Crítica

O grito de libertação de Yves Tumor

Entre o experimentalismo sónico e uma renovada sensibilidade pop, eis o novo álbum do músico americano.

Yves Tumor movimenta-se num plano ambíguo, musicalmente e como<i>performer</i>
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Yves Tumor movimenta-se num plano ambíguo, musicalmente e como performer

Talvez só Arca, o músico-produtor-performer que ficou conhecido por três álbuns inclassificáveis e pelas colaborações com Björk, se lhe possa comparar no panorama actual. Tal como aquele também o americano Sean Bowie, ou seja Yves Tumor, se movimenta num plano ambíguo, sem que se perceba exactamente se a sua música resulta sombria ou cristalina, inteligível ou alienígena, de homem ou mulher, concebida por entidade não-humana ou por alguém com uma vulnerabilidade hiper-humana.

Isso já era perceptível no álbum anterior, Serpent Music (2016), mas é ainda mais nítido no novo Safe in The Hands Of Love, onde esse balanço entre experimentalismo sónico e inteligibilidade pop se alia com mais pertinência. O universo retorcido, os espasmos electrónicos, as sombras misteriosas e uma certa apetência por uma teatralização romantizada mantém-se, mas agora existem mais clareiras e a voz está mais presente. De alguma forma é como as atmosferas electrónicas e os rumores metalizados deixassem agora entrever de forma mais nítida uma figura humana solitária, mas com grande vontade de comunicar à sua volta.

Na feitura da obra fez-se rodear de uma série de cúmplices (Croatian Amor, James Ferraro, Ohxy, Puce Marry ou Rahbek) mas este é nitidamente um disco autoral onde se afirma como um dos criadores mais singulares destes tempos. Alguém que é capaz de convocar o tipo de tempestade sónica que parece reflectir um mundo opressivo em desordem total, ao mesmo tempo que expõe momentos de beleza empolgante, com palavras que evocam torturas colectivas, mas também experiências amorosas individualizadas que se dissiparam. Não é evidentemente música para quem procura o conforto do reconhecimento. É mais para quem não receia o embate com a densidade do novo, com alguma dose de familiaridade, apesar de tudo, em algumas das canções. 

Do ponto de vista sónico resulta numa colagem fluida de elementos repescados das mais diversas famílias estilísticas — ambientalismo electrónico, pop sonhadora, ruído experimental, algum rock, ou R&B e soul — mas emancipado de quaisquer regras mais limitadoras de géneros. Tal como em Arca, existe qualquer coisa em Tumor da ordem da catarse, um profundo grito de libertação que transcende as normas, estejam elas ancoradas numa qualquer ordem social, cultural ou musical. Magnífico.