Ensaio

O mapa de Fernão de Magalhães

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Em cima, as “Antilhas de Castela” (o Mar das Caraíbas), e o “Mar Visto pelos Castelhanos”, a sul do actual Istmo do Panamá, onde Vasco Núñez de Balboa viu pela primeira vez o Pacífico, em 1513 DR

Em 1517 Fernão de Magalhães chegou a Sevilha, com uma irrecusável proposta para o rei Carlos I de Espanha, futuro Imperador Carlos V do Sacro Império Romano-Germânico: demonstrar que as cobiçadas Ilhas de Maluco (as actuais Molucas), fonte do valioso cravo, se encontravam do lado espanhol do mundo, de acordo com os termos do Tratado de Tordesilhas, e que poderiam ser alcançadas navegando para ocidente.

Aquele tratado, firmado entre portugueses e espanhóis em 1494, estipulava que o mundo seria dividido entre duas áreas de influência: uma portuguesa, a oriente de uma linha norte-sul que passava 370 léguas a oeste de Cabo Verde, e uma espanhola, a ocidente dessa linha. Contudo, ninguém imaginou então que a linha divisória se prolongava para o outro lado da Terra e que a sua localização exacta na Insulíndia se tornaria fonte de conflito entre os dois países. Saber se ela passava a leste (favorável aos portugueses) ou a oeste das Molucas (favorável aos espanhóis), tornou-se um problema de Estado.

Tendo os navegadores portugueses chegado à região no início do século XVI e começado a tirar partido do comércio das especiarias, viram esta sua actividade contestada pelos espanhóis, que alegavam que as Ilhas de Maluco se situavam no seu hemisfério. Hoje sabemos, sem margem para dúvidas, que as Molucas se situavam no lado português. O que não acontecia na época, quando os métodos de navegação e posicionamento não eram suficientemente rigorosos para se estabelecer com exactidão a longitude do arquipélago.

Mostrar que Espanha tinha razão nessa disputa e encontrar uma rota alternativa para as ilhas das especiarias, a qual evitasse o hemisfério português, foi a proposta apresentada por Fernão de Magalhães a Carlos I. Assim, tendo conseguido o apoio político e financeiro de importantes individualidades próximas da coroa, um acordo com o rei foi estabelecido em 1518.

A 10 de Agosto de 1519 partiu de Sevilha uma armada formada por cinco navios e cerca de 240 homens de várias nacionalidades, que haveria de dar a volta ao mundo navegando para ocidente. Tendo conseguido dobrar a América do Sul perto do seu extremo meridional, atravessando o estreito que hoje tem o seu nome, Magalhães conduziu a armada através do imenso oceano Pacífico durante mais de três meses, até chegar ao arquipélago das Marianas. Tratou-se de um feito extraordinário do ponto de vista técnico e científico. Como bem viria a escrever Pedro Nunes cerca de 15 anos mais tarde, os feitos dos navegadores portugueses não tinham sido conseguidos “indo a acertar, mas partiam os nossos mareantes mui ensinados e providos de instrumentos e regras de astrologia e geometria”.

De facto, as missões eram cuidadosamente planeadas e executadas, e os pilotos eram instruídos nas técnicas de navegação, que incluíam os métodos astronómicos de posicionamento e a utilização das cartas náuticas. Mas a viagem não correu bem para o próprio Magalhães, morto nas Filipinas por um nativo, em Abril de 1521. Seria completada por um único navio, sob o comando de Juan Sebastian de Elcano, que regressou a Sevilha em 6 de Setembro de 1522, acompanhado de apenas 18 homens. Curiosamente, a decisão de regressar a Espanha continuando a navegar para ocidente, completando assim a circum-navegação da Terra, não estava prevista nos planos originais de Magalhães.

Quanto ao planeamento da missão, sabemos que Fernão de Magalhães se fez rodear dos melhores especialistas portugueses em ciência náutica. Nomes bem conhecidos são os cosmógrafos Rui e Francisco Faleiro, e os cartógrafos Jorge Reinel e Diogo Ribeiro. Numa carta endereçada em 1519 pelo feitor português em Sevilha, Sebastião Alves, ao rei D. Manuel, é relatado que “a terra de maluco eu vi assentada na poma [isto é, no globo] e carta que cá fez o filho de Reinel, a qual não era acabada quando cá seu pai veio por ele, e seu pai acabou tudo e pôs estas terras de Maluco, e por este padrão se fazem todas as cartas”.

