Crítica

À procura de Susana

Caso ainda restassem dúvidas, estes dois novos discos assinalam a afirmação definitiva da trompetista Susana Santos Silva.

Susana Santos Silva consagra-se justamente como compositora
Foto
Susana Santos Silva consagra-se justamente como compositora

A trompetista Susana Santos Silva revelou-se ao mundo com Devil’s Dress, um cartão de apresentação já apelativo, mas foi nas suas múltiplas colaborações que todo o seu potencial foi sendo desvendado. Ligada à Orquestra Jazz de Matosinhos, Santos Silva desenvolveu parcerias em dupla com o baterista Jorge Queijo, com a pianista eslovena Kaja Draksler e com o contrabaixista sueco Torbjörn Zetterberg (excelente álbum, Almost Tomorrow) e integra ainda o trio LAMA, que acaba de chegar ao terceiro disco. Em todos estes projectos há uma característica comum que sobressai: a refinada elegância do seu som de trompete.

No final do ano passado foi editada a colaboração da trompetista com os belgas De Beren Gieren, já este ano foram editados dois discos novos: o seu segundo na condição de líder (Impermanence) e o terceiro trabalho do trio LAMA. E enquanto ouvimos estes discos acaba de ser lançado um novo, “The Paradox of Hedonism”, num trio com Tom Chant e Vasco Trilla.

Gravado em quinteto, Impermanence resultou de uma parceria com o festival Guimarães Jazz, tendo sido registado no Centro Cultural Vila Flor. A acompanhar Santos Silva estão João Pedro Brandão no saxofone alto (e na flauta), Hugo Raro no piano, Torbjörn Zetterberg no contrabaixo e Marcos Cavaleiro na bateria. O quinteto trabalha um conjunto de temas originais de Santos Silva, que se consagra aqui como excelente compositora, fazendo uma música de horizontes largos, a explorar os pontos fortes de cada um dos seus parceiros. Tal como a recente geração do jazz nortenho mais criativa (Ensemble Super Moderne, octeto de João Guimarães e Coreto Porta-Jazz), o trabalho de composição de Santos Silva atravessa diferentes universos, assumindo aquilo que parece ser uma marca de contemporaneidade: a abertura a uma grande amplitude estética. E, apesar dessa diversidade, a música resulta fluida, salientando as dinâmicas de grupo e aproveitando as características individuais de cada instrumentista. Esta música não se fixa, balança entre mundos, ora embala na ginga de Geringonça, ora soa austera como no arranque solene de Oblivious trees. Mas se há tema representativo, será Imaginary life: primeiro às voltas na melodia sedutora, sempre recorrente, envolvendo os vários elementos do grupo, até que o final se abre para a exploração solo do trompete, com Susana a exprimir todos os seus recursos.

Em paralelo, acaba de ser editado o terceiro disco do trio LAMA, grupo que reúne o trompete de Santos Silva com o contrabaixo do português Gonçalo Almeida (o principal mentor do projecto, também na electrónica) e a bateria do canadiano Greg Smith. O disco de estreia, Oneiros, foi uma bela surpresa, a atravessar as águas entre a acústica e a electrónica. O segundo registo, Lamaçal, com o convidado Chris Speed, continuou e ampliou a música do trio. Neste novo álbum, aparece um outro convidado, Joachim Badenhortst, saxofonista do trio Baloni, que mantém a dinâmica do registo anterior. A música do agora quarteto, inspirada pelo livro A Viagem do Elefante, de José Saramago, navega entre o jazz e a improvisação, mesclando referências sem medo. A composição é da responsabilidade de Almeida (neste disco assina sete dos oito temas), assegurando também uma amplitude larga. A interpretação das melodias confirma o excelente entrosamento do grupo, que desenvolve uma articulação instrumental fluida. O entendimento não se resume aos momentos em que os sopros dialogam, há uma toada geral de comunicação a envolver esta música aberta. Sendo o mais jazzístico e acessível dos projectos de Gonçalo Almeida (merecem atenção Albatre, Tetterapadequ e Spinifex, para quem queira arriscar), este LAMA é também um excelente veículo para o virtuosismo de Susana Santos Silva.