Israa al-Ghomgham pode ser a primeira mulher saudita executada por activismo

ONG pede "protestos em todo o mundo". A última sessão do julgamento está agendada para 28 de Outubro.

Uma manifestação em Qatif
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Uma manifestação em Qatif REUTERS/Zaki Ghawas

Um grupo de activistas sauditas de direitos humanos alerta para a possível decapitação de uma activista política da Arábia Saudita. A condenada é Israa al-Ghomgham, que a 6 de Agosto foi provisoriamente sentenciada à morte por um tribunal de Riade, conta o Middle East Eye (MEE).

Israa al-Ghomgham, 29 anos, está detida há aproximadamente três anos, por liderar e participar em manifestações contra o Governo, em Qatif, na província oriental do reino. Estas manifestações, organizadas pela minoria xiita do país, pediam mais igualdade e o fim da discriminação da minoria religiosa.

Israa al-Ghomgham está entre o grupo de seis pessoas que foram então detidas e acusadas de incitação à desobediência — por “repetirem slogans contra o Estado”, conforme se lê na acusação —, e de apoio moral a manifestantes contra o Governo. A activista foi também acusada de terrorismo, “por criar o caos no país”, defendem os procuradores sauditas, citados pela emissora alemã Deutsche Welle

A sessão final do julgamento está agendada para 28 de Outubro: nessa altura que Ghomgham saberá se enfrenta pena de morte ou não. Na Arábia Saudita a morte por guilhotina tem de ser ratificada pelo rei. A confirmar-se o veredicto, Ghomgham será a primeira mulher saudita a enfrentar a pena de morte por activismo.

Para já, “a vida dela está a salvo”, afirmou Ali Adubisi, director da Organização para os Direitos Humanos Europeia-Saudita, mas o tempo escasseia. Por isso, o responsável pela organização não-governamental pediu “protestos em todo o mundo, em solidariedade e em defesa da sua liberdade e vida”.

Adubisi diz que a saúde da activista se deteriorou durante o tempo de detenção. “A prisão é muito má. Há tortura psicológica e física aqui”, afirma o responsável, que também há esteve preso durante um mês. “A repressão está a aumentar na Arábia Saudita”, disse em declarações ao MEE.

“Sentenciar uma defensora dos direitos humanos abre um precedente perigoso na Arábia Saudita”, disse Ali Adubisi à BBC. “É sobretudo uma vingança contra a Primavera Árabe e um castigo para Qatif, que registou os maiores protestos desde 2011."

De acordo com o relatório de 2018 do Observatório dos Direitos Humanos, as autoridades sauditas discriminam a minoria xiita em temas centrais como “educação pública, sistema de justiça, liberdade religiosa e emprego”. São especialmente intolerantes face a protestos.

Os ataques à minoria religiosa já custaram a Riade os laços diplomáticos com o Irão, pais de maioria xiita. O afastamento foi ditado pela execução, em Janeiro de 2016, de um clérigo xiita, o xeque Nimr-al Nimr.

Um relatório das Nações Unidas, publicado em Junho, concluiu que a Arábia Saudita usava, de forma sistemática, leis antiterrorismo para suprimir defensores dos direitos humanos: “Os que exercerem o seu direito à liberdade de expressão de forma ordeira são sistematicamente perseguidos na Arábia Saudita”, lê-se no relatório. “Muitos passam anos na prisão, outros são executados.”