Ex-chefe de gabinete de Azeredo Lopes explica memorando desaparecido

Tenente-general Martins Pereira, antigo chefe de gabinete do ex-ministro Azeredo Lopes, é interrogado nesta quarta-feira pelos procuradores da Operação Húbris.

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O coronel Vieira, que se encontra em prisão preventiva, remeteu-se nesta terça-feira ao silêncio no segundo interrogatório que decorreu no DCIAP Nno ferreira Santos

Quando circulam versões distintas e contraditórias sobre quem teve conhecimento do plano que permitiu recuperar o material de guerra de Tancos, quem o autorizou e quem nele participou, a audição do antigo chefe de gabinete do ex-ministro da Defesa, José Azeredo Lopes, no Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), em Lisboa, é aguardada com expectativa.

O tenente-general Martins Pereira foi chamado para depor nesta quarta-feira, pela primeira vez depois da entrega, por sua iniciativa, no DCIAP, de um documento que, segundo confirmou à RTP, foi entregue pelo ex-porta-voz da Polícia Judiciária Militar (PJM), o major Vasco Brazão, um dos nove arguidos na Operação Húbris.

Na primeira declaração pública que fez (um comunicado enviado à agência Lusa), o ex-chefe de gabinete confirmou apenas ter recebido Vasco Brazão e o então director da PJM, Luís Vieira, no ministério. Na segunda vez que falou sobre o assunto (na semana passada, à RTP), disse ter recebido nessa altura um memorando. Certo é que esse documento não deixou rasto no arquivo do Ministério da Defesa. Tal como o PÚBLICO noticiou, o ministério garante que não se encontra registado nenhum memorando entregue por aqueles responsáveis da PJM.

Entre os arguidos da Operação Húbris, está o presumível assaltante do material militar de Tancos (em Junho do ano passado) — um civil que se encontra em prisão preventiva; o ex-director-geral da PJM, coronel Luís Vieira; outros três militares da PJM; e um sargento e dois soldados da GNR do Núcleo de Investigação Criminal de Loulé.

Esse documento — ou memorando —, um resumo informal impresso em papel não timbrado e não assinado, terá sido redigido com o intuito de informar Azeredo Lopes de que as armas roubadas de Tancos tinham sido recuperadas apenas porque uma operação montada pela PJM tinha envolvido um informador suspeito de vários crimes e que este exigira que a PJ ficasse fora do esquema, supostamente para não ser detido por ocasião dessa entrega. O ex-ministro sempre negou ter tido conhecimento do plano negociado durante meses e realizado na noite de 17 para 18 de Outubro de 2017 — através de um qualquer documento, ou por conversa telefónica com o coronel Vieira, numa reunião entre Vasco Brazão, Luís Vieira, Martins Pereira, no Ministério da Defesa, num dia em que Azeredo Lopes estaria numa viagem de trabalho no estrangeiro.

O tenente-general deverá ser chamado a esclarecer qual das versões é verdadeira: a do major Brazão sobre a reunião, telefonema para o ministro e entrega do documento, ou a do seu ex-director-geral, que não confirma que o ex-ministro tenha sido informado.

O coronel Vieira, que se encontra em prisão preventiva na prisão de Tomar, remeteu-se ao silêncionesta terça-feira no segundo interrogatório que decorreu no DCIAP a pedido do Ministério Público. “O meu constituinte usou do direito legal de não prestar declarações, manteve as declarações do primeiro inquérito de arguido detido. Considera que o silêncio é a melhor resposta e estamos cientes que o tempo se vai encarregar de trazer toda a verdade”, disse o seu advogado, coronel Rui Baleizão.

Oposição quer ouvir Cravinho

O PSD formalizou entretanto o pedido de audição do novo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, sobre as circunstâncias da demissão de Rovisco Duarte de chefe do Estado-Maior do Exército (EME) e sobre o caso de Tancos. Na passada quinta-feira, o líder da bancada parlamentar Fernando Negrão já tinha anunciado que o partido admitia pedir a audição parlamentar do novo ministro da Defesa, João Gomes Cravinho, se não houvesse uma “explicação rápida” sobre a “dissonância de explicações” dadas pelo ex-chefe do EME no seu pedido de resignação: por um lado, invocou motivos pessoais ao Presidente da República — que é também comandante supremo das Forças Armadas — e ao primeiro-ministro, e por outro, “circunstâncias políticas que assim o exigiram” ao Exército. com Lusa