Crítica

Está-se Bem nesta taberna exemplar

Cozinha tradicional para apreciar e partilhar na Ribeira do Porto. Em pequenas doses, conceito gastronómico afinado e ambiente contemporâneo.

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Adriano Miranda

É muitas vezes para acomodar a procura turística e a euforia foodie que muitos restaurantes optam pela abertura de sucedâneos, rentabilizando nome e fama, e aproveitando também as chamadas sinergias com a logística instalada.

Os especialistas chamam-lhe gestão e com isso nada de mal vem ao mundo no universo da restauração. Bem pelo contrário, são mesmo em muitos casos estes sucedâneos a condição de vida para os requisitos de exigência dos espaços gastronómicos mais sofisticados. Assim é por todo o mundo e começa a ser assim também por cá.

Um dos bons exemplos deste movimento de desconcentração, fomos encontrá-lo na zona da Ribeira, no Porto, onde o turismo e a onda foodie estão a levar a uma benéfica renovação em toda a linha da restauração.

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Foi para complementar a oferta do Ode Porto Wine House que, já no início do ano passado, abriu portas a Taberna Está-se Bem, num conceito que pretende emular a cozinha de apresentação cuidada e elegante que na casa-mãe destaca as receitas e produtos tradicionais portugueses. Além dos vinhos, com uma garrafeira bem exemplar da melhor produção nacional. E como nas charmosas salas nos dois andares da casinha de gaveto onde fica o Ode não cabe mais do que meia dúzia de mesas, o que obriga à marcação com algum tempo de antecedência, bem podem agora dizer: está-se bem na taberna ali ao lado.

É praticamente do outro lado do largo (do Terreiro) que fica a taberna, logo à entrada da Rua da Fonte Taurina, numa das típicas lojas dos centenários prédios de granito da Ribeira. Recuperação e aproveitamento exemplares, com um tecto falso abobadado a emitir luz e cor em vez da natureza sombria do espaço original. Nas paredes, de granito descascado, as junções estão repletas de moedas dos vários cantos do mundo, a destacar o conceito cosmopolita e a diversidade da clientela.

Serviço e decoração convivial e a desafiar à partilha. À dezena de mesas no interior acresce ainda pequena esplanada. Privilegiando os produtos e receitas tradicionais, também o menu fixo, o serviço e oferta de vinho a copo são de modo a promover a partilha e degustação. Está-se bem!

Para começo, cestinho com pão em fatias, azeite (de Foz Côa, excelente) e manteiga (2€), bolinhos de bacalhau (1€ cada) e croquetes de alheira (5€/8 bolinhas). Os bolinhos — crocantes, bacalhau esfiado e em formato de quenelle ,a respeitar a receita da tradição — têm o complemento de maionese de alho servida numa tacinha, e o mesmo para os croquetes, mas com mostarda. Ambos a intensificar os sabores. “Para começar”, há ainda azeitonas (com indicação das variedades Bical, Gordal e Elvas) e queijo de Azeitão (3/5€).

Nas “Entradas” é evidente a preocupação na oferta de mariscos, com ostras (2€/unidade), percebes, amêijoas e mexilhões. Provaram-se amêijoas à Bulhão Pato (9€), brancas e gordas, em dose generosa e execução convencional com coentro e alho a definir a molhanga final. Menos feliz a experiência com as percebes (8€/200g), chochas e chocas, apesar da convidativa apresentação sobre fundo de gelo numa taça transparente.

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Muito boa a sopa de peixe (5€). Rica, generosa e saborosa, numa quase açorda com carnes de peixes variados, pimentos, cebola e ervas frescas. A carta propõe também creme de legumes (3€), caldo verde (3,50€) e um prego em pão (7€), como se recomenda em qualquer taberna.

As propostas “Do Mar” passam por um caril de gambas (12€) — prometedor o aroma que se sentia no ar —, bacalhau à Brás (10€) e à Está-se Bem (12€), ou arroz de camarão e tamboril (que demora 15 minutos – 24€/2 pessoas). Provou-se a versão à moda da casa, uma espécie de soufflé com puré de grão, cebola, uma base de grelos e cobertura de broa. Servido num tachinho que vai ao forno para dar crocância, tem também leve aroma a cominhos que, no entanto, não se mostram no sabor. Nada mal, mesmo tendo em conta que a quantidade de bacalhau não é de molde a incomodar o palato dos turistas.

“Da terra” provaram-se as tripas à moda do Porto (10€), que são servidas num elegante tachinho de cobre, assim como o arroz seco que acompanha. Com o evidente cuidado, sabor e aroma pouco apurados (há que não assustar os forasteiros), mostraram-se completas e bem executadas. Mão e orelha de vitela, a panóplia de tripas, feijão branco e molho consistente a envolver.

Há também oferta de secretos de porco preto (12€), um bife à Está-se Bem (16€) e um belo naco de vazia de Arouca (32€/2 pessoas), também ele de execução exemplar. Peça alta com resguardo de saborosa gordura amarela, que chega à mesa em fatias vermelhas, macias, sumarentas e de muito boa textura. Acompanha com salada de alfaces e batatinhas salteadas que apetece regar com o molho da carne.

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Nas sobremesas, boa nota para o doce conventual (5€) à base de amêndoa e ovos, tendo sido também saboreado um vulgar gelado leite-creme (4€).

Mesmo com o estatuto de sucedâneo para responder à onda turística e euforia foodie, está-se bem nesta taberna moderna onde se nota o propósito de oferecer produtos e receitas da nossa tradição gastronómica. Sem precisar de ser extensa, exemplar também a oferta de vinhos, que abrange as regiões mais representativas de forma criteriosa e adequada ao conceito e estilo da casa. E todos os vinhos são servidos a copo.

A conclusão é, pois, que em ambiente jovial e de partilha está-se bem nesta taberna da Ribeira que se mostra exemplar dentro do propósito e conceito que lhe está subjacente.