Fernando Pimenta terá sempre Montemor-o-Velho

Já ganhou dezenas de medalhas, em múltiplas paragens, mas o duplo ouro alcançado no fim-de-semana, diante de centenas de compatriotas, é um marco na carreira do atleta minhoto. “Foi o melhor possível”.

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LUSA/PAULO NOVAIS

Se tudo correr bem, quando dentro de uns largos anos Fernando Pimenta estiver a folhear o álbum de memórias e a reviver os múltiplos triunfos que alcançou na canoagem, provavelmente vai deter-se um pouco mais na página com o cabeçalho Montemor-o-Velho 2018. Vai lembrar-se do dia em que obteve um feito inédito, do fim-de-semana em que juntou mais duas medalhas de ouro à colecção. E não foram duas medalhas quaisquer, foram dois títulos que traduzem a dimensão planetária de um atleta que marca um antes e um depois da modalidade em Portugal.

Trocado por miúdos, o que aconteceu ontem na muito procurada pista de Montemor foi o seguinte: Fernando Pimenta arrecadou a segunda medalha de ouro no Campeonato do Mundo de canoagem de velocidade. Na prova de K1 5000m, a mais longa distância do programa, o minhoto revalidou o título alcançado no ano passado, em Racice, na República Checa, cumprindo o trajecto em apenas 21m42,196s.

Num momento de forma extraordinário, o canoísta português controlou a prova praticamente do início ao fim. Foi ele quem cedo impôs o ritmo, decidindo esticar o andamento para perceber qual seria a reacção dos adversários (e um dos rivais mais directos, o alemão Max Hoff, ficou surpreendentemente para trás) e gerindo a liderança com uma autoridade invulgar.

“Temos de festejar. O meu treinador disse-me que era possível e só tenho que acreditar nele. Ninguém queria assumir a liderança e tentei deixar os adversários para trás. Tentei deixar o Max Hoff, consegui um bom ritmo na primeira volta, mas ninguém quis colaborar e depois foi seguir as instruções do treinador”, descreveu o campeão mundial, admitindo que ainda tinha capacidade para responder caso tivesse sido posta em causa a sua liderança.

Após o ouro inédito em K1 1000m, alcançado no sábado, Fernando Pimenta partiu para a última final do calendário do evento com o estatuto e a pressão decorrentes do título obtido no ano passado. Algo que o também campeão europeu já consegue contornar com um à-vontade de experiência feito.

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“Depois dos Jogos [Olímpicos de 2016], diziam-me que era muita a pressão e mesmo com esses mind games todos consegui superar os obstáculos. E o melhor possível é ser campeão do mundo em Portugal. Hoje [ontem] ainda andava um pouco em êxtase depois do título de ontem [sábado], foi um início de prova nervoso, mas consegui entrar no grupo da frente e senti-me muito bem nas últimas três voltas”, explicou.

Nas últimas três e nas primeiras três, tendo em conta a capacidade demonstrada para impor a lei na água e para lidar com a abordagem muito especulativa dos rivais mais directos. Aquele que mais longe conseguiu levar o sonho de destronar Pimenta foi o dinamarquês René Poulsen, que cortou a meta a 1,5 segundos do campeão, enquanto o norueguês Eivind Vold fechou o pódio, a 2,6 segundos.

E podiam ter até ficado um pouco mais distantes, não tivesse o atleta de Ponte de Lima utilizado alguma da sua vantagem nos derradeiros metros para acenar ao público português em sinal de vitória.

Um capricho ao alcance de muito poucos, restrito àqueles que aceitam que, enquanto durar a carreira, é a vida pessoal que tem de se adaptar às exigências do calendário competitivo e de todo o ritual preparatório que torna os sonhos possíveis. “Um superatleta é igual a todos os outros, mas tem regras, disciplina e muito trabalho por trás”, enumera Pimenta, já depois de descer os dois degraus de um pódio que transformou em ponto de visita regular.

“O desporto neste momento não tem segredos. Tem muito trabalho, sacrifício, abnegação e dar tudo por tudo. Temos também dias menos positivos, mas temos de levantar a cabeça e ir buscar energia aos momentos fantásticos como este. E trabalhar”, acrescenta. Nesse capítulo, o limiano não receberá lições de ninguém. Até porque é a esse verbo que vai agarrar-se novamente para dar o passo que lhe falta num percurso que já contabiliza 25 medalhas (entre Mundiais, Europeus e Olimpíadas) no escalão sénior. “Fica a faltar o ouro olímpico, a cereja no topo bolo de qualquer atleta. Sei que é possível. Primeiro, o apuramento olímpico. Depois todo o trabalho direccionado para os Jogos”, projecta.

Se tudo correr bem, quando dentro de uns largos anos Fernando Pimenta estiver a folhear o álbum de memórias, talvez possa parar também numa página com a inscrição Tóquio 2020. E se esse cenário não vier a concretizar-se? Nesse caso — aproveitando a deixa de Casablanca —, terá sempre Montemor-o-Velho.