Riscos não travam couchsurfers de fugir ao roteiro turístico tradicional

Redes sociais debaixo do olho da polícia, viagens com contrabandistas e fotografias com rebeldes fazem parte das histórias de quem usa o site couchsurfing para fugir do roteiro turístico tradicional. Os riscos são uma escolha consciente de quem aposta nestas viagens.

Irã: Tausend und ein Widerspruch, Couchsurfing im Irã: Meine Reise hinter verschlossene Türen
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Stephan Orth nos Kaluts, castelo de areia no Irão Stephan Orth
Riquixá, cadeira, sentado
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Katrin Einarsdottir diz que o Sudão foi dos países que mais a surpreenderam Katrin Einarsdottir
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Katrin Einarsdottir no Sudão Katrin Einarsdottir
Stephan Orth, Couchsurfing em Russland: Como você está indo para Putin-Versteher, Couchsurfing em Irã: Meine Reise hinter verschlossene Türen
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Stephan Orth

“É desta que está tudo estragado”, pensou o alemão Stephan Orth, numa pequena esquadra em Nowsud, no Irão, perto da fronteira do Iraque, onde estava a ser questionado depois de ser encontrado sem passaporte.

Tinha mentido. Na realidade, a documentação estava na mala, junto com a câmara cheia de fotografias e três blocos de notas sobre o país do Médio Oriente onde estava a viajar via couchsurfing, uma aplicação móvel para encontrar alojamento grátis, com habitantes locais. No Irão, fora das redes sociais, a prática é tabu.

“É visto como uma entrada para espiões. É preciso registarmo-nos num período de 24 horas junto da polícia se vamos ficar a viver com pessoas do país, mas quase ninguém o faz”, diz Orth, 38 anos, ao PÚBLICO. Na parede, lembra-se, estava um retrato do ayatollah Khomeini. Na secretária, um portátil da Samsung onde os polícias anotavam tudo o que dizia.

“Tive sorte. Não confirmaram se estava mesmo num hotel e tinha imagens mais sensíveis, com álcool, noutro cartão de memória. Nada online. O passaporte ‘encontrei’ na mala depois de 'procurar melhor'. Quando me interceptaram, os polícias não tinham uniforme”, explica Orth. “Achei que era um esquema para roubar, mas estavam só de folga.”

Em países como o Irão, onde estrangeiros são vistos com desconfiança, é hábito as autoridades tentarem apanhar couchsurfers disfarçados. As publicações nas redes sociais dão o alerta. “Por causa disso, muitas vezes não sabemos com quem estamos a falar até chegar. Os nossos anfitriões usam nomes e moradas falsas online”, diz ao PÚBLICO Katrin Einarsdottir, uma islandesa de 31 anos que também corre o mundo com a aplicação móvel. Começou a utilizar o sistema aos 21 anos, na primeira viagem que fez sozinha — até Paris, em França —, quando uma amiga lhe disse como podia prolongar o passeio além-fronteiras sem gastar dinheiro em hotéis.

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O alemão não guardava as imagens mais sensiveis, de jantares e pequenos almoços com famílias iranianas, online. Felizmente, a polícia não vasculhou os cartões de memória na mala Stephan Orth

couchsurfing, que nasceu em formato de site no início dos anos 2000, é a resposta para quem quer experimentar a cultura de um país do ponto de vista de um cidadão ou tem um orçamento apertado. Desde 2007, Katrin Einarsdottir já visitou perto de cem países através da rede social para viajantes, incluindo sítios difíceis de explorar através de um roteiro turístico tradicional como o Afeganistão, o Gana, a Eritreia e o Sudão. “Admito que os pseudónimos de utilizadores de alguns países me deixam um pouco insegura, mas sinto-me mais grata pelo esforço que as pessoas nestes países fazem para nos alojar”, diz Einarsdottir.

O PÚBLICO tentou contactar os responsáveis do couchsurfing para perceber melhor o fenómeno, mas não conseguiu resposta. No fórum do site, os utilizadores partilham vários motivos pelo interesse nestes países: curiosidade em descobrir culturas muito diferentes, vontade de visitar patrimónios da história mundial sem turistas em volta (as ruínas de Herat, no Afeganistão, são dos locais mais populares) e vontade de ir a locais pouco recomendados pelas agências de viagem e pelos governos dos países de origem. Em Portugal, por exemplo, o Ministério dos Negócios Estrangeiros “desaconselha todas as deslocações ao Afeganistão” e lembra que, “em caso de detenção de um nacional em território iraniano, a margem de intervenção da embaixada portuguesa poderá ser limitada”.

Riscos reais

Este tipo de turismo não é para todos. “Há zonas para onde não iria, como uma zona de guerra”, diz o alemão Stephan Orth, que narra as suas experiências, pela Rússia e Irão, numa série de livros. “Mas admito que gosto de passar a linha. É nas zonas com ‘má reputação’, que as embaixadas pedem para ter algum cuidado, que encontro as pessoas mais acolhedoras. Querem partilhar a sua cultura sem a vender e sabem os sítios onde não se deve levar estrangeiros.”

O alemão frisa, no entanto, que há riscos. “Tive medo quando entrei, por engano, num autocarro de contrabandistas de petróleo no Médio Oriente e me deixaram no meio da auto-estrada." No final, conseguiu boleia de volta para a cidade, sem um encontro adicional com criminosos ou com autoridades.

