Opinião

A 4.ª revolução industrial e o futuro do emprego

No futuro próximo, vamos ter robôs a ajudarem-nos diariamente, telemóveis subcutâneos, cidades sem semáforos, impressão a 3D de órgãos humanos, automóveis e aviões autónomos, animais extintos de volta ao planeta e o primeiro ser humano com o código genético totalmente editado.

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Reuters/LUCAS JACKSON

Nos dias de hoje, dominar o fogo parece ser uma tarefa trivial, contudo, há 1,5 milhões de anos apenas um número muito reduzido de seres humanos conheciam e partilhavam esta técnica. Para as tribos que não tinham este conhecimento, só teriam acesso ao fogo se o roubassem. No filme Quest for Fire de 1981, um membro de uma tribo, que não domina a técnica do fogo, observa incrédulo a produção de fogo através da fricção de dois pequenos paus de madeira. A partir deste momento, este ser humano possui um valor inestimável na sua bagagem de conhecimentos. Com a proliferação desta tecnologia, a vida humana nunca mais será a mesma.

Muito mais tarde, já no século XVIII, assistimos à 1.ª revolução industrial, com a invenção da máquina a vapor, seguida da 2.ª revolução industrial no século XIX, com a descoberta da electricidade e, mais recentemente, no século XX à 3.ª revolução industrial com a invenção do transístor, o que permitiu toda a digitalização que vivemos presentemente.

Atualmente discute-se a 4.ª revolução industrial. Existem muitas teorias e modelos sobre este tópico, a maioria delas relacionadas com a digitalização da sociedade. Todavia, as tendências tecnológicas que emergem neste momento são muito mais abrangentes e profundas do que a mera digitalização da sociedade. Pela primeira vez na história da humanidade, assistimos a uma nova era que se traduz na convergência dos mundos físico, digital e biológico. Neste paradigma, o desenvolvimento de novos materiais avançados com propriedades nunca antes alcançadas, como por exemplo materiais que permitem a invisibilidade; a Internet das coisas, onde os objetos ligados em rede passam a ser eles próprios sujeitos; assim como o controlo genético e a biologia sintética irão alterar significativamente a forma como produzimos, consumimos, comunicamos e vivemos.

Neste contexto, tal como aconteceu com as revoluções tecnológicas passadas, a 4.ª revolução industrial irá colocar desafios inimagináveis. Aliado ao facto de termos uma economia global, altamente competitiva e fomentada pela inovação, onde são necessários recursos humanos qualificados, em aprendizagem contínua, e sem aversão ao risco, esta nova era requer altos níveis de adaptação e levanta reflexões profundas sobre quem é capaz de absorver estas mudanças.

Num cenário de adaptação e mudança, assistiremos já numa primeira fase a um aumento da desigualdade social, acelerada com a massificação dos robôs e algoritmos que vão substituir a mão-de-obra não qualificada. Em 2016, a consultora McKinsey estimou que 45% dos empregos disponíveis poderiam ser automatizados, especialmente aqueles que não são geradores de novas ideias, produtos e serviços, ou que não exigem comunicação complexa e profundidade de pensamento. Esta é uma das razões pela qual a tecnologia tem sido vista como um fator de estagnação ou de redução de salários. Este efeito não é novo, de facto tem sido comum desde a introdução de qualquer tecnologia disruptiva, como, por exemplo, a descoberta do transístor.

Neste sentido, é importante reverter a tendência vigente, onde de acordo com um estudo de 2015 da Credit Suisse, 48% de toda a riqueza mundial é controlada pelo topo 1% da população, enquanto a metade mais pobre da população mundial possui apenas 1% da riqueza. Para facilitar esta inversão, um fator crucial é dotar os cidadãos de capacidades várias, promovendo uma cultura de empreendedorismo e não impondo um sistema centralizador de controlo. Em Silicon Valley, EUA, uma pessoa de 40 anos é provavelmente um dos empreendedores mais séniores. A maioria dos investidores não hesita em arriscar na faixa etária inferior a 25 anos.

