Crónica de jogo

A Croácia quer dar uma nova casa ao futebol

Mandzukic, já no prolongamento, deu o triunfo aos croatas na meia-final frente à Inglaterra. No próximo domingo, há a oportunidade de desforra frente à França.

Mandzukic marcou o golo da vitória croata
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Mandzukic marcou o golo da vitória croata Reuters/CARL RECINE

Se a Inglaterra queria promover o regresso do futebol a casa, então a Croácia quer dar-lhe uma nova casa e continua a poder fazê-lo. Pela primeira vez na sua história, a selecção croata vai disputar a final do Mundial de futebol, depois de nesta quarta-feira ter triunfado por 2-1, em Moscovo, e após prolongamento, sobre os ingleses. Um golo de Mandzukic, na segunda parte do tempo extra, garantiu à selecção balcânica a presença na final de domingo frente à França. Quanto à Inglaterra, terá de contentar-se com o jogo de sábado pelo terceiro lugar com a Bélgica.

Foi um triunfo arrancado no limite, como aliás têm sido quase todos os triunfos da Croácia neste Mundial, sobretudo nos jogos a eliminar, em que teve sempre de ir a prolongamento. Se nos dois primeiros, contra Dinamarca e Rússia, só ganhou nos penáltis, desta vez não precisou de chegar tão longe.

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Seja como for, a selecção croata irá estar na final de domingo, em Moscovo, com o equivalente a mais um jogo nas pernas que a França. Mas irá ter um suplemento de energia inesgotável com a vontade de escrever a história para um país que só há poucas décadas conseguiu o seu lugar no mundo. Será uma final inédita com sabor a “dejà vu”, já que ambas as selecções se defrontaram nas “meias” do Mundial de 1998 que daria o título aos “bleus”.

Não podiam ser mais diferentes as heranças futebolísticas em campo. Os ingleses só pensam numa coisa desde 1966, o de recuperarem o título mundial no desporto que inventaram há mais de um século, um pensamento reavivado de forma cada vez mais intensa à medida que os miúdos de Southgate iam avançando. Os croatas, detentores da melhor parte da herança do futebol jugoslavo, queriam continuar a derrubar barreiras na sua curta história de nação futebolística independente e aproveitar o ponto de maturação de mais uma grande geração de artistas.

A primeira hora do jogo foi quase toda para os rapazes ingleses. Logo aos 5’, foi Kieran Trippier, um lateral-direito com utilização irregular no Tottenham, a arrancar um potente remate de fora da área na marcação de um livre directo que não deu qualquer hipótese a Subasic. Isto era a Inglaterra a mostrar uma das suas maiores qualidades neste Mundial, a eficácia tremenda nas bolas paradas.

A Croácia teria de responder com as suas melhores armas, a melhor de todas a capacidade de Luka Modric em descomplicar as coisas. Alimentada pela liderança simples do médio do Real Madrid, a formação balcânica teve alguns momentos em que podia ter empatado, como um remate rasteiro de Perisic aos 19’, ou outro de Rebic aos 32’ que Jordan Pickford, o jovem guarda-redes britânico, defendeu.

Apesar destes dois lapsos, a jovem Inglaterra parecia estar no controlo, com Jesse Lingard a assumir o protagonismo no ataque em duas situações, aos 30’, com um passe que Harry Kane não aproveitou, e aos 36’, quase a tirar frutos de uma escorregadela de Vrsaljko.

Mas esta não era a primeira vez que a Croácia se via a perder nas eliminatórias do Mundial. Na verdade, era a terceira. E, tal como aconteceu frente a dinamarqueses e russos, o empate acabou por ser um desenvolvimento natural.

Aos 68’, Vrsaljko fez o cruzamento e Ivan Perisic, nas costas de Kyle Walker, conseguiu rematar na direcção certa. E aqui começou a cair a confiança britânica, na mesma medida em que subiu a fé croata. No prolongamento, a selecção balcânica mostrou que é a maior sobrevivente deste Mundial e conseguiu poupar-se a si própria mais uma angústia dos penáltis. Aos 109’, Perisic aproveitou uma falha colectiva na organização da Inglaterra e conseguiu traçar a trajectória ideal para meter a bola nos pés de Mandzukic. O avançado da “Juve” meteu-a lá dentro e garantiu ali o seu lugar e de toda a selecção croata na história do futebol.