Cartoon controverso de Serena Williams reimpresso na Austrália

Coro de críticas e acusações de racismo levaram o The Herald Sun a republicar parte da ilustração na primeira página.

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Mark Knight/The Herald Sun

O cartoon de Serena Williams que nos últimos dias viajou a alta velocidade pelas redes sociais, deixando atrás de si um rasto de polémica, voltou a ser publicado pelo The Herald Sun nesta quarta-feira. O jornal australiano juntou, na primeira página, a ilustração da tenista norte-americana a um conjunto de representações de outras figuras públicas como forma de reafirmar a sua posição relativamente ao tema.

Com o título "Welcome to PC World", a publicação sediada em Melbourne usou parte do cartoon original (a imagem de Serena frustrada, a saltar sobre uma raqueta partida) no espaço mais nobre do jornal para defender o ilustrador Mark Knight, rejeitando todas as leituras que detectem um teor racista na ilustração.

"Se os censores de Mark Knight levarem a melhor nesta discussão sobre o cartoon de Serena Williams, a nossa nova vida politicamente correcta será realmente muito aborrecida", escreve a direcção do jornal, logo na primeira página.

Na origem da ilustração inicial está a controversa final feminina do Open dos EUA, que terminou com a vitória de Naomi Osaka e que gerou discussão por causa de uma penalização imposta a Serena Williams (na prática, foram três violações do código de conduta) - um castigo altamente contestado pela norte-americana no court e que colocou o árbitro Carlos Ramos no meio de uma tempestade.

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De acordo com a News Corp., o ilustrador já terá explicado que a sua intenção sempre foi dar conta "do péssimo comportamento" de Serena naquele encontro. "Não se trata de raça", acrescentou, acabando por ter de fechar a sua conta de Twitter devido às centenas de comentários que recebeu, a maioria dos quais bastante agrestes.

A justificação avançada pelo cartoonista surge na sequência das críticas que apontam para um estereótipo da mulher negra, ao interpretar Serena como uma mulher enfurecida e com uma boca enorme, a saltar em cima de uma raqueta esmagada. Do outro lado da ilustração, o árbitro é desenhado a falar com Osaka e a perguntar-lhe: "Não podes deixá-la ganhar?".

"Ele não percebeu minimamente a razão pela qual Serena estava zangada. Era uma questão de integridade e quem não for capaz de o perceber estará a perpetuar o vazio que tantas mulheres negras sentem quando tentam fazer ouvir a sua voz. É como se as nossas opiniões não interessassem", apontou Vanessa K. De Luca, ex-chefe de redacção da revista Essence.

J.K. Rowling também se juntou ao coro de críticas, com um tweet esclarecedor: "Bom trabalho a tentar reduzir uma das maiores desportistas vivas a uma metáfora racista e sexista", escreveu a autora do universo literário de Harry Potter.

Em declarações à CBS News, Mark Knight insistiu na ideia de que a interpretação não vai ao encontro ao espírito do cartoon: "Quando o desenhei, não estava a pensar em política racial na América. Simplesmente assisti à número um mundial a ter um ataque de raiva", vincou. "Não posso dizer que não vou desenhar isto porque é uma área interdita".

O director de operações da News Corp. no estado de Vitória saiu, entretanto, em defesa do autor. "O melhor cartoonista da Austrália tem o firme apoio dos colegas pela sua representação da petulância de Serena Williams. Isto é sobre mau comportamento, não é seguramente sobre raça".