Opinião

Trump, Bolsonaro e quejandos

O não cumprimento da promessa da democracia de um cidadão educado e consciente é a maior ameaça à democracia. Uma ameaça que se concretiza todos os dias.

O Mundo segue preocupado com Trumps, Bolsonaros e quejandos, afastando-se da questão que na minha opinião constitui a maior falha da democracia e paralelamente dos partidos políticos e de nós próprios: um cidadão educado. Sim, Bobbio já o tinha dito e eu repito-o muitas vezes.

As democracias ocidentais têm-se preocupado em construir (desculpem o termo) cidadãos acéfalos, incapazes de juízos críticos, desconhecedores de contextos históricos e sociais capazes de engolir qualquer fake new ou pré ou pós-verdades. São, digamos, cidadãos convenientes, prontos a aderir a indignações de redes sociais e convictos de que apoiar uma determinada ideia significa excluir todas as outras e denegri-las.

Os partidos políticos estão preocupados em construir militantes uníssonos, arrepiam-se com qualquer opinião interna divergente e quanto menos os seus militantes pensarem melhor. A direita deliciada vende um produto mais fácil de vender, baseado em interesses individuais concretos e simples. A esquerda vê-se aflita para vender o seu produto, ideias e ideais, nem os memes funcionam à esquerda; ideias e princípios não se coadunam com a instantaneidade e superficialidade que marcam a cidadania de hoje e o cidadão dos nossos tempos.

Falando do Brasil, a ideia de que o PT é corrupto explica-se por si, como ideia negativa que é impõe-se rapidamente, basta transpor o comportamento (comprovado ou não) de alguns líderes que por lá passaram para contagiar o partido. Bolsonaro é fascista... ideia complexa de explicar principalmente quando os defeitos que lhe são apontados o identificam com a sua própria sociedade.

Dizer a uma sociedade em que os níveis de homofobia são elevados que um potencial Presidente é homofóbico parece-me conduzir a uma elevada identificação. Dizer a uma sociedade que enfrenta todos os dias violência que um candidato à presidência vai acabar com a violência com violência, é garantir que essa sociedade que se queixa diariamente de que os bandidos têm mais direitos do que o cidadão se vai reconhecer nesse candidato. É um dilema da esquerda, da democracia... explicar conceitos que já deveriam estar enraizados, que deveriam fazer parte duma cultura civilizacional e que supostamente demarcam o mundo ocidental.

Princípios imanentes ao Estado de Direito Democrático foram utilizados nas últimas décadas como expressões ocas disponíveis para manipulação mediática, fragilizando um conceito de democracia que é de per si frágil. A repetida degradação de instituições basilares da democracia ao sabor do momento político que, no fundo, recria o pensamento corriqueiro de que o sistema de justiça, por exemplo, é bom ou mau consoante a decisão judicial for ou não favorável ao interesse momentaneamente perseguido.

Acresce a assepsia que parece fazer parte dos nossos tempos que não ajuda nem convence o cidadão médio, que vê o igualitarismo a sobrepor-se à igualdade e interpreta legitimamente como mediocridade promovida à normalidade, facilitismo como programa de coesão social.

Os sistemas políticos, por seu turno, apadrinham carreiras de obediência. A manutenção de um cargo como o de deputado, de uma eleição para outra, pouco tem a ver com o mérito ou a relação com o eleitorado, mas com a carreira intrapartidária, o lugar de cada um na estrutura partidária e a fidelidade às direções partidárias. Degradam o debate dentro dos partidos e contagiam o debate com a sociedade, muitas vezes partindo de pressupostos falseados para debater questões estruturantes.

Nada disto favorece um cidadão educado. O contributo dos sistemas de ensino, cada vez mais utilitários, para um cidadão educado é praticamente nulo.

O cidadão distancia-se. Quando se manifesta fá-lo sem expetativa de ser verdadeiramente ouvido, sabe que a sua manifestação será usada como arma de arremesso político e nada mais. Quando tem oportunidade vota em partidos que lhe propõem ideias simples ligadas à condição humana, à nossa primitividade e que, quer queiramos, quer não, continuam a dar segurança a muitos de nós. Ou abstêm-se. E os níveis de abstenção que deviam preocupar os partidos políticos resultam em considerações risíveis tipo proibir o futebol em dias de eleição, uma forma explícita de menorizar ainda mais o cidadão. Ou voto obrigatório. A vitória de Bolsonaro até tem lugar num contexto de voto obrigatório. O cidadão vota e portanto vota bem. É a democracia. Mas uma democracia com uma falha originária.

Tudo isto nos reconduz ao cidadão. Cada vez sabemos menos, diz Bobbio, e é inelutavelmente uma verdade, que tem consequências dramáticas porque a política é uma construção social e histórica, que resulta da socialização e do aprendizado para a vida em sociedade. Arendt defendia que os seres humanos aprendem a tornar-se políticos, mas não nascem com essa competência. O não cumprimento da promessa da democracia de um cidadão educado e consciente é a maior ameaça à democracia. Uma ameaça que se concretiza todos os dias.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico