Reportagem

Nas carreiras de bairro da Carris, trocam-se cromos e queixas ao serviço

As carreiras de bairro da Carris foram lançadas em 2017 com a promessa de reforçar a mobilidade nas várias freguesias da cidade. Passado um ano, estas carreiras aproximaram bairros, mas também transportam problemas.

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Miguel Feraso Cabral

“Olá, está boa? Tudo bem?”. O cumprimento é dirigido a mais uma habituée do 26B. Ana Paula, de 44 anos, retribui a saudação ao entrar e entrega à motorista um saquinho vermelho com algo lá dentro. “Olhe, olhe, hoje não lhe trouxe os seus”, responde-lhe Maria. Ambas têm filhos e foi numa das viagens a bordo do 26B que começaram a trocar cromos para as colecções dos pequenos. “Um dia percebemos que os nossos filhos faziam colecção dos mesmos cromos e começámos a trazer as sobras”, conta Ana Paula. Desta vez, a transacção terá de ficar para outro dia. Pelo menos é o que Maria assegura ao espreitar para dentro do saco antes de Ana Paula sair: “Até segunda. Depois trago-lhe os repetidos do meu”.

O 26B abre portas na paragem do Oriente praticamente vazio. Ao volante, está Maria Santos, de 39 anos, motorista da Carris há 11. Não inicia a marcha sem antes dirigir um “bom dia” a uma senhora sua conhecida que está com dificuldade em validar o passe no aparelho da entrada. Ainda não passou um ano desde que faz esta carreira, mas já conhece praticamente toda a gente que vai entrando nas paragens do circuito de bairro que faz a ligação entre a parte norte e sul do Parque das Nações.

Mas nem tudo é acalmia nas carreiras de bairro da Carris. Junto à recém-intervencionada Alameda das Linhas de Torres, no Lumiar, a paragem do 717 com direcção a Fetais, que também dá guarida ao 703 que termina na Charneca, é ponto de passagem da 40B, a carreira que liga o Lumiar até ao Alto do Chapeleiro. Maria do Carmo, de 76 anos, conhece bem a área e, apesar de não usar o 40B, afirma que a Alta de Lisboa não está bem servida de transportes. Onde vive, nuns prédios beges que se avistam da paragem, lá no cimo, é difícil chegar, desabafa. “Fartámo-nos de pedir autocarros. Prometeram, mas nada”.

Quem anda “são sempre os mesmos”

Miguel Gaspar, vereador da Câmara Municipal de Lisboa com os pelouros da mobilidade e segurança, sabe que o bom funcionamento das carreiras é variável: “Temos de olhar para as carreiras de bairro como algo flexível. Sabemos que há umas que correm melhor do que outras”, admitiu o responsável em declarações ao PÚBLICO. E, no que diz respeito às questões de mobilidade que alguns utilizadores apontam, o vereador afirma que esse é um trabalho que depende “muito dos presidentes de junta” e que, por vezes, “as pessoas não têm a vida delas organizada naquela freguesia”.

Findo o Verão, com as aulas já a decorrerem e a vida na cidade a voltar ao normal, há mais gente a utilizar a carreira de bairro, muitas vezes como alternativa ao 728, que vem atulhado de gente desde o Cais do Sodré. Teresa Marcelino entra no autocarro da carreira de bairro para poupar tempo. A alternativa era apanhar o 728, mas este é um “desatino de autocarro”, diz. Porque deixou de ser um transporte dos lisboetas para passar a ter uma utilidade quase exclusivamente turística. 

Muitas vezes, o autocarro passava e ninguém entrava porque não sabiam qual era o percurso, diz a motorista. Actualmente, à hora de almoço, há muita gente a usar o transporte, sobretudo porque o trajecto passa ao lado de várias escolas. E à sexta-feira, então, chega a ir cheio.

Entrar no autocarro é quase como estar num café de bairro onde os fregueses se reúnem e põem a conversa em dia. “Agora esta carreira é mais de cariz social”, diz Maria enquanto circunda a rotunda junto à CUF Descobertas. “O ano passado havia uma turma de miúdos que vinha sempre comigo. Já os conhecia. Este ano ainda não os vi, se calhar mudaram de horário”, confessa, num tom saudosista. A verdade é que este autocarro “não é dos piores”. Não há muitos que se atrevam a andar sem bilhete. Aliás, quem anda no 26B do Parque das Nações fá-lo quase sempre com o passe, salvo alguns passageiros que compram títulos ocasionais.  

Anteriormente, este percurso era assegurado pelo 400. Em vez de fazer uma rota circular entre as partes norte e sul, fazia tudo de seguida e transportava muitos turistas que se deslocavam à zona para contemplar o rio ou para pernoitar nos hotéis. Ao passar junto do Pavilhão do Conhecimento, um grupo de jovens, por coincidência, rima em improviso que “o 28 demora bué” e que “sai tudo no Oriente”. Concluem a cantoria dizendo que “andar de Audi é que é” e a verdade é que não estão longe de ter razão.

