser valorizadas no desenvolvimento de respostas ao problema.