Em 2012, Nenad Stojanovic, um couchsurfer da Sérvia, teve menos sorte. Foi detido e questionado na fronteira entre o Tajiquistão e o Afeganistão, ao ser confundindo com um taliban, depois de dias a dormir, sem saber, na casa de rebeldes. A experiência, que partilhou nas redes sociais e foi recontada pela imprensa, tornou Stojanovic uma celebridade online: os talibans no couchsurfing foram descritos como antigos soldados, curiosos sobre o mundo além-fronteiras. Hoje, Stojanovic é mais discreto. Continua a viajar através da aplicação e a partilhar a experiência em países por onde poucos turistas passam no Instagram, mas diz ao PÚBLICO que não gosta de recontar detalhes à imprensa para “evitar problemas em alguns países” que não dão vistos a pessoas que já estiveram em locais como o Afeganistão.

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Desde 2001 que Katrin usa o couchsurfing para viajar pelo mundo Katrin Einarsdottir

Há histórias com um final menos feliz. Em 2012, um casal de alpinistas a passar pelo país foi sequestrado por talibans. Foram libertados apenas cinco anos mais tarde, com os três filhos nascidos em cativeiro. Anos antes, Andrew Barber, um turista britânico com 43 anos, ficou dois meses numa prisão iraniana depois de ser apanhado fotografar o pôr do Sol. O crime: torres de transmissão eléctrica e uma fábrica à vista na imagem, e o portátil cheio de fotografias do Iraque. 

Estes casos — narrados em páginas de jornais — não travam os interessados. As chegadas de turistas ao Afeganistão, por exemplo, têm estado a diminuir desde que as forças da NATO saíram do país, mas na aplicação do couchsurfing há 530 membros a discutir possíveis viagens e cerca de 100 visitantes no país. Já no tópico do Iraque, há mais de 300 a debater como visitar o país. 

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Orth, numa viagem em Makhachkala, Russia. O alemão lembra que nunca se sabe o tipo de quartos que se vai encontrar. Gulliver Theis

No meio académico, a tendência de vários turistas procurarem viajar até locais associados a antigas guerras, conflitos, pobreza, ou não recomendados para estrangeiros, é descrito como parte do turismo negro ou de guerra. Está a crescer nas redes sociais. “Partilhar fotografias e histórias de destinos exóticos e caros não é nada de novo, dentro ou fora das redes sociais. Com a competição das partilhas nas redes sociais, o mundo torna-se um local mais desafiante para encontrar sítios onde as pessoas se destaquem”, escreve o investigador Jeffrey Podoshen num ensaio sobre o tema. Um dos desejos é “fugir de experiências turísticas comuns” e partilhá-las com o mundo.

Difícil acesso

Nos fóruns online, é fácil encontrar dicas sobre como entrar em países com restrições de acesso. Katrin Einarsdottir candidatou-se três vezes a um visto para a Arábia Saudita até acertar no truque. “Lá, o conceito de um visto de turista apenas existe para muçulmanos em peregrinação”, explica. “A minha única opção era provar que precisava de passar pelo país em viagem. Consegui na embaixada da Arábia Saudita, no Sudão, ao dizer que tinha de deixar o país numa semana e o voo mais barato era através da cidade de Jidá.”

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Raparigas iranianas perto da sepultura do poeta Hafez em Xiraz Stephan Orth

Para Einarsdottir, a tolerância é a chave para este tipo de viagens funcionar. “Temos de conseguir abdicar de algumas opiniões e ideias durante algum tempo para respeitar os outros.” Em zonas mais pobres, avisa, é normal os anfitriões pedirem dinheiro. “Alguns vêem sites para falar com estrangeiros como uma saída. Seja para encontrar parceiros, mudar de país, ou pedir apoio financeiro.” Já lhe aconteceu. “É difícil escapar. As pessoas esperam até que haja uma relação de confiança e amizade, só depois é que pedem. Chego a pagar jantares ou refrigerantes em festas. Até certo ponto, acho justo porque me estão a hospedar e ensinar a cultura, mas nunca dou dinheiro directamente.”

No seu blogue, Einarsdottir descreve-se como uma nómada cosmopolita  e partilha alguns dos costumes mais peculiares com que se depara nas viagens. O Irão, onde há uma grande diferença entre o espaço público e o privado, foi das viagens que mais a surpreenderam.“Lá, a sighe é uma forma legal de prostituição, apoiada pelo Governo. Os homens pagam para casar com uma mulher, por uma hora, uma semana ou até um ano. Durante esse tempo, podem ter sexo sem a mulher ser considerada uma prostituta”, explica Katrin Einarsdottir.  Em paradoxo, “homens e mulheres que não estão casados ou não são família não podem andar juntos na estrada”. No entanto, nas viagens de comboio durante a noite, a islandesa chegou a partilhar cabines com ambos.“Isto não se vê em hotéis ou em filmes”, conclui a islandesa.

Tanto Stephan Orth como Katrin Einarsdottir dizem que a popularização dos smartphones facilitou muito o processo de conhecer pessoas, reais, em qualquer ponto do globo. Embora o acesso à Internet e a telemóveis esteja longe de ser universal, ambos dizem que é fácil encontrar as pessoas ligadas à Internet e com curiosidade em aprender sobre outras partes do mundo no couchsurfing. Para evitar problemas, o alemão Stephan Orth recomenda comprar sempre um cartão SIM do país quando se aterra, evitar anfitriões sem fotografias na Interne e, acima de tudo, ter flexibilidade. 

“Tenham sempre um plano B”, diz Orth. “Usar o couchsurfing permite experiências incríveis, mas não é como ir ter com um amigo de longa data. Por vezes, as pessoas atrasam-se horas. Outras vezes, desaparecem sem rasto. Para fazer isto, é preciso saber lidar com o inesperado.”