Maria Teresa Duarte, de 85 anos, fez do bairro dos Olivais a sua casa quando para lá foi viver com o marido, um professor de trabalhos manuais nos Pupilos do Exército. O 29B, que faz o percurso circular entre o Centro Comercial dos Olivais e a Encarnação, recolhe-a à porta do prédio onde criou dois filhos e netos e conhece toda a gente que lá vive. A antiga carreira conhecida como 779 não lhe é nada estranha. Afinal de contas, usa-a todos os dias para ir ao mercado ou apenas para ir à rua ver gente conhecida. “Venho para aqui só para passear. Assim sempre me distraio”, diz sentada num dos bancos. O marido, quando ainda era vivo, tinha medo que Maria Teresa saísse à rua sozinha e, por isso, ainda hoje estranha a falta da sua companhia. “Sabe, ele tinha medo que me levassem, é que eu era muito bonita”, afirma.

Uma das carreiras de bairro da Carris que passa na zona oriental da cidade serve como ponto de encontro para os utilizadores do serviço criado no ano passado. Para a motorista, Daniela Barboza, “as caras são sempre as mesmas”. Há dez anos que faz da sua vida a missão de transportar os habitantes de Lisboa. Os sete meses que já leva no 29B bastaram-lhe para perceber que quem lá anda “são sempre os mesmos”.
Da sua experiência, esta carreira de bairro é útil aos moradores da zona. É graças a ela que alguns habitantes mais idosos podem ter alguma autonomia sem comprometerem a sua segurança, e irem ao supermercado no centro comercial fazer as suas compras diárias ou deslocarem-se a alguns dos equipamentos que estão próximos das paragens.

Hermínia, 67 anos, vai nadar à piscina dos Olivais

Hermínia Conceição já sabe o trajecto do 29B de cor. Também o apanha religiosamente para cumprir um ritual que seguramente lhe trará anos de vida. Todos os dias dá braçadas na piscina do Complexo Desportivo Municipal dos Olivais, e a verdade é que os seus 67 anos não se adivinham, tal é a jovialidade que exorta. Se não existisse o 29B “tinha de apanhar o 731 lá em cima” e daria uma grande volta, assegura. Hermínia considera que a carreira “é muito útil”, pois “atravessa todo o bairro e há muita gente de idade que precisa”.

As caras com que se cruza também não lhe são estranhas, ao contrário de Mário Silva, de 65 anos, que garante não reconhecer as caras de ninguém. “Não é o meu desporto preferido ir a olhar para a cara das pessoas”, diz, enquanto ajeita a gravata do seu fato imaculado. O antigo administrativo vive na Quinta do Morgado e, apesar de ser cliente assíduo do 29B, faz o percurso de pé a cogitar para os seus botões. Quando o autocarro “vem à tabela” usa-o e já está.

O terminal junto ao Centro Comercial dos Olivais é onde se regista o maior movimento de gente. Quando as portas abrem para dar a vez a outros, os sacos do supermercado roçam-se em todos os recantos do autocarro enquanto a nova vaga de fregueses se regala nos assentos. É durante a manhã que se regista a maior azáfama, apesar de à tarde também haver “bastante movimento”, diz a motorista. Maria Isabel, de 73 anos, entre sacos e um sotaque nortenho estridente, diz que não gosta “de andar de metro”, prefere antes “andar cá por cima enquanto as ferragens de dentro e de fora” lhe permitirem.

“Andam todos sem pagar e por isso não funciona”

Maria Santos, 81 anos, acredita que “havia de se pôr um carro grande até às Galinheiras”. É que, segundo ela, os autocarros demoram muito e os motoristas tardam em chegar à zona, pois já sabem que poderão encontrar problemas que são comuns às deslocações na área. “Andam todos sem pagar, e por isso é que isto não funciona. Lá em cima ninguém paga”.

L. Ferreira, controlador de tráfego e trabalhador da empresa há 21 anos, confirma esta situação. “Não é um caso exclusivo da zona, nem de nenhuma carreira em particular, mas aqui acontece”. O trabalhador constata que, mesmo na carreira de bairro, há quem entre sem pagar e que, por vezes, há situações mais tensas no interior dos veículos. “São carreiras que normalmente tem alguns problemas. Já está enraizado nas pessoas”. A questão, refere, é também transversal às carreiras de bairro que circulam na zona de Marvila e Chelas.  

Apesar dos problemas apontados, Miguel Gaspar mostra-se satisfeito com o serviço, ainda que admita mudanças: “Há umas em que estamos confortáveis com os resultados; outras levam-me a pensar que se calhar temos de rever a carreira ou o modelo. Pode ser mais importante reforçar uma carreira que atravesse freguesias do que ter aquela linha de bairro”, defende o vereador.

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