Opinião

O clericalismo podre

O problema da pedofilia só será aplacado na medida em que a Igreja seja capaz de rever as suas posições no tocante à ordenação de padres, admitindo que o celibato seja facultativo e abrindo as portas a que os clérigos possam contrair matrimónio.

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Max Rossi/Reuters

"Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele". São as palavras de S. Paulo que o Papa Francisco pede emprestadas na carta hoje conhecida. Cremos que ela é o mais duro e veemente reconhecimento de dor, vergonha, necessidade de conversão e “tolerância zero”, como aí se escreve, em relação aos abusos sexuais de crianças e jovens que, ao longo dos últimos anos, têm vindo a lume. Culminaram com a colocação à disposição do Sumo Pontífice das dioceses de todos os bispos do Chile e, agora, com a revelação de uma investigação judicial nos EUA que aponta para números impressionantes de abusos calados, consentidos e ao menos cúmplices das mais altas hierarquias católicas da Igreja norte-americana.

Diz-se que esta chaga foi um dos motivos para a surpreendente resignação de Ratzinger. S. João Paulo II já se referia a estes crimes, embora de modo menos claro. Bergoglio, com a coragem da sensatez e da humildade, escancarou as portas da verdade ao mundo: há criminosos na Igreja, nos seus mais diversos patamares de responsabilidade. Por certo não se trata de uma prática generalizada e não tomemos a nuvem por Juno. Mas os delitos são muitos, sendo que apenas um seria suficientemente grave para causar a repulsa de todas e todos nós. Falamos de seres humanos que consagram a sua vida ao serviço dos outros, imagem incarnada de Deus. Referimo-nos a homens em quem a comunidade deveria encontrar exemplos de rectidão, de lisura de comportamento, de uma hierarquia que devia servir o Povo de Deus e não os seus apaniguados. Quando assim é, não há diferenças entre bispos e cardeais, ou mesmo papas, e a podridão de classes políticas que encobrem aqueles que são da sua cor.

Nunca se pode admitir, como durante demasiado tempo foi a posição sub-reptícia da Igreja, que a omissão seja a melhor forma de não causar escândalo, de “preservar a imagem da instituição”. De que serve uma instituição que devia ser de verdade e serviço, quando apenas cuida da sua autopreservação, apostada no clericalismo que corrói e mata, como bem refere Francisco?

Os casos de abusos sexuais devem ser investigados doa a quem doer. E se à luz da lei dos homens há prescrição do procedimento criminal, como lembra o Papa na sua carta, à luz do Senhor, estas monstruosidades não consentem apagamento da memória. Desde que chegou ao trono petrino, Francisco alterou várias normas de Direito Canónico no sentido de punir mais severamente os consagrados que perpetram estes crimes, para além de ter nomeado representantes seus, com plenos poderes, para investigar autonomamente regiões, países e congregações. Aceitou já várias resignações de altos dignitários da Igreja e a jornada de auscultação, oração e planeamento com todos os bispos do Chile é um exemplo claro que Bergoglio pretende dar ao mundo de que, com ele, não mais a Igreja terá, no tema, a posição titubeante que envergonha crentes e não-crentes.

O problema, para além disto, só será aplacado na medida em que a Igreja seja capaz de rever as suas posições no tocante à ordenação de padres, admitindo que o celibato seja facultativo e abrindo as portas a que os clérigos possam contrair matrimónio. Tantos séculos para uma instituição perceber que a maior parte dos seres humanos têm necessidade biopsicológica de viver a sua sexualidade, sem que nisso haja nada de sujo ou impuro. A tradição é a única que dita esta regra, como abundantes estudos teológicos o vêm demonstrando. Acresce a necessidade de o clero se submeter a exames de saúde mental, à entrada na vida consagrada e ao longo dela, pois não falamos propriamente de uma “profissão”, mas de uma vocação que lida com o que de mais profundo existe na alma humana. E que, por isso, convoca a confiança comunitária, entrega as pessoas mais preciosas – as crianças e os jovens – ao colo protector de clérigos que, ao invés, assumem o papel de verdadeiro Lúcifer, lembrando Francisco que o anjo caído em desgraça, amiudadas vezes, se reveste da forma do anjo da Luz.O que de mais importante a carta de hoje traz, espero, é o não poder mais assobiar-se para o lado. Francisco podia continuar a fazer o que tem feito: seria importante, mas não suficiente. Ao escrever a carta que dirige a todo o Povo de Deus, o Papa convoca-nos a todas e a todos a não ficarmos indiferentes, em silêncio, pensando no que será mais cómodo para nós ou para a religião que professamos. Jesus nunca foi cómodo. Por isso morreu, e de morte na cruz. Permanecer no silêncio cúmplice é não respeitar a imagem de Maria, de pé ao lado do último suspiro de seu Filho, fortíssima analogia que Francisco também convoca.

Falta uma verdadeira reflexão alargada a todos, crentes e não-crentes, no sentido de rever questões de ordenação clerical e da dita “moral sexual”. Quanto mais a Igreja se abre ao mundo, mais se enriquece, ao invés do que tantos altos dignitários pensam. Foram séculos de obscurantismo, de jogadas de bastidores, de confusão entre política suja e religião. E há muitas mentes de padres, bispos, arcebispos, cardeais e papas que necessitam, com urgência, de um verdadeiro processo de descolonização mental.

Que Deus conceda ao Papa Francisco e a todos nós a coragem para colocarmos à frente de interesses próprios e alheios os das irmãs e irmãos que sofrem às mãos daqueles que deveriam ser seus portos seguros.