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Fac-símile do planisfério de Kunstmann IV, por Otto Progel (1843), com uma decoração exuberante, representação incompleta das Américas e ausência de qualquer informação no Pacífico DR

Trata-se esta carta, muito provavelmente, do planisfério anónimo conhecido por Kunstmann IV, de cerca de 1519, cuja caligrafia e estilo são típicos do cartógrafo português Jorge Reinel (filho de Pedro Reinel), e que alguns historiadores consideram ter sido apresentado por Fernão de Magalhães a Carlos I de Espanha, quando procurou o seu apoio para a missão. Deste planisfério apenas sobrevivem reproduções fotográficas e um fac-símile a cores, desenhado no século XIX. O original ter-se-á perdido na II Guerra Mundial, durante os bombardeamentos aliados a Munique.

O planisfério de Kunstmann IV é um mapa com uma enorme importância histórica, que haveria de constituir o modelo da cartografia náutica espanhola. Nele é representado o mundo até então conhecido pelos europeus, desde a costa oriental da China, a oriente, até às Ilhas Molucas, a ocidente. Um dos aspectos que nele mais impressiona é o grande vazio do oceano Pacífico e o facto de grande parte do Novo Mundo, ainda por explorar, não ser representado. Numa legenda colocada a sul do actual Panamá, aquele oceano é classificado como o “Mar Visto pelos Castelhanos”, numa alusão à missão de Vasco Núñez de Balboa, na qual o istmo separando o Golfo do México e o Pacífico foi atravessado, em 1513.

Pela primeira vez em cartografia náutica, a totalidade da circunferência equatorial da Terra é representada, incluindo o oceano Pacífico. Também pela primeira vez, o equador encontra-se subdividido em intervalos de um grau de longitude: 183 graus para este do meridiano de Tordesilhas e 184 graus para oeste. Poderíamos pensar que esta inovação estaria ligada ao intuito de representar as longitudes dos lugares ou a um qualquer desenvolvimento dos métodos de navegação, mas não é esse o caso. A razão mais plausível terá sido a de ilustrar que o arquipélago das Molucas se encontrava a menos de 180 graus para oeste da linha de Tordesilhas – isto é, na área de influência dos espanhóis. Se medirmos cuidadosamente a distância longitudinal, sobre o equador, entre o meridiano de Tordesilhas (onde está a escala de latitudes) e as Molucas, verificamos ser cerca de 175 graus, colocando-as dentro do hemisfério espanhol. Muito embora Pedro e Jorge Reinel conhecessem certamente a posição da coroa portuguesa nesta matéria, não será difícil entender as suas razões, já que a carta tinha sido encomendada pelos espanhóis e eles completaram-na em Sevilha.

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O arquipélago das Molucas no planisfério de Kunstmann IV, com a legenda “ilhas de maluqua domde vem ho cravo” Dr

Mas quem teria razão nesta polémica? Com a ajuda do Google Maps e de algumas medições rápidas, facilmente se verifica que a extensão longitudinal do oceano Pacífico se encontra fortemente subavaliada no planisfério de Kunstmann IV, fazendo com que a posição das Molucas esteja deslocada para oriente em mais de 1500 quilómetros! Seria esta distorção inocente? É claro que não! De facto, ela servia dois propósitos: o de colocar as Molucas do lado oriental do antemeridiano de Tordesilhas e o de tornar mais curta a distância a percorrer pelos navios espanhóis que se dirigiam às Molucas, assim fortalecendo a proposta de Magalhães. É interessante verificar como uma manipulação semelhante teria já sido utilizada por Cristóvão Colombo em 1492, quando considerou um modelo da Terra demasiado pequeno, a fim de convencer os Reis Católicos de que o trajecto para a Índia era mais curto navegando para ocidente.

Admitindo que o planisfério de Kunstmann IV é, de facto, o que foi elaborado por Jorge e Pedro Reinel, qual seria o verdadeiro propósito deste mapa? A exuberância da decoração, a forma simplificada do desenho das costas, a profusão de legendas em latim e a ausência de uma escala de distâncias mostram não se tratar de uma carta para ser utilizada a bordo, mas sim de um mapa destinado a encher o olho de um rei. Todos estes indícios apontam para a possibilidade de o planisfério de Kunstmann IV ter sido realmente desenhado a pedido de Fernão de Magalhães, para ser apresentado a Carlos I de Espanha.

Historiador de ciência

Este é o penúltimo artigo desta série a cargo do Projecto Medea-Chart do Centro Interuniversitário de História das Ciências e Tecnologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, que é financiado pelo Conselho Europeu de Investigação