Opinião

Problemas de gases

Pelo que leio e ouço, parece que um gás como o dióxido de carbono ou a física da atmosfera mobilizam mais a luta política do que a pobreza.

Estou farto da sustentabilidade, do ambiente, da resiliência, da comunidade, da natureza, do antropoceno e de outras palavras produtoras de música de fundo, placebos, verdolatria, serões animados, marchas, protestos, jejuns e missas cantadas.

Não há muito tempo, a política ocupava-se de coisas e causas bastante claras como a injustiça, a exploração do próximo, a violência, a discriminação, o despotismo e outros assuntos com sentidos bastante claros. Era então difícil aos não-humanos fazerem-se representar nos dispositivos de organização da política e do poder. A natureza era uma criação nunca acabada resultante do trabalho dos cientistas e expandia-se para o invisível dos nano-universos e da infinitude do cosmos. A ordem natural das coisas aumentava em opacidade e polémica em proporção directa. Ainda não havia redes sociais e a ciência fazia questão de se demarcar do senso comum. Por isso, a ciência criou o mito da razão pura e fixou residência onde antes habitavam só deuses. Para a ciência, a política era lodo, a ideologia, um perigoso veneno. Um cientista tinha uma bata branca, uns óculos redondos e os cabelos desgrenhados. Einstein punha a língua de fora. O capitalismo era um mecanismo de fazer dinheiro nada esquisito em matéria de moral, ética, justiça ou o que fosse desde que houvesse lucros. O senso comum era apenas comum e apreciava nuvens e geometrias variáveis.

Entretanto instalou-se a teoria do caos e findou o mar sereno dos determinismos científicos. Não se pense por isso que a precisão e o consenso tenham falhado na ciência e na técnica. Nunca foram tão elevados e sofisticados. A questão é que a lógica das certezas convive facilmente com a gritaria das dúvidas. A objectivação ou a falsificação tem o mesmo poder nas práticas e nas retóricas da ciência em tempo de perda de inocência.

Chegamos assim ao aquecimento global, ao capitalismo global, à globalização, a uma sequência infinita de coisas assim adjectivadas ou enunciadas. Não se formou, entretanto, um Estado global e qualquer organização de nações unidas une na mesma proporção que separa nunca da mesma maneira. Os consensos são sempre parciais e de prazo incerto. Como sempre, é mais fácil pôr a funcionar uma convenção ou uma prática global em torno do vil metal do que em torno de alguma das virtudes de que se fala. 

O planeta azul é lindo mas não é uma nave espacial com tudo organizado a bordo, um comando, um rumo ou uma missão. Na natureza (seja lá o que isso for) tudo se transforma. 

Estou quase a perder-me. Para que qualquer coisa exista é preciso que alguém a pense. A realidade é a parte da ficção que se consegue provar que existe, sendo que as duas coisas se confundem (até na ficção científica).

A espécie humana é problemática porque não se adapta à paciência quase eterna dos rochedos, nem às rotinas de qualquer animal, sempre iguais por muito pêlo que tenha. A espécie ilude-se nas suas invenções, nos objectos, nos labirintos por onde pensa, nas formas como se organiza. Como método de produção de consenso ou de organização da discussão, é melhor não acreditar demasiado na capacidade da política. Basta ir a uma simples reunião de condomínio e pensar o que seria aquilo com milhões de condóminos mal distribuídos entre barracos (a maioria) e mansões (um punhado deles).

Pelo que leio e ouço, parece que um gás como o dióxido de carbono ou a física da atmosfera mobilizam mais a luta política do que a pobreza, os que morrem à fome ou os que trabalham de sol a sol por quase nada e que, coitados tão simples, confundem o efeito de estufa com o trabalho nas estufas do agro-negócio, que é o nome que a actividade agrícola entretanto adquiriu. Não produzirás CO2, dizem, como quem diz não matarás ou, outros afirmam, porque a natureza agradece. A natureza não agradece porque não existe nem pensa e, sobretudo, é malcriada, faltam-lhe peças.

A sociedade em rede enredou-se e a globalização do que quer que seja mais parece uma máquina de produção de fumaça ou de dissipação de questões que não sabemos pensar ou como agir sobre elas. Anda tudo tão desgovernado que até há quem já tenha saudades do romantismo mágico, do pensamento único ou do santo ofício. Como certos detergentes, não sei se é mais poderoso o capitalismo verde ou os outros. Pois se com qualquer coisa, até com matérias mais rarefeitas do que gases, pensamentos, sei lá que mais, se pode fazer dinheiro?

Andamos ansiosos, é o que é, e a ansiedade produz gases, tal como os feijões, a falta de exercício físico, as mudanças bruscas de tempo e certos alimentos fermentativos.