Crítica

O trompete no Panteão

A trompetista Susana Santos Silva revela a sua enorme expressividade instrumental neste magnífico solo gravado no Panteão Nacional.

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A trompetista e o seu instrumento: magia JoŽe PoŽrl

Um som de trompete atravessa lentamente o espaço de uma igreja. Esse som é transformado, pelo efeito de reverberação, e continua a soar como se se prolongasse pelo infinito. O espaço é o átrio da Igreja de Santa Engrácia, o Panteão Nacional, o trompete é de Susana Santos Silva. A trompetista aproveita as características acústicas do espaço, particularmente essa enorme reverberação, para desenvolver uma magnífica exploração sonora.

A trompetista tem sido uma das grandes forças criativas do jazz português. Durante quase duas décadas integrou a Orquestra Jazz de Matosinhos, em 2011 estreou-se como líder com o disco Devil’s Dress, e desde então vem alimentando uma discografia rica, onde se avolumam parcerias internacionais. Lidera o quinteto Impermanence, o quinteto Life and Other Transient Storms, o trio LAMA, o duo com Kaja Draksler, a parceria com Torbjorn Zetterberg, o quarteto Hearth (com Kaja Draksler, Mette Rasmussen e Ada Rave) e colabora com a Fire! Orchestra de Mats Gustafsson, entre muitos outros.

Esta é a estreia no formato solo da trompetista do Porto, aqui afastada do universo jazzístico, e atira-se a uma improvisação aberta, servindo-se simplesmente do instrumento e da imaginação, sem recurso a composições pré-existentes.

O disco é o registo de um concerto no festival Rescaldo, gravado em Fevereiro de 2016, e mostra Santos Silva em pura exploração sónica e instrumental. Numa entrevista recente, confessava que All the Rivers funciona como “uma documentação em tempo real do processo criativo”. Ao ouvirmos o disco percebemos essa música a nascer, a crescer, a evoluir, somos testemunhas privilegiadas desse processo de criação e desenvolvimento.

O disco apresenta uma faixa única de 42 minutos. Não há aqui fraseados jazzísticos, a trompetista opta por utilizar a sua fonte sonora de forma criativa e, apesar das limitações do instrumento e da ausência de apoio, consegue fazer magia: combina diferentes registos, por vezes sons longos, por vezes intervenções curtas, que em diversos momentos se sobrepõem, soando como se estivessem a tocar vários músicos em simultâneo. Além do trompete, serve-se pontualmente de pequena percussão, em complemento. Entre a contemplação, a exploração e a explosão, assistimos a uma profunda riqueza musical, trabalhada com uma fluidez natural. Há ainda uma permanente tensão, que alimenta uma carga dramática, condizente com a imponência do espaço, que pontualmente evoca a grandiosidade de um hino. Susana Santos Silva, que já se tinha afirmado como improvisadora de classe internacional, revela aqui a sua enorme criatividade e expressividade instrumental.