Nandinho era a mascote do Campus da Justiça

Nandinho dormia numa bela cama que lhe improvisaram dentro do Departamento de Investigação e Acção Penal. O Campus da Justiça de Lisboa nunca tinha tido uma mascote e não voltou a ter outra

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Sobrevivente de uma ninhada cuja mãe não tardou a desaparecer, era pequenino quando começou a frequentar o mundo dos juízes, procuradores e advogados. Afeiçoou-se à nona secção do DIAP, a que mais lida com a corrupção. Quando apareceu, em Agosto, dormia ao relento, mas depois veio o frio e foi preciso aconchegá-lo. Primeiro montaram-lhe um pequeno abrigo em papelão, mas o frio e a chuva do Inverno seguinte amoleceram os corações dos magistrados. “Morava na recepção do DIAP, junto ao funcionário da segurança, meio escondido. Passou a ter uma cama como devia ser”, recorda a procuradora Ilda Carvalho.

O à-vontade com que o gato entrava e saía das instalações bulia com a organização gizada pelos burocratas que dirigiam a logística do Campus, que chegaram a tentar que saísse dali. Meteram-se com quem não deviam: a procuradora Maria José Morgado, que dirigia o DIAP e tinha escritório na torre que abrigava Nandinho, enfrentou-os com vários calhamaços de leis. “Até havia uma pasta no DIAP com várias fotos do Nandinho”, assegura Ilda Carvalho.

A mascote tinha direito a almoço e a jantar. Havia advogados que quando iam consultar os intrincados processos à nona secção levavam uma guloseima ao bichano. Ufano da sua condição de mascote, Nandinho começou a aventurar-se por outras paragens. Foi assim que ganhou uma segunda família: ali ao lado, no Tribunal de Instrução Criminal, conhecido no jargão judicial por TIC, os funcionários passaram a chamá-lo Tiquinho.

Durante os quatro ou cinco anos que morou no Campus houve momentos em que o cerco se parecia apertar em redor do animal. Como na altura em que os edifícios deixaram de ter funcionários de segurança durante o fim-de-semana. Como havia Nandinho de entrar e sair a seu belo prazer? Não podia voltar a dormir ao relento. Como a necessidade faz um engenho, foi montado um complexo esquema que passava por Nandinho ter uma segunda alcofa nas traseiras, junto à escada de emergência, e por funcionárias da limpeza abrirem à sorrelfa portas que por regra deviam estar fechadas.

“O gato era de toda a gente, todos se preocupavam com ele”, descreve a mesma magistrada, a quem cabia a difícil tarefa de levar o bichano ao veterinário. O animal não gostava, e apanhá-lo era o cabo dos trabalhos. Para piorar as coisas, Nandinho não parecia ter grande apreço pelo universo feminino. Preferia acamaradar com homens fardados. Se havia coisa de que gostava, era de acompanhar as rondas dos polícias ao final do dia, como se tivesse nascido cão. “Era um sexista”, ri-se a procuradora.

Maria José Morgado chegou a falar mencioná-lo numa das suas crónicas no Expresso, intitulada “O efeito dos crimes de violação do segredo de justiça no comportamento de um gato feliz”. O motorista da magistrada também se afeiçoou ao animal: bastava assobiar-lhe para ele aparecer.

“Não lhe faltava nada”, assegura um dos seguranças que tratavam do bicho, e que chegava a comer as sandes que levava para o trabalho sem nada dentro para dar ao felino o fiambre que com que as tinha recheado. “Ele era lindo, lindo, lindo!”, descreve o funcionário. Coleiras é que não eram com ele: destruía todas que tentavam pôr-lhe.

Um dia Nandinho desapareceu para só regressar um mês depois, bastante maltratado. O que lhe sucedeu só ele o soube, mas teve de ficar internado no hospital tanto tempo como aquele que andou por fora. Lá recuperou, a expensas dos magistrados do campus.

Foi num dia em que chuviscava, já lá vão uns bons dois anos, que a mascote foi vista no campus pela última vez. Terá sucumbido às tentativas dos burocratas para o afastarem de vez dali? Ou a um automóvel mais rápido? O seu desparecimento entristeceu muita gente: “Então o Nandinho lá foi, não é?”.

Mas não, o gato do campus não morreu. Pelo menos por completo: foi imortalizado na página que o DIAP de Lisboa tem na Internet e chegou a ser capa de pelo menos um relatório oficial deste departamento. Mas porque lhe chamaram Nandinho? A explicação é simples, uma espécie de gato escondido com o rabo de fora: mais conhecido por Pinto Monteiro, o procurador-geral da República da altura tinha de nome próprio Fernando.

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