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Não existe planeta B

Todos sabemos que a poluição dos oceanos é causada principalmente por dejectos industriais, esgotos domésticos e despejo de lixo por banhistas e navegantes, mas muitos de nós prefere pensar que quem vier atrás fechará a porta.

Todos os dias, a ciência procura contradizer o título desta crónica, procurando um planeta B porque o nosso está predestinado aos dias do fim causados pela mão humana de todos os homens e mulheres.

Marte é, desde a nossa infância, o planeta escolhido como planeta B, revelando uma panóplia de histórias mirabolantes que nos contam as invasões de marcianos, abduzindo consigo algumas vidas humanas.

Talvez seja melhor, neste contexto, enfatizar que, recentemente, Iker Casillas utilizou o Twitter para nos dizer que não acredita que o ser humano tenha pisado a Lua, que estas histórias são apenas histórias — não vá o guardião portista temer ser abduzido por marcianos ou alguns astronautas revoltados, cuja profissão acredito que se desvia das artes teatrais.

Marte é o planeta vermelho dos sonhos do ser humano, no qual temos procurado ver jorrar as Cataratas do Niágara que arrastam consigo a esperança da vida em todas as suas forma, através da existência de água.

Marte, o guerreiro, está aparentemente destinado a ser o nosso grande salvador, quando o nosso planeta explodir — literalmente — pelo aquecimento global, pelo esgotamento dos seus recursos naturais e pela poluição que lançamos de forma irresponsável para os oceanos.

Acredito que uma grande maioria de nós cresceu a ouvir em loop a frase " Não se atira lixo para o chão". Infelizmente, pelo que vejo nas ruas e através da falta de civismo que tantas vezes me aquece as orelhas, esta frase não foi transformada na atitude que deriva de si mesma — e todos sabemos que, nesta vida, importa mais o que se faz do que aquilo que se diz.

Confesso que não sou perfeita nesta temática — como aliás não o sou em tantas outras e admito-o. Estarei na linha dos tons de cinza repletos de "pantones" de aprendizagem. Por vezes recordo os dias na esplanada em que aquele papel ganhou asas com o vento e eu, no primeiro segundo, não fui a correr para o agarrar.

Mas, nos segundos seguintes, estava lá alguém cujo olhar quente, com aquela força da repreensão ou do amor, me fez correr por entre a desintegração dos átomos do tempo, devolvendo o papel ao lugar que lhe correspondia. Lugar esse que não é, seguramente, uma vida solitária poluindo a via pública.

Não é ao acaso que escrevo sobre isto: estava a mergulhar na espuma das ondas da Ilha da Armona — ou, melhor dizendo, no destino que alguém encontrou para uma carta que o meu lado romântico vai considerar ser de amor.

Quanto mais mergulhava, mais trazia à tona coladas à minha pele aquelas múltiplas frases que alguém decidiu rasgar no mar, que afinal de contas é um caixote do lixo que se regenera. Melhor dizendo, regenerava: os oceanos perderam a sua capacidade natural de regeneração face à carga poluente humana.

Nesse mesmo dia via as fotografias impressionantes da onda de lixo, esta verdadeiramente catastrófica e preocupante, que inundou a República Dominicana. Este país tem invadido os olhos através dos postais que reflectem praias paradisíacas onde a maioria de nós sonha ou já sonhou estar, ainda que não sejam, de todo, as praias mais magníficas do mundo, na minha opinião. A organização não-governamental Parley declarou ter retirado mais de 1000 toneladas de lixo do local apenas no decorrer destes dias.

Todos sabemos que a poluição dos oceanos é causada principalmente por dejectos industriais, esgotos domésticos e despejo de lixo por banhistas e navegantes, mas muitos de nós prefere pensar que quem vier atrás fechará a porta.

O problema é que começamos a deixar de ter porta para fechar e a realidade é que não existe ainda planeta B. Muito provavelmente não vai existir.