Porém, construir um local como Silicon Valley requer características específicas culturais e de trabalho, as quais podem contradizer as normas da sociedade e agendas políticas. De facto, as maiores oportunidades exigem um conhecimento específico num determinado domínio, o que significa know-how profundo sobre uma indústria em particular, a qual se concentra em determinada cidade ou região. Neste contexto, em vez de se criarem em Portugal Silicon Valleys, podemos por exemplo lançar o Cork Valley (Vale da Cortiça) ou o Textile Valley (Vale dos Têxteis), focando toda a experiência, conhecimento e processos na próxima onda de inovação em cidades ou regiões onde exista conhecimento local especializado. Não nos podemos esquecer de que no ano 1800, apenas 3% da população vivia nas cidades, enquanto hoje 54% da população vive aí e as 100 maiores cidades são responsáveis por 30% da economia mundial.

Estas cidades que aspiram a ser centros globais de inovação têm de investir em infraestruturas, apoiadas em aplicações ligadas a big data, para além de desenvolverem uma cultura de abertura onde se trocam ideias e faz investigação longe da interferência política. Os países com governos centralizadores não vão conseguir competir, acabando por apenas drenarem recursos humanos de excelência.

A 4.ª revolução industrial vai, portanto, alterar muito a forma como se desenvolve o trabalho ao nível dos países, das cidades e das regiões. Em primeiro lugar, vai converter muito do trabalho empresarial e governamental em emprego flexível e livre. Um empregado de escritório poderá ser também um motorista da Uber ou colocar um apartamento no Airbnb para arrendamento. O importante será a inovação, a rapidez, o serviço e a qualidade. Nesta economia, será portanto difícil responder à pergunta “qual é a tua profissão?”, uma vez que o trabalho será o acumular de funções muito variadas.

Esta questão implicará com certeza redefinir o que constitui emprego e criar leis laborais em consonância. Os condutores da Uber, por exemplo, assumem-se como trabalhadores independentes e não como trabalhadores por conta de outrem. Esta tendência levanta, contudo, vários aspectos importantes, como quem controla o que o trabalhador faz, como são pagas as horas de trabalho, quem fornece as ferramentas, ou se existe algum tipo de contrato ou benefício. Dado que a maioria desta população ativa não quer estar sob um contrato salarial, questões como seguro de saúde, seguro de acidentes de trabalho e férias terão um caráter completamente diferente. No fundo, a economia partilhada está a criar microempreendedores que trabalham quando querem, onde querem e ao ritmo que querem.

Do ponto de vista do empregador, principalmente com o desenvolvimento de plataformas digitais, a oferta de emprego é global, permitindo a entrada de muitos países menos desenvolvidos, mas com cidadãos qualificados, aumentando assim a competição local. Para além disso, muito do trabalho será feito por robôs e computadores, os quais irão competir cada vez mais com as pessoas. 

Neste contexto, para poderem ser apelativos neste mercado de trabalho futuro e acompanharem estes desenvolvimentos tecnológicos, os trabalhadores precisam de desenvolver habilidade cognitiva; capacidade para resolver problemas complexos de uma forma transversal e flexível; fluência multicultural e interdisciplinar, uma valência dificilmente atingida por computadores; inteligência contextual, a qual permite entender o valor dos vários setores da sociedade, sendo muito importante a colaboração com líderes da indústria, governo, sociedade civil e universidades e onde as fronteiras entre os setores se esbatem. É também essencial desenvolver inteligência emocional, para atingir outros níveis de motivação, empatia, autocontrolo, autoconsciência e aptidão social.

No futuro próximo, vamos ter robôs a ajudarem-nos diariamente, telemóveis subcutâneos, cidades sem semáforos, impressão a 3D de órgãos humanos, automóveis e aviões completamente autónomos, animais extintos de volta ao planeta Terra e o primeiro ser humano com o código genético totalmente editado. Em simultâneo, teremos de lidar com questões éticas profundas, como, por exemplo, a extensão da vida humana, quem se responsabiliza pela condução de automóveis autónomos ou quem controla a inteligência artificial.

Afinal de contas, como disse John Schaar, “o futuro não é o lugar para onde vamos, mas o lugar que nós criamos. Os caminhos para lá chegar não são descobertos mas feitos, e a forma de os fazer muda não só quem os traça, como o destino final”.

O autor escreve segundo o novo Acordo Ortográfico