Opinião

Extrema-direita na Áustria: devemos ficar preocupados?

Hoje, a Viena outrora de Strauss e Schubert vive tempos assustadores.

Estar a viver temporariamente em Viena dá-me o pretexto ideal para falar sobre os recentes acontecimentos políticos na Áustria e as suas possíveis consequências no quadro europeu.

Até recentemente, a política doméstica austríaca não merecia especial atenção além-fronteiras. E os austríacos agradeciam. Afinal de contas, depois das catástrofes políticas do século passado, é preferível deixar o grande plano para outros atores. Mas tudo muda. E hoje, a Viena outrora de Strauss e Schubert vive tempos assustadores. Pelo menos é essa a perceção daqueles com quem me cruzo diariamente, desde o cidadão comum aos especialistas em ciência política. Obviamente esta perceção é muito provavelmente enviesada e até minoritária – afinal de contas, as sondagens continuam a indicar elevados níveis de apoio ao novo governo. Mas isso é que é assustador. Porquê? Façamos então um breve exercício de memória.

No último ano, o Partido Popular (ÖVP), partido habituado a governar ao longo dos anos, ganhou as eleições. Mas enfrentou, novamente, uma vitória sem maioria parlamentar, aliando-se, desta vez, com a extrema-direita do Partido da Liberdade (FPO), que arrecadou cerca de 31% dos votos. Embora esta coligação não seja uma novidade para os austríacos – aconteceu também em 2000 –, o partido tem muito mais poder atualmente, incluindo o controlo de importantes ministérios. Muito já se escreveu sobre o Partido da Liberdade: partido nacionalista, conservador, anti-imigração e islamofóbico fundado por nazis (entre outros) depois da 2.ª Guerra Mundial. Quando entrou para o Governo em 2000, outros países da União Europeia impuseram, em protesto, pequenas sanções à Áustria. Contudo, a paisagem política europeia atual dita outra reação: aceitação silenciosa. Até porque Kutz, líder do ÖVP, prometeu construir um governo pró-europeu.

Mas a extrema-direita na Áustria não é uma novidade e tão pouco se fica pelas estruturas de poder político formais como o parlamento e o governo. A extrema-direita também se faz sentir nas ruas. O movimento “identitário” pan-europeu iniciado em França no ano de 2003 tem o seu “bloco” mais visível, atualmente, na Áustria desde a sua implementação em 2012. Embora a importância real deste grupo seja frequentemente inflacionada pela cobertura mediática que lhe é dada, a sua longevidade e recente crescimento merecem, porém, algum destaque quando falamos na extrema-direita na Áustria.

Muitos questionam qual o verdadeiro perigo da ascensão da extrema-direita na Europa. Parece haver duas perspetivas dominantes: 1) os media retratam esta ascensão num tom apocalíptico que tem pouca adesão à realidade – recorde-se o alerta do primeiro-ministro português à saída da reunião de chefes de Estado e Governo em Salzburgo há uns dias atrás; ou 2) a Europa devia estar muito preocupada porque, a passos largos, estamos a caminhar para uma Europa cada vez menos democrática e tolerante. Eu partilho a visão mais pessimista. E acredito que a inclusão do Partido da Liberdade como parceiro governativo constitui uma mudança sistemática na política austríaca com severas repercussões e implicações para o resto da Europa. Por várias razões. Pelo peso eleitoral e territorial do partido no país: já não é a primeira vez que chega ao governo e desde a sua implementação que tem aumentado substancialmente a sua expressão eleitoral; é também apoiado por grupos da sociedade civil, grupos e movimentos de extrema-direita e direita radical. Pela posição geográfica do país: é particularmente assustador à luz das recentes derivas à direita com traços autoritários dos países vizinhos, como a Hungria, Croácia e Polónia. E por aquilo que representa para os partidos austríacos mainstream habituados a dividir o poder entre si. Na última eleição o ÖVP virou completamente à extrema-direita em alguns temas importantes. Em campanha eleitoral, Kurz chegou mesmo a aliciar os simpatizantes da extrema-direita com a promessa que ele é que seria capaz de implementar uma política anti-imigração eficaz, ao contrário do FPO. Enquanto o partido social democrata (SPÖ) optou pelo silêncio em questões fraturantes.

No entanto, a inclusão do Partido da Liberdade no governo não é o resultado mais assustador per se. A extrema-direita sempre esteve presente na política Austríaca. Enquanto em 2000 a Áustria estava isolada e era um outlier (o que explica as sanções impostas por vários países europeus), em 2018 a Áustria é mais um caso de sucesso entre muitos outros onde a extrema-direita e a direita radical estão a crescer, como na Alemanha, Suécia, Grécia e Holanda. Passados quase 20 anos, o panorama europeu é muito diferente. A extrema-direita e o populismo estão hoje mais musculados, poderosos e imbuídos em algumas instituições nacionais e até no Parlamento Europeu.

No próximo dia 4 de Outubro está previsto um protesto na cidade de Viena, que vai reunir grandes figuras do panorama cultural e intelectual austríaco, incluindo Elfriede Jelinek, prémio Nobel da Literatura. Espera-se que esta seja uma das maiores manifestações desde o início de funções do governo, em 2017. Esperemos que muitos mais protestos se repitam. E que os europeus respondam em massa contra o populismo e a extrema-direita nas próximas eleições europeias em Maio de 2019.

A autora escreve segundo o novo Acordo Ortográfico

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