Mais de 700 pessoas pedem à Quercus que não venda terrenos no Tejo Internacional

Associação ambientalista recebeu uma proposta para venda de parcelas junto a uma reserva de caça que ainda está a avaliar, garante o presidente da organização, João Branco.

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Ricardo Lopes

A revelação, por via de uma petição pública, de que a Quercus está a ponderar se vende um conjunto de terrenos em Idanha-a-Nova, em pleno Parque Natural do Tejo Internacional (PNTI), a uma reserva de caça da vizinhança levou, em dois dias, a que mais de 700 pessoas subscrevessem um apelo para que o negócio não se concretize. A associação, que está a fazer investimento avultados noutra área do parque, em Castelo Branco, não revela o montante oferecido por várias parcelas, que somam cerca de uma centena de hectares, no Rosmaninhal, mas os signatários consideram que a alienação de propriedades compradas com recurso a donativos de particulares, de organismos internacionais e até a fundos comunitários é uma “abominável traição” a quem contribuiu para o esforço de conservação da natureza.

O presidente da Quercus, João Branco, que está fora do país por estes dias, reagiu a esta petição afirmando que o objectivo da mesma é prejudicar “a imagem da Quercus”, mas os peticionários, em inúmeros comentários apensos à assinatura, consideram que essa imagem está a ser posta em causa pela própria associação, ao ponderar entregar a uma zona de caça terrenos cuja compra, entre muitas outras comparticipações, teve um apoio da Comunidade Europeia, dados os valores naturais presentes naquela zona transfronteiriça.

João Branco escusou-se a indicar quem se interessou pelos terrenos em causa, mas pelo que o PÚBLICO conseguiu apurar, trata-se da Herdade da Cubeira, que se situa a norte de parte destas parcelas, na freguesia do Rosmaninhal. Algumas propriedades da Quercus estão, nalguns casos, encravadas no meio dessa reserva de caça, facto que segundo João Branco justifica que se avalie a sua alienação, mas os peticionários estão preocupados com as parcelas encostadas ao rio, em zona de arriba, onde nidificam, ou nidificaram, aves com estatuto de protecção relevante.

Aliás, numa das parcelas existe mesmo um observatório criado pela Quercus, explicou ao PÚBLICO um associado conhecedor do local, que considera mais relevante, para a protecção da natureza, do que o Monte Barata, no concelho vizinho de Castelo Branco, onde a associação está a fazer um grande investimento. João Branco admitiu que a receita que poderá advir de um eventual negócio com as terras no Rosmaninhal traria uma “liquidez” importante para o avanço de outros projectos, que não quis concretizar.  

Foi “fiel depositária” de uma vontade

Entre os peticionários, há quem defenda que, se precisa de vender algo, a Quercus deveria optar por outros imóveis, e nunca abdicar de terrenos comprados para fins de conservação da natureza, já que, argumenta um deles, foi “fiel depositária” de uma vontade de outras pessoas e instituições que, com este gesto, podem deixar de confiar nesta organização, alerta-se no texto publicado online.

Numa brochura antiga da associação, de 1993, lê-se que a Fase I do projecto Tejo Internacional, iniciada em 1988, e que chegou a receber dois prémios internacionais, implicou um esforço de 480 mil euros. Este esforço da Quercus foi muito importante para a criação, em 2000, do Parque Natural do Tejo Internacional, que desde 2016 está classificado como Reserva da Biosfera da Unesco, e em cuja gestão a associação participa, numa iniciativa de co-gestão entre o Estado e a sociedade civil inédita no nosso país. O actual presidente argumenta que a organização continua a comprar património, como aconteceu no ano passado, em que a aquisição de uma quinta de 80 hectares contígua ao Monte Barata permitiu aumentar para 600 hectares a área sob sua gestão directa, em Castelo Branco, outro dos quatro municípios portugueses com território no parque.

Os peticionários recordam a importância desta área protegida, que abrange ainda áreas em Vila Velha de Ródão e Nisa, para a conservação de espécies como a águia de Bonelli e o abutre do Egipto (ambas em perigo, em Portugal), da cegonha-preta (com estatuto vulnerável), do Grifo, do bufo-real e do corvo as três com estatuto (quase ameaçado). Mas, em resposta, João Branco diz, por um lado, que não há ninhos ocupados actualmente na zona, considerando que o potencial de nidificação, no futuro, não será afectado, caso os espaços acabem integrados numa reserva de caça, tendo que em conta que toda a área está integrada no PNTI. A Herdade da Cubeira foi notícia em 2010 quando se soube que ali nidificava o único casal de abutre-preto de todo o parque.

Eleições no próximo ano

A Quercus terá eleições em Março do próximo ano, e João Branco, que apesar de estar muito ligado aos projectos em curso diz não ter tomado uma decisão quanto a uma eventual recandidatura, associa esta petição, que chega a classificar como “maliciosa”, a esta proximidade do acto eleitoral. 

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Já sob liderança de Branco, a Quercus, enfrentou há três anos um momento delicado, com a criação, por parte de alguns elementos históricos da associação, de uma nova organização ambientalista, a Zero. Um deles, Francisco Ferreira, antigo presidente da Quercus de 1996 a 2001 e membro da direcção até 2011, abriu uma excepção ao silêncio que tem mantido em relação a esta entidade de que ainda é sócio, para deixar, online, um curto comentário: “Eventuais dificuldades financeiras não podem pôr em causa esta jóia da coroa da história da Quercus.”

O presidente da Zero recorda “o trabalho de mobilização enorme para se adquirir terrenos cruciais em termos de conservação da natureza”, esforço no qual participou financeiramente. Considerando que o seu dinheiro foi bem investido, Francisco Ferreira afirma que aquelas propriedades “têm de continuar nas mãos de uma organização não-governamental, independentemente da vitória que foi a criação do Parque Natural do Tejo Internacional e o estatuto de alguma protecção que foi assegurado.

Em defesa da Quercus, o arquitecto paisagista Henrique Pereira dos Santos, antigo sócio desta organização, escrevia esta terça-feira, no blogue Corta-Fitas: “Pessoalmente eu serei sempre contra vendas deste tipo, como princípio, mas admito sempre que as decisões finais dependam das circunstâncias e dos fundamentos para esta opção de gestão (em que se inclui a situação financeira da Quercus, que não conheço em profundidade, mas também um melhor desenho das propriedades afectas à conservação que permita uma melhor gestão). Mas custa-me muito que a discussão das opções possíveis saia imediatamente desse plano de racionalidade para o campo da pura histeria emocional.”