Uselei Marcelino/Reuters
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Uselei Marcelino/Reuters

Megafone

Carta ao meu irmão brasileiro

Hoje escrevo-te de cabeça erguida e pronto para a luta. A luta que nunca acabou, eu sei, e portanto aqui estamos para não nos calarmos diante de todas as injustiças, para sair à rua quando não puderes sair à rua, para gritar quando não puderes gritar.

Irmão, hoje quando acordares, e contigo o Brasil, não mais poderás sair de casa. A polícia, sob uma nova égide, procura por ti, por nós, os que discordam e discutem, os que amam a noite e a rua, a liberdade, o amor, os povos, as cores, as crenças e os sexos, a diferença e a diversidade.

Porque sim, porque agora és, somos, uma ameaça ao poder instituído, às ordens e às normas, aos bons costumes. Ou assim nos dizem na televisão e as milícias de megafone lá fora, à procura de vingar a vida de fome e injustiça no sangue de quem se lhes atravesse no caminho. Agora podem. A violência no poder legítima a violência nas ruas.

Culpa tua, culpa nossa, de pensar pela nossa cabeça sem precisarmos de líderes ou ditadores quando sabemos tão bem quanto custou a liberdade.

Não foi assim há tanto tempo e 1985 ainda está na memória, nas mãos, o fim das prisões, torturas, interrogatórios, as perseguições, a fome, ainda a fome, a miséria, ainda a miséria, outra vez a miséria, sempre a miséria.

Irmão brasileiro, hoje escrevo-te de cabeça erguida e pronto para a luta. A luta que nunca acabou, eu sei, e portanto aqui estamos para não nos calarmos diante de todas as injustiças que daqui advirão, para sair à rua quando não puderes sair à rua, para gritar quando não puderes gritar, para fazer greve quando não puderes fazer greve, para protestar, furar barreiras e derrubar polícias em prol de brancos e negros, hetero e homo, homens e mulheres, amarelos e vermelhos, bi e trans, sem-terra e sem-abrigo, artistas e intelectuais, professores e pensadores, músicos, escritores e poetas.

E ser preso as vezes que forem precisas para que possas finalmente sair à rua sem medo de represálias, ameaças, denúncias, sem medo de ser preso apenas porque sim, porque ousaste erguer o punho em desafio e cantar como se não fosse esse o teu direito, e já não é.

Irmão, hoje quando acordares, e contigo o Brasil, olha pela janela: a diferença não acabou, a diferença acabou de começar. Orgulho no coração e peito para fora. As balas não são de verdade quando o meu Brasil chora, quando o meu Brasil acredita, quando o meu Brasil dança. Canta, Brasil, canta, nós cantamos contigo!