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Beijar os avós é uma violência?

Uma criança obrigada a beijar os avós poderá ser violentada pela figura da obrigação. O grau de "normalidade" de um acto poderá escamotear a sua potencial violência.

Obrigar uma criança a beijar os avós é uma violência? É, pois se ela precisa de ser obrigada a fazê-lo é porque, possivelmente, não vê nos avós o mesmo que outros vêem. O que não é provável que aconteça num contexto em que os avós estiveram presentes desde cedo na vida da criança, investindo no afecto. O que é igualmente improvável que aconteça pelo simples facto de vivermos numa sociedade onde o acto de beijar (e amar) os avós é encarado como "normal".

De resto, todo o acto humano é uma violência. Pelo mero facto de criar atrito, uma relação com um meio. A violência do início da vida pode magoar uma estrutura inatamente frágil, mas, na medida certa, ajuda, per se, a moldar a futura estrutura sócio-moral e a póstuma resiliência. Pelo simples facto de ser primitivamente "normal", é internalizada. O conflito com o meio torna-se mais notório numa infância tardia, ou na adolescência, quando a estrutura já prementemente autónoma contende as referências primárias. É aqui que a violência se poderá tornar mais flagrante. Pode ser que o jovem se oponha à sociedade a favor dos pais, ou vice-versa. Esta obstaculização surge, na realidade, a partir do exterior. Ela desenha a culpa que irá, por sua vez, fazer do sujeito simultaneamente violado, violentado e violentador.

Uma criança obrigada a beijar os avós poderá ser violentada pela figura da obrigação, se não aceitar a figura que é obrigada a beijar. Se as relações forem harmónicas, o contexto de obrigação é menos provável. Por outro lado, a "normalidade" do processo pode ajudar a facilitá-lo.

Mas o grau de "normalidade" de um acto poderá escamotear a sua potencial violência. É essa aparente "normalidade" que explica o desacordo geral pelas afirmações de Daniel Cardoso proferidas no programa "Prós & Contras". No entanto, sou capaz de encontrar mil razões para que uma criança ache um grande frete beijar os avós (se bem que, tratando-se sobretudo de uma criança pequena, lembremos que um nível mínimo de constrição é requerido ao condicionamento moral, por isso talvez o frete consubstancie um acto de amor). No pólo oposto, temos, portanto, a possibilidade de um acto pretensamente violento não o ser se estiver inscrito na "normalidade" dos indivíduos.

E, aqui, surge, por exemplo, o contexto do assédio feminino, que não representava há décadas o mesmo grau de violentação que representa actualmente. Foram as mulheres que se sentiram assediadas, e tiveram a coragem de o apontar, que fizeram a diferença, ao contribuírem para dar importância e patologizar um processo. À medida que o assédio, a sua temática, se foi relevando socialmente, aumentou a percepção da sua violência por parte das mulheres (e homens) do mundo.