Editorial

A janela do Bloco

O Bloco de Esquerda tem um elefante na sala e tudo indica que os seus dirigentes decidiram lidar com ele da pior forma possível.

Catarina Martins tentou neste domingo abrir ao máximo a janela do Bloco de Esquerda para as próximas eleições. Já se sabia que um dos maiores problemas que os partidos que apoiam o Governo na Assembleia enfrentam é que o povo tenha dificuldade em reconhecer quais foram as suas efectivas contribuições para as leis do país. O PCP admitiu o problema depois do desaire eleitoral autárquico: com António Costa a vangloriar-se de medidas que ele próprio não queria inicialmente (ou considerava “irresponsáveis”, como disse ontem a coordenadora do Bloco), será mais difícil ao povo em geral perceber o que deve a quem. O risco de o “Governo minoritário do PS” ficar com os louros de medidas que não estavam no seu programa é enorme e um risco eleitoral para Bloco e PCP. 

É evidente que Catarina Martins fez bem em desfiar uma por uma as medidas de que o Bloco é autor, ou co-autor com o Partido Comunista, e que o Governo PS acabou por aceitar. É a janela que tem para segurar o eleitorado que lhe deu em 2015 mais de 10% dos votos, em conjunto com as exigências para o próximo Orçamento do Estado. 

Mas há um elefante na sala e tudo indica que os dirigentes do Bloco de Esquerda decidiram lidar com ele da pior forma possível. O caso Robles foi uma faca espetada no coração do Bloco de Esquerda e é muito bem possível que daqui a um ano, quando estiverem a votar para as legislativas, os eleitores recordem com nitidez o caso do partido que tinha um dirigente que actuava na sua vida privada de forma contrária aos valores que defendia publicamente. Ora, ao que parece, o Bloco decidiu copiar neste caso os partidos tradicionais, de que o caso Sócrates dentro do PS, quase até ao fim, foi um exemplo. Quando Francisco Louçã avisa que o Bloco está a ser, e ainda vai ser, alvo de uma “campanha suja”, está a reagir como se as notícias que deram conta de que o ex-vereador do BE detém um prédio numa zona propensa à especulação imobiliária, que comprou por pouco e pôs à venda por muito (ainda que a venda não tenha sido concretizada), fossem falsas.

O fundador do Bloco invoca Trump, mas Trump diria o mesmo que o fundador do Bloco se tivesse sido “vítima” de uma notícia idêntica. E se o alvo da notícia fosse Trump, já sabemos o que diria toda a gente — e bem. Ao enveredar por esta forma de vitimização ao estilo Sócrates, o Bloco perde a sua credibilidade, já bastante abalada com o caso Robles. E votos e credibilidade andam de mãos dadas (embora isto não seja válido para Trump).