Crítica

A tirania das coisas

O III Reich ilustrado através dos seus objectos, num livro informativo e muito apelativo para o grande público.

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Conjunto de aguarelas que pertenceu a Adolf Hitler dr

A narrativa da História através de objectos especialmente representativos — ditos “icónicos” — conheceu um assinalável surto nas últimas décadas. Em 2010, a série da BBC e o livro A História do Mundo em 100 Objetos, da autoria de Neil MacGregor, então director do Museu Britânico, tornaram-se os mais famosos expoentes desta abordagem extremamente popular e apelativa, ainda que por vezes menosprezada pelos investigadores académicos, que a encaram como uma aproximação demasiado fácil e vulgar ao passado, ademais marcada por propósitos vincadamente comerciais. O certo é que têm florescido obras desta natureza sobre os mais variados temas: a 1ª e a 2ª guerras mundiais, a história da navegação ou do crime, a batalha de Waterloo, o País de Gales ou a Irlanda, a dinastia Tudor, Shakespeare, etc. (e só para citar exemplos anglo-saxónicos). Esta tendência é alimentada por uma perspectiva historiográfica cada vez mais atenta à cultura material mas, acima de tudo, pela importância crescente da visualidade como elemento transmissor do conhecimento (patente, desde logo, na actual voga das infografias) e também, num certo sentido, pela “vertigem das listas” que Umberto Eco detectou como uma das mais elementares formas de organização da informação humana.

Não admira, pois, o surgimento de um livro intitulado O Terceiro Reich em 100 Objetos, decerto um projecto de grande êxito tendo em conta o interesse, e até o fascínio, que o nazismo continua a despertar em muitos de nós, como se vê pela imensidão de obras históricas, literárias ou cinematográficas que sobre ele continuam a debruçar-se. O regime de Hitler, para mais, foi um febril segregador de artefactos e signos, seja com intuitos propagandísticos e de “nacionalização das massas”, seja pela sua imensa capacidade de produção de objectos a uma escala industrial. A memorabilia nazi sempre foi, de resto, um campo avidamente disputado por nostálgicos do III Reich, por coleccionadores obsessivos ou simples curiosos; diz-se até que, na juventude, Jean-Marie Le Pen terá sido um empenhado comerciante desses cruéis despojos… Ainda que possa alimentar frémitos saudosistas, não é esse, decididamente, o objectivo do presente livro de Roger Moorhouse, um investigador de créditos firmados, autor de diversas e muito populares obras sobre a 2ª Guerra e também um vulgarizador da História que, ao serviço da empresa Historical Trips Ltd., conduz excursões pela Polónia e pela Alemanha. Contando com um prefácio de outro reputado especialista, Richard J. Overy, o livro ressente-se, todavia, da ausência de uma introdução ou de um texto de enquadramento geral, sendo o leitor imediatamente conduzido para o interior de uma gigantesca caverna onde se acumula uma centena dos mais díspares objectos que, para mais, não são elencados num índice final que seria muito útil como orientador e guia de leitura. Para cada um dos objectos escolhidos há uma nota mais ou menos desenvolvida e, no final, ficamos indiscutivelmente com uma panorâmica rica e bastante completa do que foi o período nazi. Algumas escolhas surpreendem pela sua originalidade, a que não terão sido alheias a sedução de uma certa “micro-História”, a busca de originalidade iconográfica e a opção por um registo apelativo e vocacionado para o grande público. Deparamos, assim, com a escova para bigode de Hitler ou com as ceroulas de Rudolf Hess, mas desengane-se quem pense que esta obra é um inventário humorístico dos aspectos caricatos ou anedóticos do Reich, já que, numa progressão temporal que vai das incursões hitlerianas na pintura e termina na cápsula de cianeto com que Göring se suicidou, todo o nazismo é aqui exemplarmente mostrado e exibido. Há objectos óbvios mas incontornáveis, como a primeira edição de Mein Kampf ou a Judenstern que os judeus eram obrigados a transportar consigo, cosida na roupa. Noutros casos nota-se a dificuldade do autor em seleccionar objectos que ilustrem ideias ou conceitos abstractos, como a saudação hitleriana, mas mesmo aí o resultado final é imaginativo e plenamente conseguido. Ao Holocausto é dedicado o devido relevo, devendo lembrar-se que é também em torno de objectos que a memória da Shoah se tem largamente apoiado, bastando para o efeito visitar a Fábrica de Shindler em Cracóvia, percorrer o volumoso catálogo do Memorial de Auschwitz (Auschwitz Legacies, de Magdalena Emilewicz-Pióro e Piotr M.A. Cywinski) ou ter presente a exposição itinerante de Auschwitz-Birkenau que ainda há pouco encerrou portas em Madrid. O quotidiano dos alemães sob o nazismo não é talvez retratado como merecia, ao contrário do que acontece no espantoso álbum fotográfico Hitler dans mon salon, livro de 2009 que mostra o retrato do Führer pendurado nos lares germânicos de todas as classes e origens sociais, e, bem assim, ao invés dos inúmeros levantamentos iconográficos do dia-a-dia e dos hábitos de consumo da República Democrática Alemã, por exemplo. Em certos casos, as opções de Moorhouse são porventura discutíveis: a exibição de carros de guerra ou das bombas voadoras V-1 compreende-se até certo ponto, mas não é inteiramente líquido se devemos considerar um “objecto” a mansão de Wansee onde foi arquitectada a Solução Final (o autor integra-a neste livro; mas, a ser assim, porque excluiu outros edifícios, tão ou mais simbólicos e representativos?). Numa apreciação final, dir-se-á que este livro tem qualidades suficientes para ser enaltecido e para merecer o justo reconhecimento dos leitores, mesmo que venha a ser descartado por alguns especialistas mais preconceituosos como uma cedência demasiado óbvia à popularização e à vulgarização de um passado trágico.